O presidente da APB e a falta de liquidez da Banca

António de Sousa, presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB) adverte que a banca nacional vive momentos de fragilidade, correndo o risco de reduzir a concessão de crédito. Em entrevista à Antena 1, afirmou:

A situação dos bancos é complicada, como nunca o foi anteriormente, nem mesmo no pico da crise.

A situação, argumenta, é causada pelo aumento de juros da dívida pública. A justificação é aceitável, dada a repercussão da dívida do Estado (dívida soberana) nos mercados e investidores internacionais.

Considero, porém, não se tratar de razão única. Atente-se que a dívida externa privada é igualmente elevada. Sobretudo, nasceu e expandiu-se através dos incentivos ao consumismo desenfreado, sob financiamento promovido intensamente pelos bancos portugueses – quem não se recorda dos insistentes ‘spots’ publicitários do BES, do Santander-Totta e de outras sociedades do sector financeiro, como, por exemplo, a Cofidis? Resultado: por escassez de fundos nacionais, as instituições de crédito tiveram de recorrer ao financiamento externo. Como, de resto, o fizeram para financiar avultados investimentos públicos, através da integração da banca em grandes consórcios, como, no caso do BES, denunciado pela escritora Rita Ferro – o texto foi publicado em edição do ‘Expresso’ de Junho passado.

Outrossim há a referir os elevados valores de crédito por cobrar a grandes sociedades de obras públicas e a empresários como Joe Berardo, Manuel Fino e outros. É voz corrente que, no total do crédito em aberto no BCP, a ponderação de empréstimos concedidos a construtoras é bastante superior a 60%. Seria útil o esclarecimento da APB a este respeito.

Pelos factos e argumentos aditados, o discurso de António de Sousa é forçosamente redutor. Culpar o sector público em abstracto, sem atender a diferentes protagonismos da dívida externa total, pública e privada, é poupar à crítica outros responsáveis. Inevitavelmente, a consequência deste raciocínio é admitir, sem discussão, que as sanções económicas e sociais devem impender, substantivamente, sempre sobre os mesmos: quem trabalha a troco de baixas remunerações e paga impostos, quem perde emprego e deixa de poder satisfazer o compromisso de reembolso e juros de empréstimos e, ainda, quem sofre os efeitos da redução de prestações sociais. Em suma, os cidadãos mais desprotegidos.   

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