Vamos para uma sociedade mais justa e humana?

“ Sempre quando um acontecimento qualquer

precisa de um equivalente físico, faz efeito através

do corpo quanto-mecânico do homem. É aí onde se

encontra oculto o segredo como se juntam os dois

universos de espírito e matéria, sem cometerem

nenhum erro.” Deepak Chopra

Considero o texto abaixo reproduzido, que me foi enviado por um amigo brasileiro, um psiquiatra de Porto Alegre, o texto mais interessante e notável que li em 2009.

Ainda considero que o exposto – com excepção de algumas particularidades brasileiras – não diz apenas respeito ao Brasil mas a todo o mundo ocidental. E ainda tenho um reparo: quando o autor diz “…que estamos vivendo um momento histórico na sociedade brasileira, que vai gerar uma sociedade justa e humana…”, admito que isto pode ser subjectivamente ser sentido assim. Todavia, o Brasil, tal como todos nós, ainda não se encontra liberto dos efeitos da era cartesiana. Repito: a ascensão económica que o país actualmente está vivendo e que é subjectivamente sentida por muitos, ainda ocorre dentro do caduco paradigma cartesiano. Só quando este for superado, quando o novo paradigma se instalou de vez, então sim uma “sociedade mais justa e humana” vai ter lugar. Não deve faltar muito.

Rolf Dohmer

P.S. Como sempre ocorre com estes textos geniais, também aqui falta no fim a dica concreta como se pode promover e acelerar essa mudança de forma pacífica, convertindo as tensões potencialmente destruidoras em novo crescimento orgánico.

O equívoco da tecnocracia e o desperdício do Brasil.

O pensamento científico vem do século XVII, o século que não acabou pois as questões colocadas no nascimento da modernidade – mente, cérebro, ciência, universo – continuam aí demonstradas em total confusão conceitual, sem alguma coerência com uma visão de natureza e sociedade que seja verdadeiramente racional. O pensamento tecnocrata surge da gestão dos recursos naturais e humanos com base apenas nos ditames matematizados e testados por estatística da ciência cartesiana, que crente em ser a única opção para explicar a natureza, desenvolve uma crença irracional em certezas sobre a própria, passando a ter um olhar colonizador, o pensamento único, que não admite outras verdades possíveis, e atropela tudo o que estiver pela frente: animais, paisagens, comunidades, manifestações culturais, e vai afirmando um modo de vida consumista, excludente, que insiste em separar melhores dos piores, superiores e inferiores. Nenhuma novidade, a construção da sociedade ocidental se deu nessas bases, e nós brasileiros, particularmente os bem-educados, fomos criados dentro dessa visão de mundo, tanto é assim, que nossas elites são versões mal-acabadas de cidadãos europeus e norte-americanos cujos sonhos e desejos estão todos voltados para o progresso material, para as capitais do jet set e o glamour das celebridades de modo que ao menor acontecimento cultural social imediatamente observamos as famigeradas “pulserinhas” ou “brochinhos”, faixas de separação guardadas por seguranças dos geneticamente superiores, os VIPs “bem-educados”, da massa marrom em baixo do sol escaldante. Essa massa mestiça, o povo brasileiro, que geralmente vive em situação medieval, com imolações públicas nas praças de suas comunidades, esgoto a céu aberto, altos índices de tuberculose, limpeza étnica – assassinato de grupos raciais e etários (negros e jovens), fica na fila olhando desejosa para sua liderança social de olhos azuis, tão parecida com os colonizadores do Atlântico Norte, querendo fazer parte daquele círculo exclusivo, com roupas de grife e ar condicionado, pagando, claro, os impostos desse circo social cruel e implacável que vem destruindo a nação brasileira e o futuro de sua gente há gerações.

Estamos fazendo isso, quando podíamos fazer diferente. Quando é totalmente claro que essa forma de olhar a natureza é um equívoco sustentado por interesses comerciais irresponsáveis, comprometidos com o projeto de outras nações que não a brasileira, que gera um controle ideológico e cultural mediocrizante, dentro do qual os bem-educados foram criados, em universidades e fundações de pesquisa que mais se assemelham a mausoléus intelectuais, expostos a uma produção artística puramente comercial, que cria a identidade de consumidores, implantando desejos fúteis e padrão comportamental de madame rica, onde reina o autoritarismo, o culto do ego e das capacidades individuais, a ignorância e sua filha mais perigosa: a arrogância. Fazendo-se assim uma realidade opressiva ciclicamente viciosa, o de baixo desce e o de cima sobe.

Mas nós não podemos nos anestesiar frente a violento equívoco epistemológico-político, da natureza do conhecimento. Precisamos nos informar um pouco mais profundamente que a novela e os jornais e enxergar que há uma revolução em andamento, que esta noite milhares de telescópios estão apontados para o céu e que as “pessoas comuns” estão vendo o movimento dos planetas e se dando conta de que a verdade é filha da história e não da autoridade, quando está cristalinamente claro que o atual modelo econômico-social-cultural é um dos maiores erros da sociedade ocidental e o mais importante, que o povo brasileiro, particularmente o carioca, é um povo criativo, transformador, que resiste ao abuso histórico e insiste em afirmar que é possível a nossa sociedade, que nós temos uma identidade singular que tem que ser respeitada e estimulada pois sabemos que esse é o maior patrimônio desse país que inventou um novo gênero de humanidade, um povo mestiço, mais alegre porque mais sofrido, que resiste diariamente a tanta barbaridade, que acolhe todos os povos, que é referência cultural internacional, com a cultura popular mais exuberante e rica do mundo, objeto de roubo intelectual pelas indústrias internacionais, povo esse que produziu um presidente operário pela primeira vez na história de seu país, que estamos vivendo um momento histórico na sociedade brasileira, que vai gerar uma sociedade justa e humana, produtora de uma ciência mais biológica, mais harmônica com a natureza, que concilie o conhecimento tradicional de nossos ancestrais negros e índios, recuperando quem nós somos com uma arte e uma cultura que afirme nossa humanidade, a vida, a beleza e a verdade, a estética de uma vida ética. A beleza e a honestidade de mãos dadas.

Para isso, se faz necessário que o pensamento tecnocrata flexibilize suas certezas, abandone o modo de vida robótico, alienado de seus afetos, e reconheça que nossa ignorância é infinita, e que não é ético excluir os brasileiros de sua própria vida, dos acontecimentos de sua própria comunidade, sem nenhum respeito a cultura e o espírito dos territórios. Que tudo não passa da ilusão do poder, certeza cartesiana falsa que pretensamente autoriza indivíduos de egos afiadíssimos, que não ouvem nada nem ninguém além de ordens teleguiadas de poderes centralizadores, que querem justamente ocupar essas posições artificiais e centrais de poder político, crendo que alcançou efetivamente algum “poder divino”. Tudo equívoco. O único poder é Deus ou a natureza, e o quanto isso é libertador e aponta para uma vida de criatividade e libertação humana. A vocação do ser humano é cooperar, na alegria de criar junto, afinal, não há respostas individuais, a própria realidade é uma construção coletiva. Essa é a luta da humanidade contra as máquinas pela afirmação de um projeto de nação, que leve em conta efetivamente quem nós somos, rompendo com os estereótipos da individualidade tecnocrática que impede a realização coletiva e o bem-viver do povo brasileiro.

http://imanentemente.blogspot.com/2009/11/o-equivoco-da-tecnocracia-e-o.html#links

Aqui o genérico:

http://imanentemente.blogspot.com/

Comments

  1. Pedro says:

    Excluindo algumas frases mais “brasileiras” o texto aplica-se a qualquer lugar do mundo.
    Quanto a nós, apetece dizer: tão brasileiros que os portugueses são.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.