o crescimento das crianças – quando era (4ª parte)

Mapuche vestidos a rigor, como veste o clã Picunche en ías de festa

A-Victoria

Os Picunche eram denominados Promaucaes pelos conquistadores, no século XVI. Na altura que os Castelhanos foram ao país frio, o Chile dos Quechua. Promaucaes para os Quechua, esses habitantes do hoje Peru, esses inimigos imbatíveis, impossíveis de conquistar nas guerras índias (Villalobos, 1974; Lizana, 1909; Ovalle, 1646 Pedro de Valdivia, 1545-1542). Os purum auca, os inimigos imbatíveis para os habitantes do norte do sul do hoje continente americano. Os que dançam, para os Castellanos, os que se divertem, para quem fez uma enganada tradução mapudungun das palavras. Puru, feliz para os Mapuche e para os que Mapuche têm querido entender. Para os Mapuche Picunche, são pessoas do Norte, donde che é pessoa, e Picun, Norte. Habitantes do Norte. Do Norte do rio Choapa, que separa os lugares nos quais viviam (ver mapa das etnias na Net). Até Valdivia entregar as terras dos nativos, aos invasores,

como relata ao Imperador Carlos V, nas suas cartas citadas. Às sessenta famílias invasoras. Terras lutadas, beliscadas de volta, com raiva, com lanças, com flecha e arco, perdidas e tornadas a recuperar pela compra, séculos mais tarde. Picunche que teciam, teciam a lã dos guanacos locais da Cordillera de Los Andes, das llamas e vicunãs importadas pelos prévios invasores Inca. Tinham uma horta em cada grupo consanguíneo de lares contíguos, ou rucas, feitas de madeira e barro. Madeira não elaborada, fibra de madeira, ramas de uma árvore, plantas de junco ou coligue entretecido e enchido com lama ou barro, a quincha, como material de construção é ainda assim denominado e usado por grande parte da população do país. Antigamente, pelos Pehuenche, os Huilliche, os Picunche, os Mapuche, as várias famílias dos Rauco. Os habitantes não parentes, e até inimigos ou aliados, conforme for, denominados Araucanos pelos Castelhanos (Silva Pereira, 1998; Bengoa,1985; Villalobos, 1974). Cultivavam que hoje ainda cultivam: milho, feijão verde, cabaços ou pencas, vegetal do qual deriva o substantivo Pencahue, que dá o nome a comuna; produzem também ají, a quente guinda ou piripiri; a batata que salvou a Europaao ser exportada ao velho continente e a fez crescer demograficamente e em proteínas, e mani ou amendoim. E outras plantas não conhecidas entre nos, nos verdes vales regados pelos canais de aguas tiradas aos rios circundantes, o branco rio Claro, e o navegável rio Maule. Ficaram espantados os Castelhanos de ver um homem com tanta mulher, até seis ou sete, e tantos filhos. Varias Crónicas sobre o Chile relata a fertilidade das terras, a fertilidade das pessoas, a fertilidade do imaginário que adjudica um deus ou espírito a cada fenómeno natural, a cada animal, a cada pessoa. Até hoje, com nomes de pessoas falecidas na memória, mas vivos no imaginário Mapuche (ver Silva Pereira, 2000. ISPA). Mapuche e Picunche compartiam os mesmos deuses, a mesma cosmogonia, com uma divindade central, o Deus Pillán. Os Castelhanos tentaram apagar rapidamente nas Doutrinas ou reduções para as quais transferiram aos nativos. Habitantes que, em breve, se misturaram com os Castelhanos e outros da Espanha, que aí chegaram. Desde 1666 em frente, é possível ver nos arquivos da Paróquia de Pencahue, esse arquivo que tive a sorte de encontrar, os nascimentos de Yndios, espanhóis, escravos, mulatos e mestiços, muito mestiço, uma percentagem crescente de mestiços ao longo do tempo, filhos de mãe índia e sem pai conhecido, ou casado com a mãe. È no século XVIII, que aparece a instituição Encomenda (Eyzaguirre, 1963) ou entrega de índios à custódia espanhola, de esses ignorantes que nem sabem nem podem cultivar por serem preguiçosos, dizem os espanhóis. A Encomenda é abolida e os encomendados nativos, passam a ser inquilinos ou trabalhadores à jorna. No arquivo de matrimónios começam a aparecer combinações reprodutivas de espanhol com mestiço, índio com mestiço e eventual espanhol. E são só em 1829, pelo Decreto assinado pelo Director Supremo do Chile, o libertador Barnardo O´Higgins, que aparecem os primeiros chilenos, até serem todos chilenos os nascidos dentro do território e descendentes dos vizinhos que fazem do Chile, a sua pária e morada. Excepto, os não nascidos no Chile. Ou os que mantêm o jus sanguinis ou direito à nacionalidade pelo lugar original de nascimento da ascendência. Em uma terra como Chile onde impera o jus solis ou nascimento dentro das fronteiras do novo Estado ou nova República, simbolicamente desde 1810, formalmente desde 1818, passam a ser Chilenos. Este decreto do Chile passa a ser universal pela quarta Constituição do Chile, a de 1833, data da sua promulgação, sendo considerada por tradição, a primeira Constituição da nova República. É desta combinação de sangues, que os ancestrais de Victoria, descendem. Como a sua genealogia diz. Em uma época que os matrimónios eram rituais celebrados conforme o estatuto social das pessoas. Quando os pais só eram pais, se forem da mesma raça ou etnia. Entre Picunche, a união é patriarcal, o longo ou chefe da família, mora com as suas mulheres de idades diversas, na mesma ruca ou rucas perto umas das outras, onde vão morando os filhos mais crescidos, que tomam mulher e têm filhos. E todos em conjunto, vão trabalhando a terras férteis, no sistema de mingaco, ou reciprocidade consanguínea sistemática, para trabalhos pesados que precisavam muitas pessoas. Trabalho e festa combinada, com comida e chicha ou álcool de milho ou maíz fermentado. As rucas, todas juntas dentro da mesma área ou lov em mapudungum, facilitava o trabalho da família extensa que eles constituíam, patriarcal e de filiação patrilinear: as mulheres saíam dos seus sítios e famílias para passarem ao sítio de rucas ou casario do cacique ou chefe do grupo doméstico alargado. É assim que começa a família de Victoria, até onde foi possível traçar a sua origem nos ditos arquivos paroquiais. Originais da Doutrina de Rauquen, elevada à hierarquia de paróquia, acedem muito cedo, na curta História do Chile, a hierarquias maiores, em 1699. Em consequência, Doutrina com alta hierarquia, para custodia de índios e terras, gerida a Paróquia por uma família espanhola, os Parot, que em mais tarde na vida, no Século XX, seriam socialistas, como a minha amiga de Cambridge, Raquel Parot, casada com César Bunster, Embaixador do Chile na Grã-Bretanha e que por grande sorte, consegui leva-los a Cambridge na época em que Allende fora assassinado… Rauquen, casario Picunche onde morou a última Cacique da monarquia Picunche, a Cacique  Doña Ana, que em 1665 organiza um malon ou ataque por surpresa, à Vila de San Agustin de Talca ou Tralca, palavra mapudungun que para nós, é trovoada. A derradeira Cacique ou chefe política Picunche. A derradeira, porque o casario Picunche, de propriedade nativa, passa para Doutrina, depois, Paroquia, a seguir, Encomenda e Hacienda dos espanhóis. É pelos anos de 1700 que o espanhol encomendado de Rauquen, casado com Pascuala Allende, espanhola, tem um filho fora do matrimónio que passa a ser o primeiro mestiço, com nativa Tránsito Cerpa, inquilina de Rauquen, filho fora do matrimónio, criado por ela, mestiço, que casa com o nome de Fortunato Arredondo Cerpa, com Juana Maria González Zapata, filha, neta e bisneta de nativos do dito Rauquen, inquilinos todos já da dita Hacienda de espanhóis. É das novas Haciendas de Rauquen, Libún e outras como Quepo, Las 200, Toconay, Corinto, Carrizal, sítios desconhecidos pelo leitor e que é possível ver em mapa Net. Haciendas em que as mulheres em que tinham por oficio cortadoras de folha, tecedoras e cultivadoras de terra dos novos proprietários das suas usurpadas terras. Vivem ou com o seu grupo, ou com o homem com o qual fazem filhos, homens que se preocupam da sua descendência. Vivem, ou casam, ora com outros nativos ora com os, mais tarde, inquilinos, ora com espanhóis que fazem crianças com elas e cujos nomes dão aos pequenos, enquanto as pequenas só guardam o nome de baptismo. A ancestralidade de Victoria, pelo lado materno, é de origem Picunche: Castro, como é possível apreciar em livros de Registo, tipos corpóreos, em costumes e crenças. A avó, mãe da mãe de Victoria, é neta de nativa e espanhol não c
asados, como é possível apreciar da genealogia. Porque no século XVIII, os nativos são seres considerados como não pessoas. Entidades desconhecidas ainda a acreditarem no deus Pillán, que traz malefício aos que fazem mal a eles próprios. Um roga pragas Pillán, usado até o dia de hoje, para as pessoas se defenderem de pragas rogadas a eles. Que, no caso dos Picunche, eram os invasores que tinham tirado terras e hierarquias. A hierarquia Picunche é muito simples: o cacique ou pater famílias de um grupo consanguíneo extenso; e shamanes ou gestores das divindades heterogéneas que governavam pessoas, as suas condições, e as sua pertenças. Mais do que chefias o estrato, são estatutos sociais adquiridos pela capacidade ou poder de lidar na coordenação de actividades e habilidades. O cacique, coordena actividades reprodutivas; o shaman, habilidades existentes ou restauradas, caso houver incapacidade temporal, e orientadores de espíritos. Até o dia de hoje. Uma cosmogonia que permeia os ditados das crenças católicas, pregadas em homilias e catequeses pouco entendidas a causa da língua, da experiência histórica, e dos símbolos, como tão directa e simplesmente, é dito por Gomes da Silva (1989). Eu acrescentava, pela luta de memórias acumuladas cronologicamente, sincretisadas na aceitação do Outro no Eu. Como a Historia Colonial demonstra. As paróquias eram lugares para subordinar politicamente aos nativos, inquilinos depois; e de rituais europeus, na linguagem dos proprietários. Foi organizada uma incomunicação para Yndios e inquilinos. Assim, os proprietários espanhóis, acabam por ter as suas próprias capelas familiares nas casas das Haciendas. O que colocava mais um símbolo de afastamento com os seus trabalhadores. Com bulas papais, simples de adquirir nesses tempos, era possível obter os seus próprios Capelães e Doutrinários, que reproduziam aos seus próprios futuros Capelães e Curas Doutrinários, incansáveis missionários das varias Paróquias e vice paróquias, entre as quais, Pencahue até o século XIX. Como o caso do infatigável Jacinto Rojas, Cura Mestiço, ainda lembrado pelos vizinhos, filho de Padre Espanhol e de índia da Doutrina de Rauquen. Estrutura social, que tem a sua ordem, organizada processualmente pelas pertenças a países e estatutos adquiridos em eles. Porque o estatuto de cacique, ainda que inquilino mais tarde na Historia, é de uma filiação misturada, mas reconhecida a linhagem do estatuto, pelas pessoas do lugar. O estatuto não tem uma identidade roubada. Tem uma identidade fechada, silenciosa e longínqua, para manter o seu ego firme e construído, identificado consigo próprio, os seus e os seus símbolos. Ate que a realidade das armas, o cativeiro e a tecnologia, roubam o Eu, que se faz Outro para poder ser Eu. E, no entanto, a memória armazenada na cultura, na memória social e no inconsciente, no superego, criam um comportamento distante e diferente dos outros não mestiços. É assim que fica o cacique, quando inquilino. O Picunche, quando inquilino. Eis porque, o inquilinato só teve direito a se sindicalizar pelos anos 1960: era um sindicato perigoso, agressivo, e que podia tirar terras e dinheiro à oligarquia terra tenente. O estatuto de shaman, é diferente: sabe curar,e é procurado por todos. Aceite pelas pessoas naturais das Paróquias e usados pelas pessoas de além-mar, proprietárias de terras e tratadas pelas machis e ervanários, os shaman locais, em caso de doença Em sítios tão afastados, que nem médico havia nem há. E com tanta praga não rogada, que a abundância de doenças é atribuída as rogas feitas por inimigos. O papel do shaman, é adivinhar quem é quem quer mal a quem. Victoria tem esta estrutura no seu pensamento, da mesma forma que no seu pensamento vai-se organizando o estatuto da filha abandonada pelo pai. À europeia, não à Picunche. E, no entanto, a sua ancestralidade Picunche faz que ela não queira mal ao pai. É distância solidária com a mãe, que assim defende os seus direitos de unicidade monogâmica, aprendida na doutrina, e da escolha amorosa do homem, aprendida na memória social da poliginia, e da prática cultural da mesma, hoje em dia. Esse é pai rejeitado em casa pela mulher á qual o homem não queria já ter acesso. E passa a ser uma mulher com filhos só, uma mulher impossibilitada de ter um outro homem como a ética europeia e Picunche, dizem. Uma mulher que perde marido e a possibilidade de ter outra companhia para apoio. A ideia da virgindade não é obstáculo á união da juventude, mas a ideia de castidade post- matrimonial, é sagrada: a mulher é feita para criar os filhos. Donde, a mãe não tem homem, só crianças; e o pai não tem filhos, só mulheres ou homens, alhures e temporais. A solidão dos dois, a guerra pelos filhos, por uma ternura própria. Qualquer homem que aí aparecer, não teria comunicação com um grupo que aprendeu a comunicação afectiva e emotiva com os progenitores originais. Eis que os homens vão buscar depois, mulheres novas sem filhos, para companhia. Como a genealogia dos trezentos e pico de anos Picunche, inquilino, chileno, diz. Diz que o pai de Victoria faz a sua própria família paralela e mais nova. E diz da sua mestiçagem entre os séculos XVIII e XVII. Forma normal de prover pela força de trabalho para a reprodução social. As famílias espanholas encomenderas, bem como proprietárias depois, fecham-se no rito sacramental do matrimónio e na descendência claramente estabelecida, o sangue limpo. Sangue limpo coordenado a herança das terras recentemente adquiridas. Terras que nenhum mestiço ia herdar, mesmo que for filho com o nome do pai proprietário, o que raramente acontecia: a mulher nativa, ficava com os filhos pelos anos 1600 e 1700. Só quando fica mais estruturada a interacção de raças e grupos sociais, nos séculos XIX e XX e quando há outra vez possibilidade do inquilino ser proprietário, é que os filhos mestiços, denominados por lei naturais, são mais raros. A relação civil e ritual católica vão também sendo adquiridas pelo inquilino. As vezes, já proprietário de alguma terra ou herdada ou doada ou comprada. A sociedade do Estado Espanhol é reproduzida no Chile, excepto entre indígenas, com identidade exclusiva e excludente activa, como os Mapuche. Mapuche que têm uma lei própria para o seu governo. Da qual carecem os Picunche, pouco habituados a serem, hoje, outra etnia que chilena. Mas com hábitos Picunche. Porque Promaucaes ou Picunche, apesar de terem lutado contra a invasão nos séculos XVI e XVII, rapidamente são ganhos para a Coroa Hispânica, resolvido o Tratado de Tordesilhas que expulsa de Toconay, na Cordilheira perto de Pencahue, aos jesuítas que lutavam pela memória nativa. E ficam os que ficam, especialmente os torturadores Teatinos, cujas cadeias subterrâneas, com indígenas atados e mortos no tormento inquisitório, são guardados hoje como museus, que poucos desejam ver. A lembrança dos mortos da ditadura dos anos setenta a noventa, está muito perto, como longe estão Teatinos, Agostinianos, Dominicanos, Franciscanos, na memória batida dos chilenos. Entre os quais, Picunche. Herança de Victoria e a sua geração. Uma Victoria que não repara que para a mãe perder o marido por querer sair da poliginia herdada pelo costume e reproduzida entre os crioulos e a espanholada que lá tinha ficado a serem os proprietários  ricos que na Ibéria nunca seriam. E que ciúme, guardam para si. Essa Victoria não repara que a mãe fica só, apoiada apenas pelos germanos e filhos. Até morrer de exaustão. Apoiada por irmãos e irmãs, a reproduzirem os hábitos nativos. Que Reneria rejeitou. E fez rejeitar as suas filhas, por carinho. O caciquismo patriarcal morre com elas, quanta aceitação do facto. E não morre a patrilinearidade, porque a lei manda. Desde 1853. Antes, a mulher que ia embora, levava a filharada com ela e tirava o nome.
Não havia mais registos dos que os do ritual católico para baptizados. Desde 1879, muda, há Código Civil, há Registo Civil, há matrimónio civil. Há a chegada do liberalismo radical francês, com Francisco Bilbao e Santiago Arcos (1850). Victoria sabe que os ancestrais amavam quando ela não era. É possível vê-lo nas relações heterogéneas das pessoas, dentro, fora, ao lado, do matrimónio. O matrimónio tem servido só para assegurar heranças, e para assegurar trabalhos e, bem entendido, companhia, afectividade e reprodução para a produção. Não é fácil ser admitido como inquilino, se não há mais trabalho que só o  trabalho aportado por um homem só. Homem só que não tem quem o liberte da sua pessoal reprodução nem tem reprodução humana que assegure a sua continuidade. Eis que para um homem só, não há trabalho. Só podem ficar sós os ricos, não os pobres: os ricos, enquanto menos, melhor; os pobres, enquanto mais, melhor. Menos herdeiros, mais trabalham, em cada caso. Esses que têm que ter um grupo doméstico para ser força de trabalho. Esse que têm que ter herdeiros não viciados na riqueza. Não é que Victoria não entenda e adquira na sua epistemologia, é que etnocentricamente, não o tinha relatividade, o não o tinha adquirido. Como não tinha adquirido de forma consciente, de que todo homem para ela, deve ser um primo, essa consanguinidade Picunche do passado, conveniência proprietária de hoje. O matrimónio é importante, para obter trabalho e complementar a sua divisão. Como Durkheim nos habituara a dizer (1893). Os ancestrais, amarem ou não, estavam obrigados a viverem juntos, a aguentarem, a amarem, em fim. Como diz Esperanza de Pedro Martinez, a magnifica história de vida de Oscar Lewis (1964): E tive que casar com Pedro, porque era assim que a família era, os hábitos eram. Assim tínhamos terra juntos. Assim, as famílias ficavam ligadas para trabalharem as terras contíguas. E ele esperou uma semana, foi a minha maca noite trás noite, e eu sofri, deixei de sofrer, e um dia senti e amei. Até agora. Aos nossos setenta anos” Como falam os Maya do México, com Salvador de Madariaga (1946), falam os inquilinos, antigos Picunche, vozes registadas nos costumes de hoje e no arquivo. Os ancestrais de Victoria estavam obrigados a amar. Até pela honra da mulher. Que, ou faz a comida e serve, ou não é mulher digna. E pela dignidade do homem , que a sua mulher nem fala nem vê nua, assunto que não é de homem. Como, permita o leitor esta lembrança pessoal, da minha vida entre Picunche, Mapuche, Huilliche, Pehuenche, lembrança do dia que entre Mapuche, a minha mulher e eu, a saber que nas rucas não há duche, de manha cedo íamos nus a tomar banho no frio canal. E passam os homens e dissem! Don Raulito, nu com a sua mulher! E a minha categoria não desceu, porque o estatuto familiar permitia excentricidades. Excentricidades que depois os mais novos falaram comigo, porque queriam também fazer. E eu ensinei. O que Victoria não pode aprender, pelo pudor obrigatório costumeiro, de um Concilio de Trento introduzido no amar das Doutrinas. Que, de certeza, era a forma que o poder político mandava amar, a alma, não o corpo. Como é reflectido no brilhante filme El rei pasmado (1991). Como pasmados ficavam aborígenes impedidos de brincar que faziam nos mingacos , á beira rio, entre milhos, nas eiras. Um erotismo castrado ao público pelo pudor ético das doutrinas Castellano-Bascas a dominar a livre circulação da afectividade que as crónicas e as genealogias do meu sagrado arquivo descoberto em Pencahue, ensinaram a Victoria. E a mim. Como foi com os ancestrais de Pilar em Vilatuxe.

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