A Lusofonia, espaço ideal para a cultura galega (Memória descritiva)

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Neste vídeo podemos ouvir um breve trecho de uma canção popular açoriana, que Adriano Correia de Oliveira tornou muito conhecida, cantada pela lisboeta Raquel Tavares e pela galega de Mós (Vigo), Uxía Senlle – “Morte que mataste Lira”. Um belo mosaico lusófono. O espectáculo “Cantos na Maré”, onde este vídeo foi gravado, realizou-se em 19 de Dezembro passado, em Pontevedra.

Uxía Senlle é uma cantora galega de que aqui tenho falado por diversas vezes, dada a sua estreita relação com a cultura portuguesa. Numa entrevista recente dada a Margarida Martins, do Portal Galego da Língua, fez diversas afirmações que demonstram a sua convicção na unidade entre as duas vertentes da língua. Não vou transcrever essa entrevista, mas apenas salientar alguns dos seus aspectos mais relevantes.

«É um grave erro estratégico não afirmar que galego e português são a mesma língua», disse Uxía que em dado momento conta como nasceu o projecto “Cantos na Maré”:

«Nasceu há seis anos. Sempre tivemos o sonho de organizar na Galiza, de sermos os anfitriões dos países da lusofonia, de trazê-los à nossa terra com todas as suas músicas. Pontevedra abriu-nos as portas à primeira edição».

«O que fazíamos era uma experiência, pois não sabíamos como ia sair, mas nessa primeira edição produziu uma conexão enorme entre o público e os que estávamos no palco. Achávamo-nos ante uma realidade tão certa e segura que tínhamos que continuar a avançar por esse caminho».

«Hoje a Galiza e a sua música está presente no Brasil, agora nasceu “Cantos na Maré” em rede, que é a possibilidade real de pensarmos num mercado da Lusofonia onde os agentes culturais estejam presentes. “Cantos na Maré” tem o sucesso da vontade e da paixão que pomos nas coisas. “Cantos na Maré” tem que ser itinerante, é um encontro de músicas e músicos galegos, mas não é só isso, é algo mais».

Falando depois na receptividade do projecto em Portugal, referiu que detecta no nosso país uma desconfiança a respeito da Galiza e dos galegos, supondo-se que os projectos de que Uxía falava fizesse parte de uma manobra de Espanha para absorver Portugal. «Em Portugal ainda não se entende bem qual é a situação da Galiza, e as relações que temos com Espanha. Mas estamos num momento excepcional das nossas relações e temos que avançar por aí».

E termina chamando a atenção para o número de falantes do português: «É um grave erro estratégico não afirmar que galego e português são a mesma língua. Há que fazer que vejamos as televisões portuguesas na Galiza para já. Temos a sorte de termos uma língua internacional com todas as vantagens das culturas internacionais com milhões de falantes e temos que aproveitá-lo, eu não entendo o erro dos políticos, o erro histórico de que essa nossa realidade linguística se agache, parece-me um erro gravíssimo. Na medida em que nos afirmemos pertencentes à lusofonia formaremos parte dum mundo vasto e riquíssimo no âmbito cultural, temos uma cultura tão rica e da qual somos o berço. Não podemos deixar que no-la apaguem».

«Esse medo que há em certos sectores de reconhecer que a Galiza tem a mesma língua que Portugal e agir na política cultural e linguística consequentemente na União Europeia não deveria fazer sentido, pois as vantagens desse facto não são só para nós, são para todos».

Estes sectores de que Uxía fala, referindo-se talvez mais às entidades políticas e culturais da Galiza, existem também aqui em Portugal onde parece haver um atávico receio de desagradar a Madrid. Recusar esta ponte de fraterna unidade cultural que galegos como Uxía nos estão estendendo, seria uma estupidez.

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