Os meus sentimentos para Elizabeth Taylor e José Sócrates

Por casualidade, irrepetível na vida, conheci Elizabeth Taylor e Richard Burton a 4 de Agosto de 1969, dia em que tomei a liberdade de trocar a Universidade por um passeio com a minha mulher e a nossa única filha. Fomos visitar a Torre de Londres, prisão para os inimigos da coroa inglesa durante séculos, aproveitando para ver os pombos e os guardas reais. Actualmente, a Torre londrina funciona como museu, sendo o bilhete de entrada muito caro. Vários amigos acompanhavam-nos, todos de Londres. Nós vínhamos da Universidade de Edimburgo, onde trabalhava nas minhas pós graduações em Antropologia e Ciências da Educação.

Era impossível não vê-la, ria estrepitosamente, tomada pelo braço do seu marido, Richard Burton. Era de manhã, mas eles vinham de uma festa que tinha durado a noite inteira, vestidos com fraque ele, e ela com o seu famoso vestido de veludo azul, quase uma marca de fábrica. Parecia que era a sua farda, desde que interpretou em 1969, o famoso e muito atraente filme Blue Velvet ou Veludo Azul, em português. Nunca a vi repetir formas de actuar, todas eram diferentes, veja-se, por exemplo, Bruscamente no

Verão Passado, com Katharine Hepburn e Montgomery Clifft, papel que lhe valeu, conjuntamente com a sua amiga Katharine, a nomeação para o prémio Oscar da melhor interpretação feminina desse ano. Mas os prémios viriam com Quem tem medo de Virginia Wolf, em que contracena com Richard Burton e, atribuídos pela Academia de Artes e Cinema, como melhor Actriz, em Butterfield8 (1960) e Who’s Afraid of Virginia Woolf em 1966

A Rainha Isabel II, no ano de 2000, elevou-a a par do Reino da Grã-Bretanha, passando a ser Dame Elisabeth Taylor, no grau de Comandante do Império Britânico.

A nossa pretensa amiga nem gostava nem desgostava de prémios e mordomias reais. Passavam…, era assim… era natural para o ofício que tinha escolhido desde os 12 anos na Grã-Bretanha onde nasceu, filha de pais Norte Americanos, que regressaram ao país de origem por causa da 2ª Guerra Mundial.

Desde o dia em que a conhecemos, passou a ser uma amiga profunda, mas a quem raramente víamos, tal como a Vanessa Redgrave que se interessava muito pela vida nos países da América Latina, com quem lanchávamos na sua casa.

No entanto, não há ninguém como Elisabeth Taylor. Não é que Vanessa Redgrave fosse má actriz, eram diferentes, excepto num assunto: o cuidado pelos desvalidos e pela criação de fundações para os acolher. Elisabeth Taylor, que parecia eterna, era íntima amiga de Rock Hudson, que veio a falecer nos seus braços, como ela referia. Cumpriu a vontade do seu amigo, criando a Fundação Rock Hudson para os doentes do Sida ou HIV. Os milhares de bens doados à Fundação permitiram e permitem salvar imensas vidas de adultos e crianças, nascidas já com a infecção. Não continuou a filmar, a Fundação Hudson ocupava-lhe todo o tempo. Os seus trabalhos no palco, no cinema e a sua obra de acolhimento, coadjuvaram ao aparecimento de problemas de coração e do cérebro. Foi a primeira doença que a levou à eternidade. Eu diria a duas eternidades: a divina na qual ela acreditava, e a do mundo, que hoje, como eu, chora por ela não estar mais entre nós.

Mais nada digo sobre ela, apenas que o seu melhor filme para mim, é: Suddenly, Last Summer (1959), nomeada para o Óscar de Melhor Actriz, junto a Katharine Hepburn, como referira antes.

No meu pessoal ver, ela era o veludo azul, sempre procurou os papéis mais difíceis de interpretar: ou era enferma da cabeça, ou era alcoólica. Mas, no dia em que a conheci entendi os porquês das várias situações. O homem da sua vida, com quem também interpretou a peça de Shakespeare: Tke taming of the shrew, de 1967, traduzida como A mulher indomável, uma das suas melhores interpretações, que nos deixa calados e mudos, assim como a de 1958: Cat on a hot tin roof ou Gata em telhado de zinco quente, com Paul Newman. Os meus dois actores predilectos. Tive pena de Paul Newman nos ter abandonado. A par e passo, são os mesmos sentimentos pela nossa Elisabeth Taylor. Se houver uma divindade, que os acolha….

Não como a divindade de José Sócrates, que ontem se demitiu, faltando a confirmação da aceitação do pedido por parte do Presidente da República, teremos de ler os jornais para acompanhar esta «peça melodramática» em que todas as interpretações se pautam pela mediocridade.

Todos os meus sentimentos estão com Liz Taylor…. Doe-me a sua morte…

Raúl Iturra

Comments

  1. Moreira da Silva says:

    A Taylor entrou no Blue Velvet?

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