O óbvio que o tem de deixar de ser

Há uns dias, dizia-nos uma professora a propósito de um “remark” clássico de um aluno, que os alunos portugueses não se apercebiam que precisavam da escola. Baseava-se a professora num estudo apresentado, que eu por acaso tinha visto, que dizia que a educação portuguesa é aquela que oferece menos “mobilidade social”, ou seja, a hipótese de se “subir na vida” por causa da escola.

A minha professora tem efectivamente razão. A escola é um instrumento muito importante para uma vida melhor e para alcançarmos os nossos objectivos. Apesar de não ter sido bem essa a minha conclusão quando vi o estudo, a minha professora atribuía o resultado deste ao abandono escolar e à falta de interesse dos alunos e devido efectivamente ao facto de não se aperceberem que precisam da escola. Isto é algo que eu já ando a dizer há séculos e não constitui nenhuma novidade para mim.

Contudo, devo acrescentar que entrei numa fase de crispação e para mim este discurso – feito por uma professora num décimo segundo ano – já não tem sentido. Entrei na fase da responsabilização. Entrei na fase em que me parece que se alguém que está num décimo segundo ano de um curso regular, ou lá como se chamam agora, não sabe que precisa da escola, então dificilmente vai saber. E outra coisa. Este “acordar para a vida”, não depende dos professores, ou dos pais, ou da escola. Depende dos alunos. Quantos pais incentivam os filhos a estudar e eles não estudam? Sim, porque já passamos a fase em que achamos que os miúdos que tem más notas são os desgraçadinhos e pobrezinhos.

Quantos professores não repetem o discurso do “vocês precisam da escola”? Quase todos. A verdade é que um aluno que não quer saber, que se está a borrifar, não vai “acordar” só porque o pai ou a professora lhe diz que ele precisa da escola. O discurso da minha professora fez sentido sim. Mas fez sentido para aqueles que o já sabiam de antemão, não para aqueles que não querem saber porque estes têm que aprender por isso próprios. Ou seja, a realização de que a escola e a educação é necessária tem que partir do aluno nunca poderá partir do professor ou do pai. Um aluno tem que estudar não porque tem medo do pai ou porque o professor disse. Um aluno tem que estudar porque se tem que aperceber que precisa de uma educação. Ponto.

Comments


  1. E que tal uma escola mais próxima da vida real? Que mostre porque é que a matemática é necessária em vez de a simplesmente ensinar; que mostre porque é que a história é fundamental para perceber o que é o nosso mundo hoje. Estes são apenas dois exemplos. É que também a teoria pode ser prática. E a escola pode ser melhor. E o óbvio, por ser tão óbvio, não precisará de ser explicado.

  2. ricardo says:

    Concordo com o José Freitas, discordo da Daniela.
    A minha experiência diz-me que os pais e os professores são fundamentais na motivação do aluno. Os pais devem incentivar os filhos a ler, acho que tudo começa por aí. Quando um miudo descobre a maravilha que é ler um livro, metade do problema está resolvido. A outra metade cabe aos professores ajudar a resolver – ensinar com prazer faz com que os aluno tenham prazer a aprender- as notas vêem por acréscimo.

  3. Daniela Major says:

    ricardo :
    Concordo com o José Freitas, discordo da Daniela.
    A minha experiência diz-me que os pais e os professores são fundamentais na motivação do aluno. Os pais devem incentivar os filhos a ler, acho que tudo começa por aí. Quando um miudo descobre a maravilha que é ler um livro, metade do problema está resolvido. A outra metade cabe aos professores ajudar a resolver – ensinar com prazer faz com que os aluno tenham prazer a aprender- as notas vêem por acréscimo.

    Caro Ricardo eu acho que os pais e os professores devem motivar mas parece-me que a partir de um certo ponto, a partir de uma certa idade, tem que partir do aluno. Eu comecei a gostar de ler por causa do meu pai mas, apesar dele me incentivar a estudar, eu só comecei a preocupar-me com a escola a partir de uma determinada altura e foi por decisão própria.

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