Israel – os primeiros trinta anos – Vida difícil (Memória descritiva)

Na sequência de outros textos que aqui tenho publicado sobre a fundação do Estado de Israel e a perturbação que provocou na região em que foi implantado pela diplomacia britânica, vou hoje lembrar as primeiras três décadas de vida do estado hebraico. Vida difícil a dos que optaram por viver na «Terra Prometida». E falar dos alvores de Israel, é falar de David Ben Gurion (1886-1973), cuja carreira política se iniciou em 1933, sendo um dos líderes do movimento do Sionismo Trabalhista durante os quinze anos anteriores à criação da nação judaica.

Ao mesmo tempo idealista e pragmático, combateu os britânicos, tendo mesmo, integrado no Irgun de Menachem Begin, participado em actos de terrorismo e em assaltos a bancos,. No entanto, noutra fase da luta, não hesitou em apoiar o exército britânico, enquanto criava estruturas de imigração clandestina, quando os ingleses, pressionados pela comunidade internacional, bloquearam a ida de judeus para Palestina.

Foi Ben Gurion quem reutilizou o conceito de Yishuv. Yishuv é palavra hebraica para definir os judeus residentes na Palestina antes da fundação do Estado de Israel. Os residentes e os novos colonos, no seu conjunto, são designados por “os Yishuv” ou “Ha-Yishuv.” O termo usa-se para referir os judeus chegados antes da fundação. Criou também a Haganah, braço armado do Movimento Sionista-Trabalhista, embrião da Mossad, a polícia secreta e das forças armadas de Israel. Apesar de toda esta actividade, por vezes subversiva e clandestina, durante o período anterior à fundação, Ben-Gurion foi um dos principais representantes políticos judaicos, sendo considerado um elemento moderado.

No dia 12 de Fevereiro de 1949, este homem, David Ben Gurion, assumiu as funções de primeiro-ministro do Estado de Israel. No mesmo dia foi assinado um armistício com o Egipto. O primeiro mandato de Ben Gurion incidiu na criação de estruturas institucionais que permitissem o normal funcionamento do jovem estado e também no reforço dos meios militares para poder fazer face às investidas dos países árabes vizinhos. Sobretudo do Egipto.

Egipto onde, em 26 de Julho de 1952, se deu um levantamento militar, encabeçado pelo Movimento dos Oficiais Livres, liderado pelo general Muhammad Naguib, rebelião que derrubou o rei Faruk e pôs termo ao regime monárquico, proclamando a república em 18 de Junho de 1953. Um dos motivos, além do desprestígio internacional que afectava o monarca, foi precisamente a derrota na primeira Guerra israelo-árabe em 1948.

Naguib foi nomeado Presidente, mas em Novembro de 1954, um golpe militar liderado por Gamal Abdel Nasser derrubou Naguib. Nasser assumiu, por sua vez, a chefia do Estado. As relações com o Ocidente endureceram. Nasser, na Conferência Ásia-Àfrica, realizada em Bandung, Indonésia, em 1955, que deu início ao Movimento dos Países Não Alinhados, advogou a descolonização, afrontando as democracias ocidentais e estreitando relações com a União Soviética que lhe fornecia armamento. O crescimento do poder militar egípcio teria efeitos no apoio que Israel iria receber das democracias europeias, sobretudo da França, e dos Estados Unidos.

Em Israel, Moshe Sharett substituiu Ben Gurion no cargo de Primeiro-Ministro entre Janeiro de 1954 e Julho de 1955. Sharett foi um político apagado, sem carisma. Constava que era Ben Gurion que governava e que Sharett era por ele manipulado. Em Julho de 1955, Ben Gurion foi reeleito, pois um erro do ministro da Defesa, Lavon (desencadeou a desastrosa Operação Suzzanah, em que a aviação israelita atingiu alvos americanos e britânicos no Egipto), minou o que restava da popularidade de Sharett.

Durante o segundo governo de Ben Gurion, teve lugar a Campanha do Sinai. O carácter autoritário e personalista de Ben Gurion criou-lhe muitos inimigos, dentro e fora de seu Partido Trabalhista. Desgastado, deixou o cargo em 1963. Levi Eshkol, ex-ministro da agricultura, substituiu-o.

Eshkol negociou com a Alemanha Ocidental o pagamento de reparações financeiras aos sobreviventes do Holocausto. Fez esforços no sentido de melhorar as relações com a União Soviética, possibilitando uma pequena onda de imigração de judeus para Israel. Mas as relações israelo-soviéticas voltaram a piorar com a eclosão da Guerra dos Seis Dias, em 1967. Eshkol, com o seu sistema nacional de águas, possibilitou um incremento na agricultura e a colonização de áreas desérticas de Israel. Faleceu de ataque cardíaco, em Fevereiro de 1969, quando era ainda Primeiro-Ministro.

Sucedeu-lhe Golda Meir, que foi a quarta primeira-ministra de Israel. Fora ministra dos Negócios Estrangeiros no executivo de Eshkol. Formou um governo de coligação, convidando partidos de direita a participar. Durante o seu mandato, destacou-se o ano negro de1972: um comando palestiniano sequestrou um avião da Sabena; o Exército Vermelho Japonês (grupo de inspiração marxista) massacrou 25 israelitas no aeroporto de Tóquio e militantes da Fatah assassinaram 11 atletas israelitas durante os Jogos Olímpicos de Munique.

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Por ordem de Golda, a Mossad levou a cabo a “Operação Cólera Divina” que eliminou quase todos os responsáveis pelo massacre de Munique. Chamavam-lhe Idishe Mame (a mãe judia). Fazia reuniões políticas enquanto cozinhava no seu pequeno apartamento. Sectores mais à esquerda acusavam-na de não tentar a paz com os árabes. Não conseguindo a paz, os israelitas foram surpreendidos pela guerra. A invasão de Israel, em 6 de Outubro de 1973, pelos exércitos sírio-egípcios em pleno dia de Yom Kippur evidenciou a negligência do Governo.

Meses antes do ataque, Golda recebera a visita de Hussein da Jordânia, que a preveniu sobre as intenções de egípcios e sírios. Golda desprezou a informação. A guerra foi desastrosa para Israel nos primeiros dias. Depois, as forças armadas israelitas repeliram a invasão e contra-atacaram, chegando até aos arredores do Cairo e de Damasco. Em 26 de Outubro, vinte dias após a invasão, a vitória israelita era categórica. Mas a impopularidade gerada pela guerra, que colheu de surpresa o país, levou Golda a demitir-se pouco depois de sua reeleição.

Foi substituída por Yitzhak Rabin que fora seu ministro do Trabalho. Rabin governou Israel entre 1974 e 1977. Durante sua administração foram firmados acordos com o Egipto e teve início, em 1975, a construção de infra-estruturas para a colonização da Cisjordânia.

Em Julho de 1976 uma brigada do grupo radical alemão Baader-Meinhof, sequestrou um avião da Air France, num voo de Telavive para Paris com escala em Atenas. O avião foi desviado até Entebe, no Uganda. O grupo terrorista exigia a libertação de 53 presos políticos encarcerados em vários países. Os reféns não-judeus foram libertados. Rabin convocou a Mossad para que planificasse uma operação de resgate.

O Uganda, do ditador Idi Amin Dada, era um país hostil a Israel. Em 1972 Amin Dada expulsara todos os judeus. A operação secreta foi levada a cabo. Em 3 de Julho: homens da Brigada Golani desembarcam em Entebe, invadiram a aeronave e executaram os terroristas. Soldados ugandeses abriram fogo sobre os homens da Brigada Golani, o que provocou a resposta israelita. Onze jactos da aviação ugandesa foram destruídos durante a operação, que durou só 90 minutos. O sucesso do resgate deu a Rabin grande popularidade, no país e internacionalmente.

Ainda durante 1976 uma profunda crise económica gerou inflação e insatisfação. Surgiram algumas denúncias de corrupção, levando o ministro das Obras Públicas Abraham Ófer a suicidar-se. No Knesset (parlamento) foi aprovada uma moção de desconfiança. Em 1977, a descoberta de uma conta secreta em nome de Leah, esposa do primeiro-ministro provocou a queda do Governo e subida ao poder de Menachem Beguin.

Vê-se por aqui, pela pouco mais do que sumarização dos primeiros trinta anos de vida, que a criação do Estado de Israel não foi coisa fácil. Foi feita sob a inspiração da Torah, mas implicou sacrifícios, lutas, heroísmos, crimes e canalhices… Sobretudo nestes primeiros anos, muitas vezes, o sonho de um «lar judaico» converteu-se em pesadelo.

Foi tudo menos fácil.

Comments

  1. Nuno Castelo-Branco says:

    Contudo, não consigo imaginar um futuro Médio oriente sem a existência de Israel.

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