Crise no churrasco

Cena 1. Quatro conhecidos passeim-se à beira Tejo, gozando os raios de um Sol que há muito tardava. Um deles generosamente convida os demais para uma patuscada num rodízio, mas  um dos sortudos (1) declara ter imperiosamente de ir a casa antes do jantar.

Cena 2. Enquanto os outros esperavam no carro, o tal foi a casa e uns dois ou três minutos depois, regressou com uma mochila. Ninguém percebeu o porquê do saco, mas não se colocou qualquer questão.

Cena 3. Chegados ao restaurante, o mochileiro enchou o prato “até ao tecto” com todo o tipo de carnes, fossem elas de vaca, porco ou frango. E ia repetindo, repetindo até à exaustão. Perplexos, os amigos viam-no a discretamente abrir “paruéres” (2) onde despejava nacos de presunto grelhado, maminha, salsichas, pedaços de lombo, coxas, picanha. Só, só carne e ao monte. Encavacados e fazendo cerimónia – este é um conviva muito recente – os outros apenas colocaram uma questão envergonhada, sem que o tal se mostrasse minimamente comprometido. Após o repasto, o convidante pagou a conta e cada um voltou para a sua casa.

Cena 4. Na terça-feira seguinte, o tal decidiu telefonar aos demais, convidando todos para uma jantarada lá em casa.  Não é preciso ser um Einstein para perceberem qual foi o prato forte na 4ª feira à noite: um sortido de carnes, acompanhadas por batatas fritas de pacote.

(1) O tal possui mais de vinte apartamentos em Lisboa, arrota postas de pescada,  é um inveterado entusiasta do Sr. Louçã – que não tem culpa – , goza comigo por causa da Monarquia, participou activamente nas comemorações oficiais do Centenário e para cúmulo, dá-se muito a “causas”.  Viva a burguesia alfacinha, assim é que é!

(2) O nome que a avó de um amigo meu dá ao Tupperware.

Comments

  1. Pedro M says:

    Se contou a história tem que dizer quem é, senão mais valia ter mandado este texto por email à tal pessoa.

  2. Nuno Castelo-Branco says:

    Pedro, não se rale, porque o “pagante” já lhe fez ver umas coisas.

  3. Pedro M says:

    A mensagem é que existe um crava que vota no Louçã? Se não for percebi mal…

  4. Jorge says:

    exceptuando a questão dos “mais de vinte apartamentos em Lisboa”, em que a existência de (muitos) meios mais evidencia a forretice que é contada no post, não vejo qualquer relação da nota (1) com o texto principal. Ou, então, também podia dizer se “o tal” gosta de jogar à sueca ou à bisca lambida, do CSI Miami, do Vitória de Setúbal, da Antena 3,…sei lá.

  5. Fernando says:

    Este post devia ter como título a célebre expressão popular “Contar o milagre sem alumiar o santo.”
    Não é justo!

  6. Nuno Castelo-Branco says:

    Jorge, tem razão, o (1) já está no devido lugar. Distracções…
    Fernando, a personalidade é secundária, mas tem a sua graça.

    • Jorge says:

      Fiz-me entender mal: relacionar a forretice com os gostos políticos, de regime, futebolísticos, literários, etc., é absolutamente despropositado. Como agora, pelos vistos, se diz, “não tem nada a ver”.

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