Numa altura em que o pensamento único tende a fazer deste planeta um mundo irracional e idiota, nestes tempos de profunda hipocrisia e escassa poesia, tentar a poesia é, ainda, tentar voar.
Sobre a poesia e os que a tentam descobrir, os chamados poetas, recai muitas vezes um julgamento pejorativo.
A poesia é assim uma coisa…e os poetas uma espécie de lunáticos que não têm os pés assentes na terra.
Eles têm os pés assentes na terra. O que acontece é que a terra nem sempre é terra, e eles erguem os pés porque a terra é merda mal cheirosa.
A poesia está para além das letras, das sílabas e dos versos. É uma espécie de ascese que envolve o Homem e o aproxima da sublimação da vida. Estou convencido de que há muitas pessoas que não conseguem ultrapassar a fronteira para além da qual a razão do mundo não é a sua ou a visão do mundo não é a que diariamente nos impingem. E penso, é apenas uma opinião, que a causa está na ausência intrínseca de sentimento poético.
Por isso
Este livro
este copo
esta mesa…
…este mar d’águas quentes
bordando a lodo o cais de Pindjiguiti
onde caiu meu corpo no dia da memória
este livro
este copo…
…este mar d’água e sangue
estoirado na cabeça
do último respiro da vida e da história
este livro
este Viriyamu fuzilado
na penugem de Cinteya
nas balas de Vaina
no esventrar de Zostina
esta cabeça atulhada
de milhões de pensamentos
perdidos na estrada…
…este chão de Babi-Yar
de sangue regado
nas lágrimas caladas do Dniepre
esta cabeça esgotada
de acordar pensamentos…
…este grito do vento
na terra lembrada
dos rios da morte e do silêncio
esta cabeça cansada…
de eternizar momentos em séculos de nada.






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