No Centenário: quando a Inglaterra visitou Portugal

9 de Agosto de 1902, consagra o verdadeiro início do século XX na Inglaterra. Nesta data foi coroado Eduardo VII e a Europa despediu-se do longo período vitoriano, durante o qual conquistou o mundo e se forjaram novos Estados, pela unificação imposta por nações e exércitos. A Itália e a Alemanha tinham deixado de ser meras expressões geográficas e cumpriam o seu decisivo papel no frágil equilíbrio de forças plasmado em alianças que mantinham o staus quo de fronteiras e regimes.

Ascendendo ao trono aos sessenta anos, o monarca assistira ao longo processo de consolidação dos nacionalismos continentais e à rápida transformação imposta por uma revolução industrial que tendo na sua pátria o berço, rapidamente teve réplica além-Mancha, originando uma outra realidade política e económica que não deixava de ameaçar a até aí incontestada supremacia britânica.

Como Príncipe de Gales e sucessor designado de Vitória, viajou e conheceu os grandes vultos do seu tempo, fossem eles políticos, financeiros ou artistas. Conviveu com os parentes que ocupavam os mais importantes tronos da Europa e foi talvez o primeiro habitante das Ilhas Britânicas a verificar a vantagem implícita no conhecimento in loco de outras sociedades potencialmente rivais da sua. O Grand Tour onde criou fama de bon vivant frívolo e mulherengo, permitiu-lhe o estabelecimento de contactos que décadas mais tarde, seriam preciosos esteios de um Foreign Office sempre mal amado pelas chancelarias europeias.
Apoiado no seu imponente património colonial e numa Royal Navy de dimensões jamais vistas na história, a Inglaterra parecia beneficiar daquela perenidade outrora reservada aos impérios da Antiguidade. Contudo, o ferro, os químicos e as máquinas, despertaram Eduardo para a necessidade de enfrentar uma situação, onde o posicionamento do seu país já não era aquele que no início de oitocentos, dissipara o vendaval napoleónico em Trafalgar e Waterloo. Privou com Napoleão III, visitou os chefes da III república francesa e estabeleceu os habituais laços de identidade profissional com os soberanos dos Estados alemães, onde a Prússia predominava e indicava ao mundo a sua missão unificadora com desígnios imperiais.

Visitou Portugal, onde reinavam parentes da Bragança de Saxe-Coburgo-Gotha, confirmando o estreito relacionamento desde sempre mantido pelo príncipe Alberto e pela rainha Vitória. Durante a sua adolescência, era frequentemente admoestado pelos pais que lhe apontavam o exemplo de D. Pedro V, como um perfeito modelo de príncipe liberal, moderno e estudioso que devia ser seguido. As dificuldades de compreensão da complicada situação dos monarcas portugueses, conduziram a situações equívocas, pois as atribuições constitucionais que a Carta Constitucional lhes reservava, implicavam a Coroa no jogo político, um facto absolutamente estranho à normal vida parlamentar e de governo na Grã-Bretanha. Desde a queda dos Stuart, os ingleses consagraram o princípio de supremacia de Westminster, descomprometendo a monarquia e estabelecendo-a como o factor primeiro da unidade nacional. Eduardo compreendia perfeitamente o limitado poder de intervenção política dos monarcas britânicos, mas sempre teve a justa medida das potencialidades que o seu lugar propiciava no campo diplomático.

Após os Ultimatos a Portugal (1890) e à França (1895), a Inglaterra parecia condenada ao isolamento face às potências continentais que esperavam obter um melhor quinhão na partilha de uma até então negligenciada e desconhecida África. A Alemanha onde reinava o seu sobrinho Guilherme II, enveredava ruidosamente por uma Weltpolitik, construindo uma nova esquadra de alto mar que dentro de pouco tempo poderia ameaçar directamente a supremacia inglesa. O início do frenético processo de conquista de alianças, alastrar-se-ia a toda a Europa e mesmo os pequenos Estados eram objecto de atenções especiais, atraindo-os à órbita dos núcleos onde se concentravam as forças que hipoteticamente se confrontariam num futuro já previsível. O caso português mereceria a mais benevolente das atenções de Eduardo, dada a situação interna nacional, as posições estratégicas em África e a imperiosa necessidade de contar com os portos e arquipélagos do Atlântico.

É neste contexto que Eduardo VII empreende a sua primeira visita oficial como soberano. Em Abril de 1903 desembarca no Cais das Colunas em Lisboa, onde é recebido pelo seu primo D. Carlos I, com quem partilhava opiniões de ordem política e por quem nutria uma evidente simpatia pessoal. Esta visita, além de ter consistido num evidente confirmar da presença portuguesa no Ultramar, manifestou o interesse britânico na manutenção da antiga aliança, garantindo a permanência dos vastos e importantes territórios na posse dos portugueses. Impediam-se desta forma reivindicações ou unilaterais actos de força por parte de outras potências, como a França ou a Alemanha, aliás os principais credores em Lisboa. No seguimento desta viagem a Portugal, Eduardo VII seria recebido em Paris, onde a Entente Cordiale indicou aos alemães, a irreversível constituição de uma aliança que a ocidente e a leste (Rússia), obstaria a qualquer agressivo projecto militar de índole expansionista.

O assassinato de D. Carlos transtornaria os projectos de estreita colaboração com Portugal e a até aí inabalável confiança no futuro e sobrevivência da monarquia no nosso país.

Tal como o regime da Carta, Eduardo VII morreria em 1910.

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