Carrosséis

Não há gente mais triste do que a que se dedica aos divertimentos de feira. O homem do carrossel, que recebe as fichas das mãos das crianças, encosta-se a uma das colunas, vai remexendo, sem olhá-las, as fichas entre as mãos encardidas, fixa o olhar no chão e nada mais vê nem ouve até o carrossel novamente se deter. Tem os olhos inchados, a barba por fazer e um sorriso manso, que logo se apaga. A sua sócia, e mulher, vai vendendo as fichas, sentada na cabine onde há uma televisão que ela já não vê. Deve ter sonhado por muito tempo com as carruagens douradas que o carrossel reproduz em infantil escala, mas há muito que se resignou a olhar os três ou quatro botões que controlam as engrenagens do engenho, e a contar as moedas com que dá o troco aos paizinhos.

Tudo é triste, sob as luzinhas pirosas do carrossel e as colunas que debitam uma música esganiçada, tudo é pobre e desesperançado. Só as crianças passam a sorrir, agarradinhas ao volante de onde a tinta começou a estalar, só elas não reparam que a maior parte das lâmpadas do tecto já fundiu e que os traços do rosto da Cinderela começaram a apagar-se, e nem sonham que amanhã o carrossel se desmantelará e talvez renasça noutra cidade, ou talvez acabe os seus dias na sucata.

Uma e outra vez passa o carro dos bombeiros, o cisne, a chávena de chá servida à Alice, a carruagem abóbora, o dinossauro, o autocarro inglês. Acaba-se o dia de primavera antecipada, sopra um vento gelado, os forasteiros apressam-se a regressar à cidade. Os carrinhos passam, e passam novamente,  quase todos vazios, apenas uma ou duas crianças ainda insistem em ficar. A campainha soa, as últimas crianças partem, arrastadas pelos pais, ensonadas, a chorar, é o triste fim do triste anoitecer de domingo.

Um homem de braços tatuados salpica com maus modos o açúcar para cima das farturas brilhantes de óleo, um ciganito vende brinquedos de má qualidade a miúdos pouco mais novos do que ele. Sai-se da feira com a nostalgia de um domingo mal gasto e uma tristeza que não se sabe de onde vem.

Comments

  1. Bonito como sempre. Vê-se que levaste ontem o teu menino ao carrossel.

  2. Carla Romualdo says:

    Obrigada, Adão. É verdade, eu conto a minha vida toda aqui, sou uma exibicionista.

  3. Carlos Loures says:

    As feiras podiam ser recintos maravilhosos. Mas começam a ser sítios perigosos para as crianças. A começar nos carrosséis (que não têm a manutenção devida) e a acabar na higiene duvidosa dos doces. Provavelmente, quando eu era miúdo já seria assim (ou pior), mas guardo das feiras uma recordação que, como sugeres Carla, era como que uma passagem para o outro lado do espelho. Mais um texto bonito.

  4. maria monteiro says:

    E até voltei aos tempos de miúda onde os três dias da feira das cebolas, em Portalegre, eram passados em bons finais de tarde nos carrinhos de choque e nos matraquilhos. Achava piada aos carrosséis mas isso de andar à roda nunca me cativou. Em Lisboa havia um certo ritual de se ir à feira popular…

  5. Luis Moreira says:

    Mas as crianças adoram, a tua visão é a do adulto que deixou para trás a fantasia. Tal como a mulher da bilheteira. O texto lindo!

  6. carla romualdo says:

    A verdadeira visão – a que eu não quis confessar aqui – é a da mãe aterrorizada, a espreitar por baixo do carrossel, à procura de cabos soltos ou de parafusos quase a saltar. De mãe galinha, portanto.

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