Sir Archibald Radcliffe-Brown

Para Ana Matias, no dia do seu aniversário, que coincide com a festa do amor.

Sir Archibald Reginald (Birmingham, 17 de Janeiro de 1881Londres, 24 de Outubro de 1955), cientista social britânico é considerado um dos maiores expoentes da Antropologia, ao ter desenvolvido a teoria do funcionalismo estrutural. Esta forma de análise, usada por ele e seguida por vários outros, é definida como: Funcionalismo (do Latim fungere, ‘desempenhar) é um ramo da Antropologia e das Ciências Sociais que procura explicar aspectos da sociedade em termos de funções realizadas por indivíduos ou as suas consequências para a sociedade como um todo. É uma corrente sociológica associada à obra de Émile Durkheim. Para Durkheim cada indivíduo exerce uma função específica na sociedade e a sua má execução significa um desregramento da própria sociedade. A sua interpretação de sociedade está directamente relacionada ao estudo do facto social, que segundo Durkheim, apresenta características específicas: exterioridade e a coercibilidade. O facto social é exterior, na medida em que existe antes do próprio indivíduo, e coercivo, na medida em que a sociedade impõe tais postulados, sem o consentimento prévio do indivíduo. Entre os académicos que usaram este método analítico da conduta social, estão: Michel Foucault, Bronislaw Malinowski , Alfred Reginald Radcliffe-BrownÉmile Durkheim , Talcott Parsons, Niklas Luhmann, Louis Althusser, Nikos Poulantzas,George Murdoch,Kinglsey Davis , Wilbert Moore, Jeffrey Alexander, G. A. Cohen, Herbert J. Gans e Pierre Bourdieu. Fonte: textos dos autores mencionados com as palavras na wikipédia.

É esta metodologia, usada por Radcliffe-Brown para a recolha de dados para escrever os seus textos, que passo a analisar. A primeira vez que recorreu a esta metodologia foi durante a sua pesquisa entre os Ilhéus do arquipélago Andaman, na Birmânia, entre 1906 e 1908, ainda como estudante do fundo Anthony Wilkin em Etnologia da Universidade de Cambridge da Grã-bretanha. Tendo como objectivo ser membro do Trinity College da Universidade, para se graduar em Etnologia com a colaboração do então Doutor em Etnologia, Alfred Cort Haddon (1855-1940), leitor na Universidade de Cambridge, etnólogo, que anteriormente se formara em biologia, membro da Faculdade Christ’s College desde 1900, e a de William Halse Rivers, da Faculdade St John’s College, English anthropologist, neurologist, ethnologist e psychiatrist, ambos ajudaram o antigo estudante de medicina Radcliffe-Brown a converter-se em Etnólogo, com formação especifica em psicanálise. O nosso autor estudou os Andaman na época em que Etnólogos e Arqueólogos analisavam as suas instituições e costumes. Não foi por mero acasao que William Rivers organizou uma expedição ao Estreito de Torres para compilar dados de como éramos antes de sermos o que hoje somos. O Estreito de Torres é uma larga savana de água, entre a Australia e as Ilhas Melanésicas ou Melanesian island de New Guinea. O seu comprimento é de 150 km (quase 93 milhas marítimas). Ao sul, limita com a Cape York Peninsula, o extremo mais ao norte continental do Estado Australian de Queensland. Ao norte o seu limite é Western Province do Estado Independente de Papua New Guinea. Sítio do estudo de Radcliffe – Brown, por iniciativa de Haddon, para estudar as instituições e a sua gestão. A participação de Rivers era imprescindível, dada a sua formação como psicanalista, tal como Seligaman, enquanto patologista e um professor primário para entender a forma como eram ensinadas as crianças, Sidney Ray e o jovem estudante, Anthony Wilkin, para fotografar espécies raras. Esta viagem ao Estreito de Torres marcou a viragem na ciência antropológica. Pela primeira vez, os académicos iam ao terreno. O que pensavam encontrar, não existia. A realidade era bem mais complicada: formas de matrimónio, significado de palavras, compromissos, organização social e outras funções de interacção bem mais complexas do que era esperado. Ora, é precisamente nesta conjuntura que Radcliffe-Brown se focaliza no estudo das funções sociais que os outros investigadores, com o seu saber ocidental, não conseguem entender. Com as pesquisas e descobertas e explicações de Radcliffe-Brown, todos os formados em patologia, zoologia e ciências da educação, passam a ser antropólogos. A primeira ideia de Radcliffe-Brown foi distinguir entre significado e função. Significado era o conteúdo de uma Função social. Os académicos antigos estudavam as narrativas do mito, sem entrarem pelo seu significado. Significado que Sir Archibald soube explicar no seu texto, como a função do mito, por exemplo. O significado é o conteúdo do facto. Há palavras que falam por elas próprias, como essa da Polinésia (ilha Manus ) explicada por ele: Tapu, traduzida para inglês como Taboo, na sua lição Frazer de 1939, impressa pela Cambridge University Press nesse mesmo ano, onde diz que em todas as sociedades há comportamentos permitidos e outros proibidos e punidos. A punição não é apenas como no ocidente, onde está estabelecido que tabus são proibições para relações sexuais entre parentes consanguíneos, entre outros. Tapu, palavra introduzida na polinésia, que significa, principalmente, a quebra de regras sociais, a desobediência a um chefe ou a punição de crianças quando se intrometem em ideias e matérias definidas como o saber dos adultos.

De tudo o que Radcliffe-Brown encontrara no seu trabalho de campo, há três ideias centrais: usar o conceito de função social defendido por Durkheim e que ele adaptou para a Antropologia, redefinindo o seu campo de investigação como a análise das sociedades primitivas, dando uma nova orientação às formas de estudo dessas sociedades, generalizando as estruturas sociais estudadas. O seu método passou a ser denominado estrutural funcionalismo. Entendeu que existiam instituições básicas para manter a social order de uma sociedade, criando uma analogia entre o corpo humano e o corpo social. Nos seus estudos da função social examina como os costumes colaboram para a manutenção da estabilidade de uma sociedade. Radcliffe-Brown tem sido sempre associado ao functionalism, sendo mesmo considerado por vários autores como o fundador do structural functionalism. Contudo, Radcliffe-Brown negava veementemente o facto de procurar que um comportamento dependesse de outro, quer dizer, de ser funcionalista, distinguindo cuidadosamente o seu concerto de função, do usado por Malinowski. Para ele, as práticas sociais podiam ser explicadas pelas suas próprias capacidades de satisfazer as necessidades biológicas. Para Radcliffe-Brown o argumento malinowskiano carecia de fundamento. Influenciado pelo argumento filosófico de Alfred North Whitehead, demonstrou que as unidades básicas da antropologia eram processos humanos em que se misturavam processos da vida biológica humana individual com interacções sociais de grupo. Por definição, esta combinação biológica individual era um fluxo permanente para a estabilidade social. Porquê, perguntava-se o primeiro autor, se algumas práticas sociais se repetiam constantemente, até ficarem como um comportamento fixo? A prova parece estar no seu livro anteriormente referido de 1952, Estrutura e Função nas Sociedades Primitivas. Comentado aqui. O livro original, denominado Structure and Function in Primitives Societies. Esays and Addresses, 1952, Cohen and West, Londres, especialmente o Capítulo I The mother’s brother in South Africa, apresenta-nos uma forma de conjuntura de reprodução social. O livro pode ser lido em: http://classiques.uqac.ca/classiques/radcliffe_brown/radcliffe_brown.html ou em francês. Esta obra, póstuma, com prefácio de Evans-Pritchard, tem versão luso-brasileira, Edições 70, 1985. Quanto ao ensaio que introduz o livro, foi traduzido como O Irmão da Mãe de um Homem em África do Sul, pp. 29-52, podia ter sido, porém, intitulado O Irmão da Mãe na África do Sul, título breve e certo, parece-me a mim. O livro pode ser lido em língua inglesa.

Todos os livros que citarei seguidamente, são análises de factos resultantes da sua investigação, usando os conceitos da sua teoria estrutural funcionalista: significado e função. Estes conceitos foram criados sob a influência de Durkheim e do filósofo matemático, citado antes, Alfred North Whitehead. Este académico (Ramsgate, Kent, 15 de Fevereiro de 1861Cambridge, Massachusetts, 30 de Dezembro de 1947), filósofo e matemático britânico é um renomeado pesquisador na área da Filosofia da Ciência, principalmente no que diz respeito aos fundamentos da Matemática. Juntamente com Bertrand Russell, escreveu Principia Mathematica. Também desenvolveu a chamada Teologia do Processo, designada concomitantemente como Teologia Neoclássica. Os seus postulados são abertos e simples, baseados na função natural do significado dos factos sociais ou do propósito ou objectivos dos mesmos. Estas duas definições usadas por Radcliffe-Brown nos seus estudos de grupos sociais, derivam dos seguintes postulados de Whitehead: Deus não é omnipotente no sentido de ser coercivo. A realidade não é feita de substâncias materiais, mas por eventos ordenados por uma série, que são experimentais na natureza. O universo é caracterizado pelo processo e mudança, carregado pelos agentes do livre-arbítrio ou auto-determinação que tudo caracteriza, e não apenas por seres humanos. Deus não pode forçar nada a acontecer, apenas exercer o seu livre-arbítrio, dando novas possibilidades. Deus contém o universo, mas não é idêntico a ele (panteísmo). Por Deus conter o universo, este está em mudança, Deus muda e é afectado por aquilo que acontece no universo. O Teísmo dipolar, a ideia de que um Deus perfeito não pode ser limitado por certas características. Em relação à vida após a morte, há divergências entre as ideias sobre se as pessoas vivenciam uma experiência subjectiva, ou uma experiência objectiva. Estas ideias não apenas influenciaram a teoria do nosso académico sob escrutínio, como, também, são por mim usadas em pesquisas e análises. É o caso do Ilhéus de Andaman. O índice do livro diz tudo: Organização Social; Costumes Cerimoniais; Crenças Religiosas e Mágicas; Mitos e Lendas; Interpretação das Cerimónias, dos Mitos e das Lendas; A cultura Técnica dos Ilhéus Andaman. É possível advertir uma certa insistência na análise do teísmo Andaman e o significado dos seus rituais, que aparecem definidos como uma divindade, o todo, a universalidade dos seres. Não são apenas histórias de vida, formas de trabalho, hierarquias, genealogias, formas tecnológicas de trabalhar. O nosso autor, desde o início das suas análises, entra de imediato no miolo do pensamento, apresentando-nos um agir materialista: a divindade não está fora da terra nem está em todos os sítios: está aí, entre os seres humanos. É a influência de Durkheim: a divindade e a igreja é o conglomerado de seres humanos que interagem e definem as suas teorias de interacção criando uma história da sua procedência e do seu destino, a que nós chamamos mito, e nada é feito sem antes ser sacralizado ou sagrado com magia e criam uma divindade material que protege: o totem.

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