Não temos os políticos que merecemos. Temos os políticos que somos”

Sobre a demissão do Governo, a crise política, o sentimento de descrença dos portugueses em relação à economia, à política, à sociedade, à meteorologia, escrevo um destes dias. Quando me sentir capaz desse feito, equivalente praticamente a um dos doze trabalhos de Hércules. Aliás, não vejo ninguém aflito para escutar a minha opinião. Por isso, não há pressas.

Deixo apenas a frase mais certeira dos últimos tempos. Chegou-me, de mansinho, pelo Twitter de Ricardo M Santos (http://twitter.com/RicardoMSantos).

Diz ele…

Não temos os políticos que merecemos. Temos os políticos que somos.

Pimba. Nem mais, pensei. Se pensei, melhor o fiz: embrulhei a frase em papel de mata-borrão, porque não há dinheiro para melhor, fiz um laço de corda rafeira, e trouxe-vos esta frase para pensarem um bocadinho.

Comments

  1. Artur says:

    Esse “somos” refere-se a quem?


  2. Nem de propósito, Maria João Nogueira escreveu na véspera (!):

    Se o George Carlin fosse português (Jonasnuts, 23.03.2011)
    http://jonasnuts.com/395522.html

    Acaba “à Carlin”, mas pelo meio diz muitas verdades 😉

  3. Rodrigo Costa says:

    … A minha frase seria, ” Não tendes os políticos que mereceis; tendes os políticos que sois…”

    Isto porque, pela parte que me toca, nunca estive em nenhum lugar de decisão, nem fui ouvido para coisa nenhuma. Logo, isto é o resultado da acção dos que, por poderem, fizerem o que lhes apeteceu.

    Quem?!… Aqueles a quem serve a carapuça. Eu —e outros, necessariamente— não faço parte da estatística; nunca lá esteve ninguém por minha sugestão ou pedido; nem nunca, como, atrás, deixo dito, me perguntaram o que quer que fosse…

    Mas, e o voto?!… Não voto nem nunca votei. Só voto quando posso usar da palavra; quando posso ser ouvido; quando respondem às minhas questões. Assim sendo… os políticos são eles e são o que eles são: E era bom e prudente que, quando alguém se sente culpado, não procurasse as costas de ninguém, e aguentasse com o fardo da consciência, por não ter feito o que, por poder, devia.

    Nota: esta faz-me lambrar a história do frango. De dois indivíduos, um come o frango inteiro; a estatística diz que comeu metade cada um.


    • Rodrigo, os políticos não caem do céu. São pessoas, embora reconheça que às vezes não parece. Fazer política não é só decidir. A isso chama-se governar, seja o país ou a autarquia. Eu sou ouvido, pelo menos trimestralmente, nas assembleias de freguesia e, quando posso, nas municipais. E isso é fazer política. É participar activamente. É fazer política confrontando quem nos governa. Porque há gente que tem a responsabilidade de fazer, mesmo que não gostemos disso.

      Eu voto, sempre votei desde que me é permitido por lei, mas não pode nem deve esgotar-se aí a participação política – ou cívica, como agora se diz.


  4. Caro Rodrigo,
    Nunca foi ouvido, não vota. Entendo. Mas isso não o retira do “somos”. Queira ou não, está envolvido. Não vota? Vote. Nem que seja em branco ou nulo. Ninguém o ouve? Faça-se ouvir. Intervenha. Há cada vez mais formas de o fazer. Através da Internet, num partido político (até pode criar o seu), num movimento cívico (veja o protesto da Geração à Rasca). Pegue num megafone e vá para a rua.
    O sistema político que temos não é perfeito? Não, não é, longe disso. Mas ainda ninguém me mostrou melhor.

    • Artur says:

      Partilho da opinião do Rodrigo Costa. Também não me incluo no “somos”. De facto sinto que pouco partilho com o “somos – cidadãos Portugal”.
      Pessoas como o Rodrigo Costa (pelo que tenho lido das suas opiniões) são uma minoria (não só em Portugal). O fosso que existe entre pessoas como ele e a maioria das pessoas é tão grande que só com um esforço descomunal é que se faria ouvir. Esse esforço acabaria por lhe retirar muito daquilo que é precioso para um pessoa que preza a sua felicidade: a tranquilidade.

      Podemos olhar para o passado e aprender algumas lições com outros que pretenderam transformar mentalidades e que falharam redondamente. A Geração de 70 que se transformou nos Vencidos da Vida.

      Conheço algumas pessoas bem intencionadas que sofreram bem na pele o quererem remar contra a maré. Os tempos que correm pertencem ao vulgo. Eleitores mediocres escolhendo politicos mediocres.
      Os factores que contribuem para porem estes ou aqueles nos poleiros, prendem-se mais com aspectos emocionais do que pela racionalidade. Os politicos sabem disso e também sabem que a unica forma de terem alguma hipotese é darem ao povo aquilo que ele quer ver: promessas, jantaradas, uns sorrisos, uns beijinhos, bébés ao colo, palavriado e gesticulação apelativa, etc
      A luta pelo poder vence-se pela emoção e não pela razão. A imagem é tudo. Ferreira Leite perdeu pela imagem.
      O Rodrigo Costa ou qualquer outra pessoa que viesse apelar ao senso, ao auto-desenvolvimento pessoal, à desvalorização da obecessáo pela aquisição de bens materiais, ao elitismo intelectual, ao reforço da ética, à meritocracia, à busca da sabedoria, à cultura, à arte, etc, não teria qualquer hipotese de vingar nesta vulgocracia.

      • Rodrigo Costa says:

        Caro Artur,

        Obrigado pela referência que faz à minha participação nos comentários, e, fundamentalmente, à compreensão das mensagens de fundo.

        Podendo parecer troca de galhardetes, a verdade é que o seu texto —à parte as palavras com que me referencia— reflecte as preocupações de quem procura reflectir com isenção, mesmo sabendo-se ser uma posição ingrata, porque a frontalidade e a busca de isenção esbarram, inevitavelmente com interesses difíceis de desmontar.

        Então, se, hoje, eu tivesse a possibilidade de me dirigir aos jovens, dir-lhes-ia que a realização, a estabilidade emocional, está no trabalho, na ocupação de tarefas que nos realizam, ainda que possam não ser as mais rentáveis; aconselhado, no entanto, pela minha experiência, de que o mais rentável é o trabalho que nos permite viver em paz, com a sensação de sermos e de nos sermos úteis.

        Dir-lhes-ia que evitassem o envolvimento político, se a sua vocação não fosse prestar serviço; não fosse, lá no fundo, contribuir para a melhoria das condições do grupo…

        Depois, a gente olha para o aspecto, por exemplo, do Oliveira do BPN, e fica com a certeza de que pertence ao número dos que Deus —quem quer ou o que quer que seja— castigou com dinheiro.

        Há, em toda a turbulência que nos rodeia, o reflexo da deslocalização afectiva; o clamor de almas desajustadas, porque optaram pelo dinheiro e pelos bens, acima de tudo. A factura, como se pode ver, é pesada. Então, o que está em causa não é a crise económica; mas a crise de princípios… com reflexos económicos. É isto o que sempre defendi.


  5. Obg pela referência.
    No fundo, o que eu queria dizer já tinha dito aqui
    http://umtaldeblog.blogspot.com/2011/01/noticias-de-matosinhos-3.html

    Abraço.

  6. Rodrigo Costa says:

    Caros RMS e José Freitas,

    … Decididamente, não entro em molhadas. Não me peçam para me juntar ao rebanho —desculpem-me a expressão—, porque a filosofia dos rebanho dá nisto: reunir, discutir, deixar tudo na mesma e sem saír do sítio, porque estão todos à procura de privilégios —que é feito da manifestação do pessoal à rasca?…

    Estão onde onde é normal que estejam, passada a excitação e o orgasmo, porque não obedeceram ao pensamento organizado; houve, sim, uma quantidade de gente perdida, que vai sempre para onde lhe parece que há romaria; e houve, necessariamente, uma cambada que, para além do tédio e da falta de emprego garantido, não tinha mais contra que lutar. No fundo, tudo regressou à normalidade; aos copos e aos automóveis estacionados em cima dos passeios, nas noites de fim de semana, no Bairro Alto ou aqui ao lado, junto à Torre dos Clérigos —há ou haverá, entre eles, muita gente que vota, por ser um dever cívico. Por ser uma treta, digo eu.

    Por favor, não me acenem com o voto, porque, antes dos valores, crescentes, da abstenção, já eu não votava; porque só agora as pessoas estão a percerber o que eu percebi, desde o princípio: ser tempo perdido, porque o País é a quinta de meia dúzia, com alguns empregados, de quando em vez, a tentarem chegar ao poder para, invariavelmente, se tornarem patrões e executarem as mesmas “políticas”: arrecadar e passar à reforma.

    Em baixo, deixo o exemplo da minha participação. Quando me sinto incomodado, reajo, mesmo sabendo que não sou tido em conta, porque as pessoas só têm importância, para o poder, quando se apresentam em grupo. Recuso. Não contem comigo como “carne para canhão”.

    Se hoje é possível o pagamento de multas por multibanco, deve-se, o facto, também à minha acção. Se os soldados puderam passar a traja à civil, fora das horas de serviço, deve-se à minha acção; quando, ao tempo, como soldado, me bati com os comandos do quartel em que prestava serviço, em Elvas, e com o Estado Maior do Exército…

    Não gosto de associativismo, por saber que há sempre uns “pés-ligeiros” que são cobardes e que ficam à espera da oportunidade. Não uso manifestações. Quando quero manifestar-me, vou directo ao assunto, procuro as pessoas e, se for o caso, enfrento-as, não me escondo nem fico à espera de ser vítima do “dividir para reinar”.

    Caro RMS, quais são os resultados práticos da Asembleia da sua freguesia ou do seu Municícipio?… Tem a certeza, absoluta, de que o ouvem?… Se for um cidadão comum, garanto-lhe que, quase invariavelmente, parecerá que o ouvem. Ouvi-lo-ão, se, por coincidência, for próximo dos poderes, neste caso, locais. Se não for, não se iluda; porque a “interacção”, digamos assim, foi a última descoberta dos que, querendo permanecer poder, sabem quanto é importante deixar que as pessoas se expressem: desabafam, a pressão baixa… e tudo permanece como dantes. A Democracia é uma coisa estupenda, acalma os ingénuos que ainda acreditam no Pai-Natal.

    Caro José Freitas, eu uso, para consumo próprio, a política que melhor me serve.
    1- Procuro ter a noção das minhas possibilidades; procuro evitar exageros, porque não alimento a ideia de uma casa grande, sabendo que, com sorte, acabarei num quarto pequeno.
    2- Não procuro constituir fortuna, por saber não ser fácil, sem fazer vítimas. Espero, procuro, ter a felicidade de poder sustentar o meu dia-a-dia; trabalhando naquilo de que gosto e me realiza, e sem que, até hoje, contabilize qualquer contributo do Estado; quando, verdade irrefutável, estou farto de ver em protesto gente que, algumas vezes, até deveria era pagar ao Estado.
    2- Ser parco na procura de informação veiculada pela Comunicação Social: para mim, uma das razões principais dos problemas contemporâneos… Por quê?!… Porque levanta a lebre, mas, raramente, a persegue. Denuncia a corrupção e a promiscuidade, e convive, diariamente, com todos os que denuncia. No entanto, ao longo das campanhas eleitorais, aconselha ao “voto” e à necessidade urgente de mudança, e, ao mesmo tempo, eternizando os mesmos…
    3- Se, como agora, escrevo num ou noutro blog, não é pelo facto de pensar que vou mudar as coisas; mas, antes, porque necessito do exercício de pensar e de escrever. Preciso de manter o meu cérebro activo. É essa a principal razão. Se for útil, óptimo, ficarei satisfeito. Se não for ou não puder ser… já fui, porque o meu plano era esse, ser útil a mim mesmo e contribuir para a reflexão.

    Como referi, antes, segue um dos exemplos da minha participação. Fui a Lisboa, propositadamente, para fazer a entrega da carta. Como compreenderão, não passei dos portões; mas sei, também, qua alguém a leu, porque recebi, posteriormente, a confirmação, em agradecimento formal, proveniente do mesmo Plácio onde tinha deixado a carta.

    Nessa altura, já tinha para mim, a ideia de que, intelectualmente, Cavaco Silva não era grande coisa; parecia-me, dentro do possível e do contexto, alguém sério. Hoje, tenho dúvidas; embora me pareça manipulado pela mulhar… O que, de facto, pouco altera, na medida em que tem suficiente idade para ser autónomo. Se não é, lamento.

    Exmº Senhor
    Professor Cavaco Silva
    Respeitável Presidente da República de Portugal,

    Permita-me, V. Excelência, antes de mais, cumprimentar o homem, porque, sem menosprezo pela Figura que representa, entendo dever estar esta, impreterivelmente, subordinada à pessoa, na sequência do respeito que a pessoa mereça, não sendo exequível ser-se rei impoluto, sendo-se, enquanto ser humano, uma alma crivada de impurezas.

    E é, exactamente, na razão da confiança que, enquanto pessoa, me inspira, que me dirijo a V. Excelência, por sentir valer a minha iniciativa, pela intenção e pela objectividade, mais que do que poderia valer o meu voto anónimo e inócuo.

    Decidi reflectir sobre a preocupação expressada por V. Excelência, no que refere ao nível de abstencionismo. Agora, nas eleições para o Parlamento Europeu, podendo adivinhar-se-lhe o temor por reflexos em futuros actos eleitorais internos; receios ecoados na mensagem-estímulo para adesão, de todos os portugueses, à reformulação de um país aflitivamente confuso.

    Devo, de seguida, esclarecer que integro o número, crescente, dos que se abstêm. Do mesmo modo que assumo ter dito a um dos ex-ministros dos governos presididos por V. Excelência, que, se eu fosse próximo ou familiar do Senhor Professor Cavaco Silva, teria tentado dissuadi-lo da candidatura à Presidência da República, baseado no facto de Portugal –o mundo, a Humanidade?– se ter transformado no sorvedouro de gente séria, de pessoas que conseguem pensar em mais do que negócio.

    O grande estímulo à participação provém da consciência de que se participa; da convicção esclarecida de que nos são aproveitados os actos e as palavras; de que as nossas intenções são escutadas por gente que, devotada e isenta, desempenha funções governativas… Porém, o voto não vai além de mera vontade anódina, o acto-ritual na celebração de um regime a que alguém, por lapso ou por desconhecimento, deu o nome de democracia, porque a democracia, de facto, não existe, porque o que existe é o modelo estafado de ditadura amolecida, criando o espaço para o abstencionismo que, ao contrário de acéfalo, pode ser reflectido.
    Portugal não tem identidade, não tem rumo. Mesmo porque, para depois de Abril, não havia projecto. Havia a intenção de derrubar o muro, mas não havia um plano para, com inteligência e honestidade, refazer as estruturas e refundar o espaço; porque o que esteve em causa não foi o resgate de um povo, mas a incomodidade de uns quantos que se viram a braços com o inesperado.

    O país ficou, como um cadáver, exposto aos abutres, e pudemos descobrir, nos trinta e cinco anos que se seguiram, que Portugal era esconderijo de oportunistas, de democratas que aguardavam a sua vez; que tinham em Salazar o pretexto e a desculpa para camuflarem a sua vontade de privilégios. E temos, hoje, desde governantes a deputados e a delegados sindicais, pessoas que se têm batido e se batem, pelos humildes, com a mesma humildade com que se batem pelo seu futuro e pelas suas contas –com menos vergonha, só os futebolistas que, provindos, maioritariamente, de meios desfavorecidos, auferem ordenados fabulosos e, anualmente, organizam um jogo contra a pobreza… com a receita paga pelos espectadores.

    Redijo numa altura difícil, porque, sendo homem de fé, não tenho aquilo a que chamaria o Deus instituído, e porque acho ser evidente a falência da Humanidade. Porque é dramático, quando, defendendo princípios, se percebe que pouco mais somos do que instinto, e que a educação dos que se educam os deixa à mercê de vilões saídos, também, de prestigiadas universidades.

    Como bem saberá V. excelência, a inteligência deixou de ter, como objectivo, a realização interior e suprema e o altruísmo. Todas as energias estão voltadas para o consumo, a acumulação, o crescimento económico; o que, por caricato, vai exaurindo o Humano de todos os haveres,

    Os povos têm sido governados –nuns países, mais que noutros— por gente que se ergue na esperteza e na ausência de escrúpulos; tolerada por uma Justiça pouco ou nada explícita, porque compartimento de um casarão em que todos os poderdes, em regime de promiscuidade, habitam. E Portugal é isto, um antro onde não há isenção nem vergonha.

    Sendo este o cenário, por que haveria de perder o meu tempo e votar, se tenho a consciência de legitimar as movimentações do espúrio e da mediocridade; de pessoas que não conseguem sobreviver no pensamento próprio, à margem do clã; como se o pensamento eficaz esteja inteiramente contido numa família ou num partido; como se a inteligência tivesse modelos socialmente hierarquizados, e não pudéssemos perceber que muitos dos reis reinaram, realmente, como bobos, e que a eles estiveram sujeitas inteligências que habitavam a plebe?

    Como poderia eu gastar o meu tempo na audição ou na leitura dos programas partidários, se são elaborados na contemplação de uma realidade fictícia, os quais a realidade real, rapidamente, desmistifica?
    Seria mais fácil o logro, se os excessos da Informação não nos permitissem ver-lhes a cara e ouvir-lhes a fala; se não pudéssemos observar-lhes as incoerências, as mentiras e a ausência de sã filosofia.

    Diria que Salazar os poupou, lhes permitiu a existência escondida; porque, por razões que ainda se afirmam, impediu à Informação o negócio.

    Tenho falado na primeira pessoa, porque cresci na ideia de que a minha vontade ou o meu pensamento não têm que, necessariamente, comprometer mais alguém, muito embora aceite que outras pessoas pudessem associar-se à minha expressão, o que, parecendo egoísmo, é, tão-só, o cuidado de, mesmo em abstracto, não comprometer terceiros, e deixar claro que posso, sempre, responder como vivo, sozinho.

    Poderá, V. Excelência, perguntar, então, como é que, não votando, se participa. E responder-lhe-ei que a participação é com a entrega ao trabalho e com o apoio aos que trabalham. E há participações que são vedadas, porque se é avesso a panfletos e a doutrinas, religiosas ou partidárias, porque há razões com que a Razão não se compadece, quando falamos de habilitação por competência, e porque nem todos estão disponíveis para o papel de soldados de chumbo. O voto seria, apenas, a expressão depositada num aparelho em que, independentemente da satisfação das nossas vontades, fosse possível acreditar. Mas não, e, por aceitada razão, o contentor é mesmo uma urna. Alguém, premonitoriamente, lhe apreendeu o destino e lhe deu o nome.

    Portugal está dividido em grupos e, dentro desses grupos, há os líderes e os séquitos. A lealdade não é para com os princípios, mas para com os interesses que os líderes representam. E as lideranças são perseguidas e discutidas tendo em conta o interesse e a evidência pessoal; o poder, a vaidade, porque nenhuma discussão procura o consenso, mas a paternidade de um falso consenso, porque não há senão querelas partidárias, na procura dos votos; a perseguição ao poder, frequentemente movida por indivíduos perversos e impreparados e com habilitação autorizada para legislar e decidir sobre linhas que estabelecem os modos de colectivo.

    Os séquitos, por sua vez, são formados, preferencialmente, por quem não pense, porque o simples acto de pensar acaba interpretado como movimento de oposição; e as mãos devem servir, apenas, para o registo absoluto e audível de anuência, para que o líder seja poupado a qualquer desconforto ou adversidade, e sem que se aperceba ser este o princípio da ruína, porque a débâcle vem sempre no seguimento da paz podre, e porque ninguém tem sempre nem toda a razão.

    As notícias enchem-se de valores absurdos pagos por futebolistas. Milhões e milhões de euros, num momento em que muitos dos que, a nível mundial, gastaram ou contribuíram para os gastos excessivos, reclamam, agora, a necessidade de contenção, lembrando os herdeiros de gente corrupta, que prosperou por meios corruptivos, e que se decidiram pelo combate à corrupção, sem que, antes, se tenham despojado da usurpação herdada.

    Milhões de euros, em jogadores transaccionados entre clubes apresentados como ricos, havendo quem defenda que o movimento traduz a saúde económica do sector, mas sem se compreender, então, a razão dos passivos monstruosos e intermináveis…

    Quais os limites para intervenção dos estados? Ou estão limitados à subordinação ao futebol, como estado disponível, apenas, para que lhe suportem os prejuízos?

    Que voto, Excelência, pode obstar a estes desvarios?… Quais os planos de recuperação económica que contemplam ou podem contemplar estas anormalidades? Pode este tipo de disparates acontecer, sem a cumplicidade dos poderes políticos?… Como é possível convencermo-nos da separação dos poderes, se a moderação é estabelecida pelo poder económico, esse espaço de deturpado sonho e de falso laser, onde, mais ou menos subterfugiadamente, todos os poderes se encontram e se submetem, quantas vezes perante ignorantes e perversos que, montados na esperteza, fizeram fortuna?

    Por cá, o país está falido e à mercê. Resta-lhe a reevocação da naus e dos almirantes, porque Portugal esgotou-se e esgota-se nos descobrimentos, como parteira, arruinada e saudosa, que teima em afirmar ter dado mundos ao Mundo, sem nunca se ter descoberto; reproduzindo, incessante, obstáculos e burocracias que tolham quem não é da família, dos círculos; em cortejo que tem tudo de fúnebre, ainda que com paramentos feéricos. Sob o pálio, sorrisos que, parecendo dourados, são, de facto, amarelos, porque, gozando de privilégios, mesmo os que vão na sombra suspeitam ir a caminho do precipício.

    Num momento em que a Humanidade necessita, urgentemente, de se questionar, Portugal carece, com mais urgência, ainda, de interrogar-se e reformular-se, porque não pode permanecer na irresponsabilidade de uma adolescência doentia que o projecta como entidade bipolar, sendo a bipolaridade isso, o resultado do demorado crescimento e consequente ordenação das prioridades.

    Portugal, como qualquer ser que pretenda estar vivo e em equilíbrio, tem que assumir o destino inteiro e responsável, não podendo perpetuar-se mera câmara de repercussão de todas as directrizes europeias ou americanas, como criatura tolhida de comodismo e de preguiça, que compra tudo feito e passa a vida no psiquiatra; porque, não havendo outro modo de vida que não seja em regime de complementaridade, há facturas, quando, fundindo-nos, identitariamente nos descomprometemos.

    Ser português é traumático –uns, mais traumatizados que outros, naturalmente e de acordo com o estatuto e inerente tipo de privilégios–, porque não é fácil combater o segregacionismo estulto que fragiliza, que facilita a ascensão dos medíocres e dos perversos; que, por escrutínios adúlteros, propicia o aparecimento e o desenvolvimento de poderosos poderosamente fracos e complexados.

    É despropositado –ou parece– dissertar sobre princípios e identidade, pessoal e nacional, quando tudo se despersonaliza e se funde na mole contranatura, com o mero propósito de negócio; quando a globalização tem sido, desde o princípio do Universo, o regime de complementaridade que garante a dinâmica, do todo, salvaguardada na contemplação das especificidades.

    E, para se desarmar, para desistir de si mesmo, Portugal ou alguém, em representação abusiva, sempre abusiva, passou a comportar-se como o adolescente a quem bastaria a mesada, porque, aos adolescentes que o têm representado, mais não tem interessado do que a prevenção do próprio futuro; porque a Europa tem sido a reedição das descobertas, agora sem naus nem mares encapelados; sem convés nem nevoeiros, há porões confortáveis, nos quais os almirantes têm podido redesenhar a distribuição e os mapas. Uma diferença, apenas, os almirantes continuam a ser estrangeiros, há um ou outro marinheiro, subalterno, que aceita fingir que tem poder, e que é português.

    Mas faz sentido, sim, falar de princípios, porque são eles as traves imutáveis. Só as pessoas e as interpretações são alteráveis, porque a Vida assenta na repetição, na perpetuação dos fundamentos, propondo-nos a sua compreensão e levando a que gente, tida por poderosa, tenha provado, já, a efemeridade do poder, da posse; porque, a partir de algum dia, chega o tempo das perdas, do desaparecimento de seres e de coisas que eram ou eram tidas por importantes; até que, nós próprios, na infalibilidade do Tempo, cederemos a vez.

    É esta a razão ou a principal razão de todas as crises e de mais esta: a ignorância ou o esquecimento de que se é efémero. Porque todas as crises –também as económicas– são crises de princípios; são a consequência da vontade tacanha, ignara, que alguns têm de possuir o Mundo, e que vão, de movimento em movimento, destruindo os lugares e as pessoas, porque não há imunes, de cada vez que um estúpido é vítima da ambição –perdeu-se Deus, porque Deus, na orientada promessa dos vários credos, nunca terá existido?…

    Havia ou foi criada a esperança numa entidade suprema, para além do terreno, que poderia, a qualquer momento, reformular tudo; substituir e ou reinventar as peças e modificar os cenários. Mas essa esperança esvai-se, à medida que os credos se digladiam pelo monopólio de verdades que ninguém prova, e se percebe que Deus ou a alusão é um pretexto e um esconderijo, por ser mais difícil respeitar o visível; por fazer mais sentido temer-se o desconhecido. Talvez porque apenas as noites mais escuras possam alimentar o sonho de paisagens perfeitas, porque nada há visível que não seja imperfeito.

    Esvaziada a ilusão, resta o quê, Excelência? O voto, ainda?…
    Eu venho de falar de coisas seriamente incontornáveis –ou de lhes aludir, ao menos–, e vamos consentir a demora numa ferramenta tão frágil, tão ilusória, na medida em que não pode mais do que legitimar um regime que, como qualquer outro, é um regime de falsos prometimentos, de jogos interpretados por adolescentes que se dispersam e se locupletam na multiplicidade de aparelhos?…

    A Humanidade é só uma, independentemente dos lugares em que exista e dos regimes por que opte, porque as indumentárias, influenciando-lhe o aspecto, não modificam o corpo, e é o cérebro que impõe as necessidades e se alimenta da mimese.

    Poderá perguntar-se por que razão evoco a Humanidade, se o mote da minha vinda é o voto ou a preocupação, de V. Excelência, com o abstencionismo em Portugal.

    Sabe-se que a onda de abstenção se fez sentir em toda a Europa, porque, afinal, o descrédito nem é uma característica etimologicamente portuguesa, e a Comunidade Europeia, como qualquer outro governo, não colhem, somente, momentos pacíficos, porque nos chegam, ininterruptamente, veiculados pela Informação, ela própria alimentando-se de desgraças, de complexados e vaidosos, notícias dos que, conseguindo tornar-se evidentes, não podem esconder as mordomias e os reflexos, levando ao desencanto muitos dos que têm tido vidas de contenção e de trabalho, e que acreditaram na possibilidade de alguém, por devoção e dever assumido, pensar na melhoria das suas vidas.

    E, em Portugal, como facilmente se comprova, as reformas de fundo –as da mentalidade, do pensamento– são, há trinta e cinco anos, proteladas pela mentira, pelo descaramento de pessoas que, como deputados e ou governantes preocupados com os baixos índices de formação académica e ou profissional, têm deixado provas, mais do que visíveis, do seu analfabetismo, porque nenhum diploma garante a erradicação da ignorância e da má-fé; porque há políticos e gestores que nunca cresceram, que navegam, a bordo da adolescência irresponsável, na procura do conforto, mais do que na procura da dignidade.

    Percebe-se, também agora, que, depois da esperança baseada em Deus e na Democracia como regime que mudaria o Homem, que o distanciaria da selva e poderia pôr fim ao jogo social de presa e predador, percebe-se, repito, que a evolução tecnológica é outra esperança nada-morta, porque a Humanidade não é outra, senão a que, na era da informática, se repete instintiva, apesar da alteração da imagem e das performances on screen.

    Com que fundamento eu posso participar, através do voto, se o voto surge como mera figura de estilo, um direito cívico enganoso, porque provindo de um contexto onde reina a mentira?

    Como, sabendo que assim é, se consegue encontrar o estímulo para nos aproximarmos de quem não nos ouve, ou ouve ou faz que ouve parte da conversa, o que lhe interessa, no período dedicado às campanhas para eleições?…

    Se em todo o Mundo é assim, excluída África, em Portugal é pior, porque aos políticos junta-se uma caterva de plebeus, de gente que foge das raízes e as tenta esquecer e que pretende mais do que matar a fome, porque a esquerda não existe. Há os que, inocentemente, julgam pertencer-lhe, e os que, de modo perverso, se esforçam para que pareçam.

    É este, Excelência, o cenário de que desfruto, compreendendo e aceitando que outros tenham melhor perspectiva, porque há, sempre, o verso e o anverso em todos os tecidos e em todas as medalhas, restando que defendamos as teses em que, honestamente, possamos acreditar, porque o pecado não tinge a interpretação, mas a intenção.

    Termino, com o pedido de desculpas, a V. Excelência, pela minha vinda, mas senti extremados os limites do silêncio, e achei ser a hora de intervir, até para que possa entender-se a abstenção em resultado, também, do que se reflecte, tentando propor a reflexão sobre se o voto e ou o voto-em-branco, consoante o contexto, não poderão reflectir a falta de amor-próprio, o vazio de pensamento?…

    A V. Excelência, deixa o cumprimento respeitoso e a estima,

    Rodrigo Costa

Trackbacks


  1. […] “Não temos os políticos que merecemos. Temos os políticos que somos” escreveu aqui o José Freitas. Pois […]

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.