Conversa com a ARTE

(adão cruz)

Talvez tenhas dado por mim mas não quiseste mostrar. Ajoelhei meus passos no teu caminho e tu não viste. Sempre tiveste duas pedras brancas nos olhos e cego é o meu coração.

De mármore era o meu  rosto naquela manhã, sempre foi de mármore o teu rosto em todas as manhãs! Parte-me o peito a amargura, sempre que toda tu és apenas figura, retórica figura!

Afogado na tristeza, nunca uma bóia me lançaste! Um fio de silêncio, de lágrimas lagrimas, vazio, telamolhado, foi o espaço vazio que criaste, a tela negra onde cravei os dedos e cuspi as cores sem brilho.

Desonrei o corpo das palavras e o seu  mais alto dizer, para esmolar um verso, um afago ou … morrer. Tu nada quiseste saber, em todas as  plúmbeas manhãs derretidas em chuva.

Nasço e morro contigo todos os dias, amparado em versos que não têm mãos e logo se quebram aos primeiros raios de sol. Todas as minhas rugas faciais estão assinadas por um roteiro de ansiedades num calendário de esperanças, todos os meus nervos estão marcados pelos dedos vulcânicos da paixão.

Tàpies disse que tu eras mais uma manifestação do logro que são todas as coisas, mas não se cansa de procurar o cosmos numa pincelada. Outros dizem que és parcela frásica no caminho do sentido, matérica partícula dando-se ares de insubstancial. Todos os vigorosos loucos e cobardes me falam a verdade… a mentir!

Disseste, um dia, que nada havia no dorso de um quadro ou no anverso de um verso. Disseste, ainda, que o homem não é chegada nem partida, mas a vida aquém e além de si mesmo, no espaço intemporal da liberdade e da imaginação.

Não olhes para os dias de ontem como se neles tivesse ficado presa uma espécie de estilo. Abraça este agora que parecendo fora do sonho nasceu dos sonhos de outrora, porque aos sonhos não foi dada permanência estilística.

A forma configura-se como memória concreta do processo formante e da personalidade formadora. O estilo é o modo de formar, pessoal, irrepetível, a marca subtil da pessoa na obra. Compreender a obra é possuir a pessoa do criador, a sua experiência, a sua vida, os seus sentimentos e ideias. Desta forma, o estilo não é, essencialmente, a envolvência perene e mecânica, mas a razão sensivelmente constante entre a força possessiva e a força possuída. O Homem não é a narração do estilo mas da personalidade concreta, feita modo de formar, na mais diversa e dialógica conversa com a vida.

Em todas as manhãs perdidas no leito da angústia, só a ilusão foi minha amiga! Para ela me arrastaram as nuvens e com elas me confundi, com elas me perdi.

O meu lugar é aqui, ainda que eu não saiba o lugar que ocupo. Faço que rio, faço que choro, faço que canto, faço que faço, ao som de um Quinteto para Clarinete.

A arte é a liberdade de fundir a aparência da realidade com a realidade das aparências.

“A arte eleva o Homem à sua verdadeira dimensão!” Que arte, que homem, que dimensão? Quase me negaste quando te amei, com os pés assentes num determinismo de areia. Hoje, que te amo profundamente na mais sólida racionalidade, prostituis-te com essa dimensão humana que ninguém sabe o que é.

Precisamos da arte, precisamos dela mais do que nunca, para viver o amor, “a mais bela das frustrações”!

Por vezes, a chuva pára de cair, subitamente. Também a chuva chove e a chuva seca a música que soa dentro de nós!

De espada em riste, o silêncio parte os teus olhos de pedra e canta. Canta uma qualquer “Chanson Romanesque” a uma qualquer Dulcineia perdida nos montes, algures, para lá do arco-íris.

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