a lição do professor: o contexto social da criança

Ensaio de Antropologia da Educação

Conceição Lopes, a Sardinheira

Conceição Lopes, a Sardinheira

1. Abertura com todos os instrumentos.

Costumamos pensar que é o professor quem ensina. Na pré primaria, ensino básico, ensino secundário, nos outros ciclos, no ensino denominado superior. Os primeiros ciclos, formam um cidadão; os segundos, orientam para um trabalho ou profissão que, os habilitam para tarefas técnicas ou académicas. Todas as alternativas são necessárias e respeitáveis. Todos os de diferentes ciclos, em permanente debate. Nunca há pleno acordo em relação à maneira de ensinar e sobre o que deve ser aprendido pelos mais novos. Mais novo que, pela sua vez, andam a aprender nos seus próprios ciclos de vida: na escola, na casa, no bairro. Crianças nascidas numa sociedade de quem são herdeiros, entendam ou não, saibam ou não, aceitem ou não, mudem ou não.

Normalmente, acabam por retirar da memória social esse palavrão usado por mim e por outros em tantos textos e que consiste em transferir as ideias de uma geração à seguinte – da memória social, o que deve ser feito e o que não. Por outras palavras e de forma simples, retiram de memória social o bem e o mal. Branco e preto. Sem gradações pelo meio, sem mais alternativas que as usadas e inventadas pelos seres que manipulam a vida para continuar, para produzir, para reproduzir.

Manipulações e estratégias não aprendidas na escola nem no lar, excepto as que permitem fugir do professor e do ensino ou dos trabalhos escolares. Essas que são moeda corrente no processo de ensino e aprendizagem, conceito criado por mim há algum tempo. No entanto, há manipulações e estratégias necessárias para viver dentro do social e das suas mutáveis estruturas económicas. Essas que fazem dos países sociedades diferentes conformem a conjuntura.

Há o processo de ensino. Há as manipulações necessárias, as estratégias. Subsiste o contexto social da criança e a inutilidade de muitos conteúdos da memória social. Como ser filho, como ser mãe, como tomar conta dos anciãos, como ser amigo, como ser namorado. Como e onde aprender e lidar com a vida.

Um Portugal, é o da Monarquia; outro, o da República; um terceiro, o da Ditadura; um quarto, o do 25 de Abril; um quinto, a reorganização de República Democrática; um sexto, o da Democracia Europeia ou o da União Europeia. Um Portugal onde tudo é competição, violência e agressividade, quer nos ciclos, quer nas corridas profissionais.

Tenho testemunhado na academia à qual pertenço: escolas de massas, como costumava afirmar José Paulo Serralheiro, a comportarem-se como escolas de elites, como afirmam Luiza Cortesão, Stephen Stoer, Helena Costa e eu próprio. Com vinte anos de atraso, diz ainda José Paulo, a violência chegou até nós. Mas chegou para ficar. Como o dinheiro, as estradas, os carros, as casas, a filiação. Genealogias aparecem importantes, essas que percorrem eternas ilegitimidades, ao matrimónio ou a respeitáveis uniões de facto. Uniões de facto para serem defendidas ou caladas, optimizadas pela hierarquia adquirida em outros sectores da vida social. Genealogia, memória social aprendida dentro da família, guardado no grupo doméstico, informação usada para saber o progresso que faz uma criança.

2. Minueto de cordas.

Como dançava a trabalhar Conceição Sardinheira nas suas terras de Vila Ruiva! Respeitável mulher casada, como a divindade dos católicos manda e a vida social exige Um dia qualquer ficou sem o marido nesse Portugal que mandava emigrar, o da Ditadura. De chicote numa mão, foi ensinando o filho herdado do marido ausente.

Com carinho na outra, o foi educando através das conversas ao pé da lareira após jornadas de trabalho duro nas terras de outrem. Aritmética na cabeça, fazia as contas na conversa com o filho até entender se era suficiente o dinheiro ganho para se vestirem, alimentarem, pagarem a renda, comprar os livros para a escola, pagar a lenha. Deduzidos os gastos do que ganhava, Conceição viu-se obrigada a acrescentar mais trabalho ao seu raro tempo.

Fez-se Sardinheira e trazia, de manhã cedo, o peixe para a aldeia. Todas as Quintas feiras ia andando, ainda noite, para a vila de Nelas, e regressava à hora a que as senhoras das casas começavam preparar o seu almoço. Percorria a aldeia desses bairros do Portugal de hoje, apregoando a sua mercadoria. Com palavras doces e sedutoras convencia os vizinhos da qualidade do produto, da sua frescura, do bem que fazia aos ossos, aos olhos, à pele, criava força necessária para manusear a enxada.

Um suplemento alimentar alternativo permanente carne de porco, o substituto do bacalhau que ninguém podia pagar. Lareira quente, mais contas feitas, repara que faltam tostões precisos para investir numa pequena terra própria útil para batatas e cereais, para alimentar o filho. Maria da Conceição Sardinheira, de enxada em mão, vai aos trabalhos à jorna e junta tostões que perfazem escudos. Lareira quente, sopa comida, diz ao seu filho António que deve trabalhar para  ajudar.

O puto, com apenas sete anos, aprende. Desenvolve forças para tratar da rega das parcelas, da sementeira das batatas e do rachar da lenha. E também para fugir da casa para brincar com os amigos, quando a fadiga aperta. Esperta, Conceição percebe que as sardinhas não são futuro para o pequeno António e manda-o para a escola. António lê e escreve e passa a ser o contabilista da pequena firma doméstica. Aprende que há mais sítios na geografia do mundo: a Argentina, onde mora o pai, Leiria, o lar da prima que tem loja de comércio, Lisboa, a cidade dos comerciantes. Enquanto o professor fala e explica, ele não ouve: viaja.

Viaja pela aldeia a pensar nas armadilhas para caçar pássaros e coelhos, no pião que sabe ganhar, nos berlindes retirados duma garrafa de sumo, nos botões que gosta de surripiar dos estendais onde as roupas secam e que servem para brincar com os amigos que, mais abonados, os podem trazer de casa. Sonha e lembra na surra certa que o espera em casa por via dos botões tirados de roupas de outros. Aprende a distinguir entre o meu e o teu. Entre o bom e o mau. Entre o permitido e o proibido, entre a luta por si e a luta dos outros que dão à mãe meio tostão pelo dia de jorna, os Santos Senhores Católicos proprietários da terra lucram assim com ela.

A mãe percorre quilómetros para comprar peixe, descalça e assim poupar as solas dos sapatos, para parecer melhor no dia das vendas de peixe. Limpa a mercadoria e demonstrar o produto é fresco, de confiança. A vender sempre sorridente e silenciosa para os vizinhos a tratem com uma senhora respeitável. Marido longe? Mais seriedade nas vendas, como mulher só que é. Não há queixas, não fala mal dos outros, sem transferir o que sabe de uma pessoa para outro. Uma senhora. Uma senhora que aprende a tratar dos doentes terminais e a vesti-los, a lava-los e a penteá-los para uma última exibição pública, na Missa ritual ou no velório.

Mais uma entrada mais, em dinheiro, para esse pequeno grupo doméstico. Para o António aprende a entender o que é trabalhar, que toda actividade é trabalho, que todo o trabalho é legítimo, que folgar é pecado, e que pecar é um castigo social. Castigo social passível de ser esquecido se a pessoa sabe manipular a informação dos factos. Como no dia em que Maria da Conceição dá a luz uma filha e a inscreve no Registo Civil: pergunta o Oficial, sempre intrometido e curioso: quem é o pai? Ela responde: Quem é o meu marido? Convicto do facto, o oficial lavra a acta de nascimento e, sem comentários, faz do marido ausente, pai à distância..

3. Quarteto com piano.

António aprende. Sabe que está pronto para iniciar a vida. Sabe que a mãe não é a mulher da sua vida. Sabe que o comércio é o que rende. Aprende que o comércio da mãe não é para dois. Sabe que a terra é um investimento que permite a compra do pão porque o seu produto dá dinheiro.

Sabe que o trabalho da terra é um investimento possível se for possível comprar instrumentos de laborar, sementes, adubos. Sabe que a Geografia da Escola é boa para aprender que há sítios alternativos de trabalho no mundo. A Literatura lhe conta nos textos de aventuras ou de conquistas. Trafica entre o saber escolar e o do lar; entre o lar e o bairro.

As feridas causadas no trabalho são possíveis de curar porque os tecidos nascem outra vez, que o corpo fadiga-se com a multiplicidade de actividades, que a observação permite a Galileu descobrir que a terra é redonda, que Guttenberg espalha saberes em letra escrita, que a matemática permite calcular esforços, valorar lucros, debitar investimentos do trabalho: poupar não é ganhar, é apenas uma forma de ter moeda para a usar na economia de bens procurados pelas pessoas.

Como o peixe da mãe: ninguém possuía o valor social dessa mulher digna, limpa e discreta e a força retirada da vida solitária, para se empenhar no cansativo trabalho de andar entre a aldeia e a vila a trazer mensagens, comprar produtos solicitados por pessoas, as suas clientes. Entende que ter clientela é o maior investimento que um ser humano pode fazer. Apenas é preciso reunir dinheiro e aprender a trabalhar no lugar geográfico certo.

Sítio certo é esse que tem a moeda mais forte ao ser trocada, nesses tempos, em escudos. Dinheiro mais abundante do que na aldeia onde lhe calhou viver. O António, já crescido, começa a andar e não pára até chegar à Alemanha, depois de passar por Lisboa e Leiria. O seu objectivo é claro: organizar a sua própria genealogia com essa mulher da aldeia, amada ao longo dos anos, mulher que o aceita como marido se lhe garantir um sim para o futuro. Mulher que parte para esse mundo desconhecido, aprende uma outra língua e solicita à sua mãe tomar conta dos filhos que em Vila Ruiva vão crescendo, enquanto eles procuram a moeda com o fito de investimento no comércio.

Conceição Videira apoia à sua filha Fernanda e cria netos, como filhos próprios: a Anabela, professora do último ciclo, prestes hoje em dia a ser mãe, e o Luís, que passara a ser gestor, casado e com filhos, à distância dos pais dos, nesses dias rapazes, hoje adultos de alto valor. Quarteto de instrumentos, a sogra ao piano. Conceição Videira que respeita a Conceição Lopes, a Sardinheira, pelo seu empenhamento em trabalhar sem pedir ajuda a ninguém: apenas ao trabalho e mais trabalho.

Duas amigas que acabam por fazer do Luís um jovem disciplinado e dedicado ao trabalho, gestor, marido e pai; e de Anabela, uma professora à procura dum mestrado para crescer dentro da vida intelectual escolhida. Heranças todas de Conceição Sardinheira, teimosa, trabalhadora de riso divertido e ironia na ponta de língua. Como essa com que me brindou um dia: Atão, lá vai o Senhor Doutor com papel e lápis a ganhar a vida.

Ora diga lá: é com as mãos que o trabalho se faz ou com esse passear folgazão a que o senhor chama trabalho? Sem saber que tinha criado uma escola com discípulos no cálculo, na aritmética, na economia e na gestão dos bens.

4. Coda final.

O comércio prosperou sem violência, sem os temores correctos de José Paulo Serralheiro, com a pesquisa certa de Luiza Cortesão e de Steven Stoer, com a escrita certa sobre a vida deles de Filipe Reis. Hoje, António manipula o comércio, tem presidido à Junta de Freguesia, tem feito da aldeia uma pequena vila.

Tudo isso aprendeu ao juntar a vida da mãe com o ensino da escola e a relação cordial com os seus vizinhos. História que permite entender que o saber nasce da interacção do lar, escola e vizinhos, instituições em contradição enquanto não se saiba que a pedra angular destas três instituições é a gentileza e cortesia de quem tem a capacidade de lucrar com o seu trabalho e a distribuição de mão-de-obra ou objectivos de poupança dentro da família, no tempo certo, quando a sua sociedade abre para a pequena empresa. Tempo não existente durante a vida de Conceição Sardinheira, mas possível durante a vida de António e Fernanda, com terreno preparado para as vidas de Luís e Anabela.

Lição que o professor da criança ou entende, ou não sabe ensinar por falta de informação. Sem a genealogia da criança, coordenada com esse suceder de acontecimentos conjunturais e mutáveis de época em época na História de um País e o seu Continente, não há professor que possa transferir saber doutoral às mentes pragmáticas dos seus estudantes e orientandos. Que, entretanto, recorrem à violência e defendem-se da violência da sociedade e da escolas…com a conivência dos adultos, como se sabe que sempre disse o já referido José Paulo Serralheiro

Bem-haja, Conceição, pela escola que formou e pela emotividade que acordou entre os seus e entre os vizinhos! Saiba o Ministro da Educação entender qual o livro para aprender, longe do Decreto ou da Lei que herdou, e que ele conhece, porque Santos Silva é o Augusto investigador de trabalho de campo que andou pela vida do país e conheceu milhares de Conceições. Embora, nunca a Sardinheira…

Bibliografia
  • Cortesão, Luiza, 1988: Escola, sociedade, quê relação? Afrontamento, Porto.
  • Cortesão, Luiza et al., 1995: E agora tu dizias que…Jogos e brincadeiras como dispositivos pedagógicos, Afrontamento, Porto.
  • Iturra, Raúl, 1998: Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças, Profedições, Porto1988-2001: Diários de trabalho de campo.Notas do debate com Darlinda Moreira, Membro Doutorandi do Seminário de Antropologia da Educação, ISCTE, Lisboa.
  • Iturra, Raúl, 2000: O saber sexual das crianças. Desejo-te, porque te amo, Afrontamento, Porto.
  • Reis, Filipe, 1991: Educação, ensino e crescimento, Escher, Lisboa.
  • Serralheiro, José Paulo, 2000: Violência nas nossas escolas in Jornal a Página da Educação, Março, Profedições, PortoStoer,
  • Stephen e Costa Araújo, Helena, 1993: Genealogias nas escolas: a capacidade de nos surpreender, Afrontamento, Porto.
  • Silva Santos, Augusto, 1994: Tempos cruzados. Um estudo interpretativo da cultura popular, Afrontamento, Porto.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Nos pequenos universos onde as pessoas se conhecem todas ,esta noçõa do ambiente social e da sua influência entra pelos olhos dentro…

  2. Raul Iturra says:

    Muito obrigado, Caro Luís. O Universo não é pequeno, é uma associação de famílias para colaborar entre eles! Agradeço a paciencia da leitura do post!

  3. Nuno Castelo-Branco says:

    Nestes tempos tão padronizados, esquecemo-nos facilmente de tantas e díspares realidades que a todos confundem. Muito bom, Raúl.

  4. Anabela Lopes says:

    Pois é, e a neta da sardinheira, hoje, sou eu! Professora, orgulhosa da avó que me ajudou a crescer, quando, com a venda da sardinha, esperava por mim e pelo meu irmão, perto do autocarro que nos levaria da aldeia para a vila onde fazíamos o 2ºciclo, para nos dar uma nota, de 20$00, molhada e com cheiro de peixe que fazia a delícia do dia quando, na escola, trocávamos a nota por um lanche melhorado… que saudades avó! Essa avó, que já não está connosco porque o Alzheimer a levou… essa avó, que num dos últimos momentos de lucidez, quando as palavras já não obedeciam ao pensamento, triste, lhe confidenciei “ Avó, como você está!” ela me respondeu: “ Não sou eu filha, é a minha cabeça!”
    Pois é, querido Dr. Raúl, obrigada por mais uma vez homenagear a minha querida avó.
    Ainda hoje, com os meus alunos do 1º ano, crianças de 6 anos, falávamos da família e querem saber, algumas não sabiam o nome dos avós, triste….não? Perante isto, disse-lhes , “Meninos, os avós são a coisa melhor do mundo!” Será que hoje em dia, já não existem avós, como a sardinheira?, ou será que já não há filhos, como o da sardinheira, que ensinou os seus filhos, a ver nos avós os segundos pais?!

    • Luís Moreira says:

      Anabela, que maravilha rever-se neste texto do Prof. Raul! Ainda bem que ficou feliz, olhe, eu tambem fiquei.

  5. Carlos Loures says:

    Bela e sábia sinfonia, Professor! Que lição para os que entendem que o tal lugar ao sol a que todos têm direito só pode ser conquistado pelos ricos e poderosos. Esses têm sobre os outros uma grande vantagem. Mas a força de vontade, a ânsia de superação, o sentido da dignidade, são a maior riqueza que um ser humano, rico ou pobre, pode ter. Que grande lição a vida dessa senhora nos dá, através das palavras de Raúl Iturra.

  6. Raul Iturra says:

    Obrigado por lerem o texto. Especialmente a minha “filha portuguesa”, Anabela Lopes, neta de Conceição Lopes, o meu braço direito nas minhas pesquisas em Vila Ruiva, Nelas e Mangualde. Responder a ela, é responder a todos. Conceição “A Sardinheira” existiu ao longo de mais de 85 anos e passou a morar a casa do filho quando, essa doença de cansaço na vida, a atormentou, esse Alzheimer. Anabela deu-lhe o seu quarto, o melhor de uma linda e grande casa, e a sua moram ainda que a resmungar, tomou conta dela. Nunca esqueço o brincalhona que era Conceição, Dona Conceição. Andava eu pelos caminhos de Vila Ruiva e a “toupava” a trabalhar com a enxada em mão. Sempre costumava dizer: “Atão, Senhor Doutor, e…? Quando? A vida não é apenas livros, é também amor e paixão! Anime-se..pois….”Eu crava nos meus trinta e vários anos, ela sorria e acrescentava: ” Não tenha medo, fique livre…” Triste foi o dia em que, de corpo forte e descansado, não sabia quem era eu… mas as brincadeiras de todo tipo continuavam e o filho, o meu Amigo António Lopes, ria…Sem ela e a outra Conceição Videira, Anabela nunca seria o que hoje é, uma Professora de Ensino Especial em Viseu. É a lição que Conceição a Sardinheira dá aos professores: o saber não está na escola, está no comportamento dos pais e os seus filhos

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