A última palavra

A última palavra (um conto do meu filho do meio, Marcos Cruz)

Um dia havemos de ir a Paris. Geraldo estava em crer que esta devia ser uma das sugestões amanteigadas mais gastas desde que o imaginário colectivo consagrara a capital francesa como a grande estância termal do romance ritualista. Ele, na sua essência de pinga-amor, tinha por certo contribuído, e muito, para as estatísticas, e mais uma vez acabara de visitar esse lugar, não Paris, o da promessa que, havendo sido feita uma e outra vez, por si e por tantos, soava sempre como nova ao sair da boca de quem saísse, sobretudo da sua, cuja extraordinária capacidade de lavar mil e um passados com a saliva do momento era já proverbial entre os seus amigos e conhecidos, a que perdia irremediavelmente a conta, dada a propensão que lhe habitava a massa do sangue para somar e multiplicar relacionamentos de todo o tipo, aí, desde que não amorosos, sem excluir memórias, antes incluindo tudo o que transcendia.

Maria gostava disso, dessa expansividade, desse brilho incapturável, ou não se reconhecesse ela como uma amante de horizontes, nos melhores dias, e uma burra atrás da cenoura, nos piores. Encantava-se com a facilidade que Geraldo demonstrava para levá-la na sua língua pelas noites dentro, como se aquela fosse um tapete voador que lhe mostraria todos os mundos destapáveis na consciência e na inconsciência humanas. Todos excepto Paris, pelos vistos, caso contrário, deduzia Maria, há muito Geraldo teria deixado de repetir, ainda que sempre umas oitavas acima, ou abaixo, da vez anterior, consoante as preferências de cada ouvido, a famigerada promessa. Era essa, pois, a razão por que não lhe dissera: “Para quê, Geraldo, se somos tão felizes aqui?”.

No dia do embarque, havia pois um frémito partilhado, um nervoso miudinho que unia ambos como o amor que sentiam um pelo outro. Ela entrava no avião com o deslumbramento e a incredulidade de quem se apresta para viajar no tempo, para reencarnar, para comprovar a existência da terra prometida. Ele descolava do chão com o espírito de quem revê o filme da sua vida na companhia (não a aérea, bem entendido, embora Maria já então passeasse pelas nuvens) mais desejada. Em silêncios pessoais e intransmissíveis, os dois procuravam equilibrar da maneira mais tranquila possível o entusiasmo e um certo sentido de responsabilidade para com o outro, ambos crescentes à medida que o avião rasgava o céu rumo ao óvulo dos sonhos.

Maria não queria elevar a fasquia das expectativas acima do encanto que lhe fora infundido pelas palavras mágicas de Geraldo, ainda que este lhe houvesse jurado não haver palavras capazes de honrar devidamente o fascínio de Paris. Ela sabia que à essência sedutora do namorado não era alheia uma bonita dose de modéstia, um irresistível fazer sentir que tudo o que se diz é raso face à realidade, mas os resquícios de bom-senso que a avassaladora paixão lhe permitia conservar faziam-na intuir naquele inebriante platonismo um quê, ou um je ne sais quoi, como se diz em Paris, de comprazimento intencional, de conquista do outro, neste caso, dela.

Geraldo queria estar à altura de tudo: das expectativas de Maria, das nuvens e de Paris. Queria acompanhá-la no pulsar e no sentir, queria que Paris fosse ela e que ele pudesse contemplá-la sem perturbar a inocência com que ela, pensava ele, desvalorizando o seu próprio talento descritivo, contemplaria Paris. Pedia, portanto, outra primeira vez, mais uma primeira vez, melhor, a primeira vez de Maria em Paris e a sua primeira vez em Paris com Maria. Se pudesse, ali, apagaria o passado, as investidas anteriores, as namoradas anteriores, as Parises anteriores, ou seja, também ele desejava reencarnar, viajar no tempo, fantasiar com a terra prometida. O avião era uma caixa no ar, Maria era uma caixa de ar dentro do avião, Geraldo era uma caixa sem ar dentro de Maria.

Hoje, cumprem-se dez anos sobre a queda do avião. Nenhuma das três caixas sobreviveu. Apenas uma quarta, a caixa negra, e dela não consta, pelo menos perceptível, qualquer sinal de Geraldo ou de Maria. Mas há uma certeza: para ambos, foi mesmo a primeira vez, a única primeira vez possível, a primeira última vez. Ter-se-ão cumprido os seus sonhos? Terão viajado no tempo, reencarnado, encontrado a terra prometida? Sobre isso, ficam todas as dúvidas. Mas Paris continua no sítio. E um dia havemos de ir lá.

Comments

  1. Luís Moreira says:

    Temos escritor!

  2. Carlos Loures says:

    Uma metáfora sobre as ilusões, as esperanças que nos alimentam a vontade de estar vivos. Muito interessante.

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