Desemprego, a prostituição social

Uma das bandeiras demagógicas de que os políticos se servem é do imenso estandarte da luta pela coesão económica e social e combate ao desemprego. Converteu-se em estereótipo da maioria dos líderes da UE. Portugal, o tal excelente aluno europeu – lembram-se? –, não enjeita a oportunidade de figurar nessa representação teatral. Umas vezes por um PM sorridente lá fora, outras através da mesma personagem de ar sisudo e colérico cá dentro; sobretudo quando questionado sobre resultados da governação, traduzidos em falhanços de políticas de emprego e de defesa de um tecido económico e social coeso.

Quem o viu e ouviu na entrevista com Miguel de Sousa Tavares, notou o desaforo de José Sócrates que, em tom grave e reforçado pelo dedo de pistoleiro em riste, afiançou que Portugal, em termos de PIB e de outros resultados macroeconómicos, estava no grupo dos países europeus de melhor performance – a tendência para se temer a réplica do fantasma da Grécia é, na versão dele, mera farsa, própria de quem apenas utiliza a maledicência e aposta em prejudicar os interesses e a imagem do País. Sócrates, e deve sublinhar-se que com sucesso, é um exímio actor, conseguindo, pois, persuadir muita gente de que as alternativas de escolha se confinam a ele ou ao caos.

Temos visão oposta: ele, como outros, é um protagonista do caos. Baseamo-nos no produto real de políticas, e em factos e resultados concretos. Hoje, o Eurostat publicou estatísticas de que Portugal, em Janeiro de 2010, atingiu a taxa de desemprego de 10,5%. Esta taxa coloca o País no 4.º. lugar dos piores índices de desemprego da Zona Euro, 0,6% acima dos 9,9% da taxa média deste subconjunto, e 1% superior à média de 9,5% relativos ao conjunto de 27 países que integram a UE – Eurostat_Tx_Desemprego_Jan_2010.

As nossas críticas a Sócrates não devem, pois, ser interpretadas como juízo redutor de que ele é responsável único e exclusivo da crise. Visam denunciar, sobretudo, a forma descarada de falta de verdade e de cumplicidade partilhada com outros líderes europeus, cujos posicionamentos públicos se alinham por idêntico ou semelhante diapasão.

Com efeito, a coesão económica e social que é objectivo expresso da UE converteu-se, nos tempos correntes, em falácia muito utilizada por políticos da Europa dos 27; sustentam-se na letra de textos oficiais, tidos como probos e subscritos por altos magistrados dos respectivos Estados. É o caso do Tratado da União Europeia, que se compromete, no art.º 2.º, a combater a exclusão social e as discriminações.

No lugar da coesão económica e social, as sociedades europeias – e não só – vivem politica e socialmente um ambiente que poderíamos designar por ‘prostituição social’. Que o digam os mais de 100.000 jovens até 25 anos desempregados e os mais não sei quantas dezenas de milhares portugueses que, acima dos 40 anos, estão em sérias dificuldades para aceder a um emprego. Que se interpretem, com olhos de ver, os dados relativos à disparidade de ‘PIB’s per capita’ divulgados nas estatísticas do citado Eurostat, GDP dos diferentes Estados da Europa – Em 2008, o índice no Luxemburgo era de 276,73, comparável a 76 de Portugal que estava abaixo dos 76,3 de Malta. Isto é coesão económica e social? Para mim é pura prostituição social. Com responsabilidades repartidas por políticos internos e externos, incluindo Sócrates no elenco.

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