Sou portista, não sou anti-nada

Desde criança que comecei a frequentar o velhinho Estádio das Antas, aquele que foi durante muitos anos a minha segunda casa. Ali fui muitas vezes feliz, ali passei um dos dias mais tristes da minha vida, 3 de Abril de 1986, morte da minha avó. Foram lá pôr-me para não assistir ao drama que estava a acontecer em casa. E por lá fiquei o dia todo. Vi o treino da equipa de manhã, no final pedi autógrafos ao Madjer e ao Futre, fui almoçar ao restaurante da Piscina, vagueei pelo Pavilhão durante a tarde à espera que me fossem buscar.
– E a vovó, pai?
– Está a descansar, Ricardo.
Percebi. Não disse mais uma palavra.
É um dos muitos episódios que guardo na memória. Numa adolescência estranha, marcada pela solidão e pelo isolamento, o FC do Porto foi o meu grande amigo. Aquele que sempre me acompanhou, aquele que me permitia continuar a ser um miúdo relativamente normal. Inscrevi-me na claque, não os caceteiros dos «Super», mas os «Dragões Azuis», que ocupavam a Arquibancada ao som do trompete do sr. Lourenço, o velho tipógrafo do «Comércio do Porto».
Lembro-me da minha primeira viagem com a claque. Foi a Braga, penso que em 1987. Deve ter sido a primeira vez que almocei no restaurante com alguém que não os meus pais. Lembro-me do FC do Porto – Dínamo de Kiev, o mais belo jogo de futebol que vi até hoje, quando um gigante que eu não conhecia pegou em mim ao colo no momento do segundo golo.
Na época seguinte, lembro-me de entrar para o Estádio às 6 da tarde para o jogo com o Real Madrid, que começava às 10. Um mês depois, chorei com a despedida do Madjer, num jogo contra o Penafiel em que levei pela primeira vez o meu sobrinho, o nosso ex-aventador Gustavo. O Gustavinho.
Afastei-me, porque os interesses passaram a ser outros, mas continuo a ver no FC do Porto um baú de imensas recordações. E quando penso no Porto, penso na minha vida. E quando penso no Porto, penso num clube que só é grande porque conseguiu vencer e ultrapassar adversários enormes ao longo de muitos anos. Quando penso no Porto, não consigo deixar de pensar em clubes como o Benfica e o Sporting. Sem eles, o Porto não seria nada. São eles que fazem a nossa grandeza, da mesma forma que nós contribuimos para a grandeza deles.
É por isso que nunca poderia ser anti-benfiquista ou anti-sportinguista. Claro que quero que percam. Claro que quero que o Porto ganhe. Mas só isso. Nunca poderia desejar mal a dois clubes que, afinal, também fazem parte da minha vida. E de um baú imenso de recordações.

Comments

  1. maria monteiro says:

    Não tenho recordações de futebol, embora tenha entrado num estádio nunca fui ao futebol, mas entendo que o futebol faça parte da vida e do crescimento de muitas pessoas … pena é que se joguem outros jogos… cada vez mais vos ouço falar de outros futebóis para lá do futebol

  2. Luis Moreira says:

    Eu o que posso dizer é que se vivesse no Porto seria Dragão. percebo isso muito bem.Vivi em várias terras, adaptei-me sempre.Vivo em Lisboa sou de pelo menos três. Não sou mais do belenenses porque já vi muitas vezes aquele campo cheio ( o mais bonito de todos) e agora estão lá 2 000 pessoas e o futebol que jogam é péssimo.

  3. Carlos Loures says:

    Essa, Ricardo, é a maneira correcta de ser adepto de um clube. Não compreendo o ódio que o futebol desperta, não compreendo a imbecilidade de t-shirts e cachecóis ofensivos para os outros (embora uma vez uma t-shirt benfiquista me tenha feito sorrir – «Antes morrer no parto do que nascer lagarto»); não compreendo a afirmação de um amigo aqui do Aventar, quando diz que sente um profundo desprezo pelo Benfica. Alguns benfiquistas sim, serão merecedores de desprezo; mas, a instituição? Detesto o Pinto da Costa que, para mim, representa tudo o que de hediondo existe no futebol, mas respeito a instituição FCP que tanto tem dignificado o desporto nacional. O papa desaparecerá e o clube ficará. É assim, Ricardo, ser a favor do nosso clube (preferindo, naturalmente, que os rivais percam), mas sem ser anti seja o que for. Um abraço, Ricardo.


  4. Boas,
    estou a ver que o nosso percurso não é assim tão diferente, só “vareia” o resultado final. Também eu ia para as Antas, a pé pelos bairros de contumil.. Juniores, pavilhão, piscina, tudo… Também as obras para o estádio ficar maior, jogos europeus, selecção – Vitor Paneira cruza, Rui Águas, goooooolooooo… Também eu, também eu… Fui o sócio 25 mil e tal… Mas houve 2 dias… Um com o COvilhã, em que ao intervalo o Porto perdia 1-2 e o Benfica poderia ser campeão, depois o César Brito… Sim, era do BENFICA… E, tal como tu, quero que os meus adversários percam sempre. A isto dizem que é ser anti… Pois que seja… Tu queres que o Benfica perca sempre, mas não és anti… Tudo bem… Não somos assim tão diferentes… Tu és do Porto e eu sou do Benfica. Só isso!


  5. Até posso concordar com a sua História.
    O título em nada dignifica uma Cidade, provavelmente a sua Cidade.

    Meu caro dizer que o Porto é Merda é chamar-lhe a si desculpe a Expressão: SANITA

    Saudações Marítimas
    José Modesto


  6. Meu caro Modesto, não creio que o Ricardo precise de defesa, mas a imagem vem na sequência de um post anterior e de uma discussão que temos tido nos últimos dias… O que ele quer significar é exactamente o contrário do que foi a sua leitura… digo eu…
    JP

  7. Pedro says:

    Eis um texto de um portista com o qual estou completamente de acordo. Eu não tenho, nem de perto, nem de longe, a mesma ligação de proximidade a um clube, nunca frequentei estádios, nunca fiz de um clube a minha segunda casa. O futebol, já uma vez falei disso no Aventar, é um jogo que me serve para socializar e divertir, incluindo aquelas picardias em que nos portamos como rapazecos para diversão mútua. Além disso, páro, deixa de ter graça.
    Subscrevo o comentário do Carlos Loures, incluindo o que diz sobre Pinto da Costa.
    E claro que quero que os adversários directos percam no campeonato português,pelo menos enquanto ameaçarem a posição do meu clube. Mas não faz sentido, para mim, desejar a vitória do Bruges ou do Glasgow (por ex.) contra o FCP. Porque haveria eu de preferir o Bruges se já namorei no Piolho, amei mulheres da cidade, passeei na Constituição, bebi cimbalinos na Foz, apanhei sol na Ribeira, comprei fruta e broas de Avintes no Bolhão, cresci a ouvir bandas do Porto e li tantos poetas e escritores do Norte?


  8. Caro João Paulo.
    Concorda comigo que uma imagem vale mais do que mil palavras. Para quem vem a um blogue de referência e vê a triste imagem no blogue fica óbviamente insatisfeito.
    Tanto mais que iremos ser “Scutados” iremos ser penalizados com o famoso Pec, o TGV já não será prioridade para a linha do norte… o Red Bull que foi para a kapital, rock in Rio mas só de nome já que é Lisboa etc.etc.

    Peço desculpa mas a imagem fere, magoa.

    Saudações Marítimas
    José Modesto


  9. Meu caro Modesto,
    não tem que pedirdesculpa, ora essa 🙂

    Eu percebo a sua ideia interpretação que faz todo o sentido, claro. Repito é que não era essa a ideia do autor.
    JP


  10. Eu sou portista e detesto completamente o benfica eu quero que perca tudo nestes campeonatos

  11. mafalda says:

    PORTO SEMPRE ! <3

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  1. […] é inesquecível. Dou pouca importância e, por mais amor que sinta pelo FC do Porto – indelevelmente ligado ao meu passado – não confundo as coisas. Há gente má em todos os clubes – gente reles, gente mal formada, […]

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