Um conto da vida de Zé Pequeno (8)

(Continuando)

Os dias que se seguiram foram de trabalho. Trabalho árduo em que Zé Pequeno investia com persistência no seu juramento. Dias a fio trabalhando a pedra e saciando a sua fome de saber. De olhos vivos e atentos, de um azul que parecia reflectir o céu, buscava o saber e o aperfeiçoamento da sua arte. Queria ser o melhor pedreiro da obra, o melhor pedreiro do mundo. Era na sua arte que todo o seu ser se sustentava, o seu orgulho, a sua vaidade e a sua força.

Zé Pequeno não tardou a ser notado e comentado como bom artista, e volta meia volta a vida premiava quem se fazia vingar pela sua arte. Numa dessas raras voltas, Zé Pequeno foi contratado para a obra de S. Macário. O Senhor Nogueira carecia de alguém de confiança para trabalhar com o ferro e Zé Pequeno iniciara-se já com sucesso nessas lides. Sucesso que não obsta às más fortunas. Zé Pequeno em auxílio da dobra do ferro para uma cofragem, viu o seu braço direito ser infligido pela dor. Um dos ferros soltou-se, atingindo-o. Foi a confusão na obra. Todos acorreram para ajudá-lo, improvisando compressas para estancar o sangue que jorrava a impulsos. Não havia transporte da obra, o camião tinha ido carregar areia. Não restou alternativa a Zé Pequeno senão caminhar até à estrada, para apanhar a faniqueira que fazia serviço de carreira à Vila. Ali aguardou pelo transporte, enquanto o seu braço latejava por debaixo da compressa de trapos improvisada.

Por entre os minutos que sabiam a horas, ia-se queixando da sua má sorte e praguejava. Até que, por fim, o transporte quedou-se em sua frente. Entrou, e munido do bilhete descobriu o lugar sobrante que alcançou em três pequenos passos.

Foi então que encarou Luísa que se encontrava do lado da janela. De repente deixou de sentir qualquer dor, anestesiado que ficou pela surpresa. “E agora?” pensou ele, ao mesmo tempo que balançava a impulsos da estrada fraca. Instintivamente sorriu ao mesmo tempo que fazia evidenciar o seu braço martirizado, como que buscasse na pena uma ajuda. E Luísa sorriu com candura. Zé Pequeno sentou-se a seu lado e com a mão esquerda abriu o porta-moedas de Luísa que repousava no seu colo, guardou o bilhete e fechou novamente.

“Obrigado, mas eu já tenho bilhete” retorquiu Luísa ao mesmo tempo que achava graça ao gesto de Zé Pequeno.

“O que foi que te aconteceu?” perguntou ela com a serenidade de quem aguarda com tempo uma resposta.

Zé Pequeno mirou-a com saudade, olhou para o mundo que corria pela janela em busca de uma resposta até apear nos olhos de Luísa.

“Eu sei que estou em falta para contigo” disse ele enquanto desviava o seu olhar para o chão do arrependimento.

“Estou a perguntar pelo teu braço” esclareceu Luísa.

Zé Pequeno ficou ainda mais atrapalhado, sem saber se fora Luísa que o iludira ou se fora a sua consciência a dar outro sentido à pergunta.

“Foi numa cofragem, o ferro saltou e atingiu-me no braço. Mas isto não é nada. Isto passa” .

“E que é feito de ti?”.

Zé Pequeno agora não tinha dúvidas, Luísa queria saber porque foi que jamais lhe apareceu, o que o levara a afastar-se dela. À ideia só lhe vinha à memória as palavras do Senhor Nogueira. Palavras que agora não lhe pareciam ter sentido, enquanto olhava para Luísa, enquanto recordava a saudade que sentiu quando a encarou. Estar ao lado dela parecia ser muito mais verdadeiro que quaisquer palavras ditas, por quem quer que fosse. Mas tinha de explicar a Luísa, tinha de exteriorizar os seus medos e isso não era nada fácil.

“Sabes, Luísa, eu sou um simples pedreiro, filho de um pedreiro. O resto eram histórias do Toninho. E eu não podia aceitar a ideia de um dia mais tarde ser enxotado só porque outra pessoa, com outro futuro, te surgisse” confessou Zé Pequeno, partilhando o que de mais sincero em si corria. Luísa olhou-o demoradamente, ao mesmo tempo que parecia estar a examinar cada uma das palavras que Zé Pequeno lhe dissera. Por fim abanou levemente a cabeça com um sorriso maternal:

“Estavas tão enganado. Eu nunca fui na conversa do teu amigo. Eu gostava era de ti. Desde o dia em tu e tua mãe foram à quinta do meu tio negociar as laranjas e as carregastes a horas a fio pelo carreiro”.

A memória de Zé Pequeno ficou em sobressalto e num ápice tentou recordar o dia em que fora com a sua mãe negociar as laranjas. Surgiu-lhe então um rosto emoldurado por cachos louros e logo um nome: a Lourinha. Apreciou então o cabelo de Luísa. Já não tinhas cachos, estava curto, mas tinha a mesma cor reluzente que a sua memória havia captado e guardado. Consternado, começou a baixar lentamente a cabeça até pousar a testa na não que agarrava o ferro do banco da frente. Olhou-a de soslaio.

“Então eras tu que estavas debaixo do alpendre da casa. Tu tinhas o cabelo aos cachos dourados. Mas não estavas sozinha” concluiu.

“Estava com a minha prima Inês. Recolhemos ao quarto e da janela passei o tempo a observar-te, a apreciar a tua força. Eras determinado em tudo o que fazias. A determinação é o que eu mais aprecio num homem. E tu és um homem determinado, Zé”.

Zé Pequeno voltou a endireitar-se e tentou sorrir:

“Se é assim, então podemos namorar. Eu não tenho compromisso com ninguém”.

Calmamente Luísa abriu o porta-moedas, retirou o bilhete e passou-o para mão de Zé Pequeno que o mirou tentando perceber a devolução:

“Não, Zé. Se achaste que na maré eu não te servia então também não te sirvo daqui para a frente”.

Luísa levantou-se e Zé Pequeno ficou a olhar para cada movimento que fazia. Levantou-se para a deixar passar, ao mesmo tempo que reflectia sobre o que lhe dissera Luísa. De um momento só lhe restavam aquelas palavras, ali sentado sozinho no banco viu Luísa sair da faniqueira que logo arrancou em direcção à Vila.

Zé Pequeno não olhou sequer para trás. O seu olhar firmou-se para diante. Estudou novamente o bilhete que as suas mãos seguravam e lembrou-se de novo do juramento que havia feito. Lembrou-se que havia jurado vingar-se pelas suas mãos, seria a sua arte que o faria ser respeitado. Mas tudo pareceu-lhe ser insignificante perante as palavras de Luísa. Palavras essas que lhe transmitiam uma qualquer lição. Uma lição que não sabia bem definir em contornos precisos mas que se resumia ao respeito que faz sustentar verdadeiramente o significado de ser homem.

Hoje, Zé Pequeno recorda estas e outras histórias em serões, ao mesmo tempo que envolve as suas palavras em longas e compassadas fumaças de cachimbo. As mesmas fumaças que aliciam o mistério em cada história que conta e em que os seus olhos vagueiam, ao mesmo tempo que a sua memória o faz reviver cada pequeno detalhe com a precisão de um tempo presente.

(Fim)

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