A rotativa do República (Memória descritiva)

Em Novembro de 1961, o dia de São Martinho calhou a um sábado. Com um numeroso grupo de colegas e amigos da RTP fui festejar a data para um restaurante dos arredores. Cozido à portuguesa, vinho tinto, castanhas assadas e água pé, pois claro. Ao meu lado sentou-se um jovem, uma meia dúzia de anos mais velho do que eu, mas com menos de trinta anos, trabalhava no Lumiar enquanto eu estava na sede, na rua de São Domingos à Lapa. Falámos durante todo o almoço. Chamava-se João. João Soares Louro.

Na altura era ele um simples funcionário, embora com uma categoria superior à minha, pois trabalhava na empresa desde a sua fundação. Brincámos com a semelhança do nome – Louro, Loures – naqueles tempos se queríamos saber como funcionava politicamente um desconhecido, íamos lançando uns balões sonda para o meio de conversas banais. Embora um dos «subversivos» que trabalhava comigo e o conhecia me tivesse logo tranquilizado sobre aquele colega. Seria tudo menos um bufo. E, antes de terminarmos as entradas, já percebêramos que estávamos do mesmo lado.

Como se sabe, muitos anos depois, viria a ser administrador da empresa. Nos anos 90, aí em 94, estive com ele numa reunião da RTC, que o Soares Louro criou, para combinar uma campanha da empresa onde eu trabalhava. Não lhe recordei esse dia de três décadas atrás. Até porque, embora delicado, correcto, via-se que não estava bem disposto. Talvez já estivesse doente.

Mas do que queria hoje falar, era desse longínquo dia de São Martinho de 1961. No regresso, a Lisboa, fomo-nos despedindo e o Soares Louro recomendou, a mim e aos outros três colegas de esquerda, que passássemos pela sede da candidatura da oposição democrática, instalada perto do Martim Moniz, salvo erro na rua do Socorro. As eleições legislativas, realizavam-se no dia seguinte, mas a Oposição retirara-se pois não tinha condições mínimas para concorrer. Apesar disso, havia trabalho político a fazer.

Lá fomos. Uma sala muita pequena cheia de gente. Uma senhora franzina, de cabelo claro, muito enérgica, atendeu-nos. Apresentámo-nos e logo nos arranjou que fazer. Nem mais nem menos que dinamizar na empresa uma subscrição nacional a favor da compra de uma nova rotativa para o jornal “República”. A senhora chamava-se Maria Eugénia Varela Gomes e era a esposa do então capitão, um homem que corajosamente, punha em risco a sua carreira, ao aceitar ser candidato pela Oposição. Após o assalto ao quartel de Beja em que o marido foi gravemente ferido, seria presa pela PIDE e barbaramente torturada.

Durante a campanha, no Teatro da Trindade, assistira a uma sessão de esclarecimento em que falavam os candidatos pelo círculo de Lisboa. Entre eles o capitão Varela Gomes. Começara por ler a sua intervenção, mas depois, enervado, pôs os papéis de parte e fez um discurso de improviso de uma acutilância que era rara por aquela época. Atacou o ditador tacanho, a influência da Igreja Católica, a polícia política, a Guerra Colonial que começara nesse ano, a Censura, em suma pôs em causa os fundamentos da ditadura. A sala irrompia em frequentes e vibrantes aplausos.

E nós, aquele grupo de quatro oposicionistas, começámos logo na segunda-feira a nossa tarefa. Percorremos as secções, aproveitámos a hora do almoço (eu fora eleito para a comissão que dirigia o refeitório, a biblioteca e as actividades culturais e, fora das horas de serviço, movimentava-me pelo edifício sem que isso fosse notado). Da Alameda das Linhas de Torres chegou-nos um grande contributo. Conseguimos uma importância elevada, uns contos de réis, que não traduzo em euros porque ficaria ridícula. E não o era. Lá fomos os quatro um fim de tarde levar o dinheiro ao jornal em nome dos «Democratas da RTP».

O jornal, pela importância da doação e por vir donde vinha, do pessoal de uma empresa do Estado, logo na edição seguinte nos meteu na lista que, diariamente, era publicada. O presidente do Conselho de Administração andou uma manhã aos gritos pelos corredores: «Onde é que estão os democratas da RTP?» e agitava um exemplar do República. Foi um dia de juízo.

Toda a gente sabia quem tinha recolhido os donativos. Os quatro do costume. Ninguém nos denunciou. E havia gente de direita, com legionários pelo meio, inclusive. O meu chefe de secção, que não se metia em política, mas contribuíra com um donativo, fez uma intervenção ameaçando quem falasse de passar a ser desprezado «como um cão», foi a expressão que utilizou. O director de serviços apoiou-o de forma discreta, mas firme. Este director, um economista, morreu jovem, pouco depois de eu ter saído (logo no mês seguinte, em Dezembro desse ano de 1961) e vejo agora que há um realizador com o seu apelido. Talvez um filho.

A camaradagem, e também o medo do desprezo geral, sobrepuseram-se às convicções políticas. Nenhum dos (poucos) salazaristas assumidos nos denunciou. Até porque se os oposicionistas activos eram conhecidos, os salazaristas também e se houvesse denúncia, mesmo que estivessem inocentes, seriam acusados. E o Presidente esqueceu a questão. Não me recordo se a rotativa foi comprada nessa altura ou se isso só aconteceu quando o jornal foi reformulado no começo da década seguinte. Não é importante.

Onde quero chegar é à seguinte questão – que jornal era este pelo qual nos arriscámos a ser presos e a perder o emprego? Era um vespertino que eu não apreciava (embora tenha, uma ou outra vez, publicado colaboração minha), muito agarrado aos republicanos históricos e, na sua última fase, disputado por pecepistas e «socialistas». Mau aspecto gráfico, artigos geralmente respeitáveis, mas enfadonhos. Era, em todo o caso, um jornal importante.

Fora fundado em 1911, por António José de Almeida. Nos anos da ditadura o “República” manteve-se sempre na oposição. Tenho para mim a convicção de que Salazar o conservou como amostra do seu «liberalismo». Carvalhão Duarte, José Magalhães Godinho e Raul Rêgo, personalidades importantes na área republicana, maçónica e socialista, foram os seus últimos directores. Pouco antes da nossa tarefa política, estivera em evidência durante a campanha para a eleição presidencial de 8 de Junho de 1958, em que dera grande cobertura à candidatura de Humberto Delgado.

Mas, no final da década de 60, o “República” atravessava um acentuado período de decadência, comentando-se a inevitabilidade da sua extinção, pois não passava dos 10 mil exemplares de tiragem diária. Contudo, em 1972, foi reanimado por um aumento do capital social. Renovado o equipamento, para os seus quadros entraram pessoas ligadas ao movimento que iria dar lugar ao Partido Socialista, militantes da Acção Socialista Portuguesa, fundada em Genebra, em Novembro de 1964: Mário Soares, Raul Rêgo (que substituiu Carvalhão Duarte na direcção), Gustavo Soromenho… A equipa redactorial foi rejuvenescida com gente da mesma área: Mesquita, Arons de Carvalho, Jaime Gama, António Reis e Álvaro Guerra e outros. As tiragens subiram e o jornal assumiu uma maior visibilidade.

Todavia, após a Revolução de Abril, o jornal foi sacudido por uma tremenda agitação, pois a uma administração e a uma equipa redactorial conotadas com o Partido Socialista, opunham-se os trabalhadores gráficos e administrativos, ligados a partidos de esquerda. A crispação foi-se acentuando e quando no princípio de Maio de 1975 a administração tentou admitir mais redactores ligados ou conotados com o PS, foi convocada uma Reunião Geral de Trabalhadores que condenou a crescente hegemonia socialista, boicotando a saída do jornal no dia seguinte.

Esta situação foi depois ultrapassada, mas, dias depois, novo impasse – O destaque dado pela redacção a uma visita da delegação de um grupúsculo maoísta à China, movimento adversário do PCP, e um artigo condenando a posição dos trabalhadores da Radiotelevisão Portuguesa ligados ao Partido Comunista, foram a gota que fez transbordar a taça.

Desencadeou-se um irreversível processo de ruptura que colocou em confronto, de um lado, a Administração, a Direcção e os redactores e, do outro lado da barricada, a Comissão Coordenadora de Trabalhadores dos gráficos e trabalhadores dos serviços administrativos e comerciais. E o «República» que resistira durante os quase 50 anos de ditadura, não resistiu à luta política, após o advento da democracia.

Deixou de ser publicado.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Mais uma vez o essencial, que era manter o “República” foi sacrificado no altar da intolerância e da luta política. Por gente muito à esquerda…


  2. O República foi vítima da luta feroz que se travava entre o PCP e o PS. O PS, que era dono do jornal, queria pô-lo ao serviço das suas ideias. O PCP, que tinha a maioria dos trabalhadores gráficos do seu lado, invocando a figura do «controlo operário da produção», boicotou a impressão, a distribuição, etc. E o jornal acabou.

  3. Luis Moreira says:

    Bem me lembro a deitarem a mobília pela janela, ali na rua da Misericórdia…

  4. Carlos Fonseca says:

    Carlos Loures, o ‘República’, dos que era permitido publicar, era um jornal de combate que eu e os meus amigos do Império líamos com avidez. Mais tarde trabalhei com o Eng.º Carvalhão Duarte, um dos filhos do director com idênticos apelidos.
    Sei pormenores dos eventos que levaram ao encerramento do jornal, iniciados com atitudes muito sectárias de militantes do PCP. O próprio Carlos Amboim Inglês, membro do Comité Central, incentivou o partido a fazer uma séria auto-crítica para erradicar o sectarismo então prevalecente.


  5. Preparava-se o grande confronto que teve o seu ponto mais alto no comício da Fonte Luminosa, no Julho seguinte. O Mário Soares fez o mais importante discurso da sua carreira política, exigindo, entre outras coisas, a demissão de Vasco Gonçalves.

  6. maria monteiro says:

    Carlos Fonseca, Eng. Carvalhão Duarte ali para as bandas de Sta Iria?


  7. Carlos Fonseca, devia escrever um post com esses pormenores de qua tem conhecimento. Há memórias que não se devem perder.

  8. Carlos Fonseca says:

    Sim Maria, justamente em Santa Iria de Azóia, mais concretamente no lugar de D. Pedro.

  9. maria monteiro says:

    ahhhhhh… és mesmo tu… então partilhámos o mesmo céu… boa escola de vida eu tive no lugar de D.Pedro

  10. Carlos Fonseca says:

    Sou eu sim. Guardo recordações gratas, mas igualmente outras de injustiça de que, como homem de esquerda, fui vítima. Não quero reabrir um ‘dossier’ há muito encerrado. Eu e o Eng.º Carvalhão Duarte fomos membros da I Comissão de Trabalhadores, eleitos por mais de 1000 votos, slavo erro em 6 de Maio de 1974.

  11. maria monteiro says:

    Carlos, eu entrei em Julho de 1977, o Carvalhão Duarte era Administrador eleito pelos trabalhadores foi ele que me fez a entrevista de admissão, me apresentou à comissão de trabalhadores e… e desde então tornámo-nos amigos. Uma amizade que continuou após a sua saída … por entre um cafezinho ou uma comidinha lá púnhamos a conversa em dia na Mexicana. Passado algum tempo do seu falecimento a loja que tinham na Praça de Londres também fechou … fica a memória dum homem bom com quem aprendi muito do que são relações humanas, a saber respeitar os outros …
    Esta semana estive a acompanhar um amigo que tinha vindo a um funeral e recordei o primeiro funeral com cremação a que assisti… foi o do Carvalhão Duarte no Alto de S.João …como o tempo voa
    abraço Maria

  12. Carlos Fonseca says:

    O Eng.º Carvalhão Duarte era, de facto, um homem de carácter e de princípios. Pouco antes da sua morte, também estive com ele, pela última vez, na Mexicana.

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