Os pais não contam comigo

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Conferência Proferida no Instituto Irene Lisboa, Coimbra.

Pequena nota introdutória.

Estamos a viver um momento de depressão económica, com crise política, encontros e desencontros entre poderes, bem como entramos em falência e foi preciso pedir dinheiro emprestado aos fundos criados para estes problemas, contra a vontade do PS e do seu líder, o Primeiro-ministro.

Entretanto, há um julgamento de professores por causa da sua avaliação, sem regra nenhuma.

Quem se lembra das crianças e dos seus objectivos, esquecidos pelo caos político, que nos abala. Tinha esta conferência guardada, lembrei-me e pensei que era adequado para o momento que vivemos e para o futuro da criança.

1. A criança.

Parece-me, como ponto de partida, ser bom definir o que é uma criança. Especialmente, porque a frase que intitula este texto foi proferida por uma criança.

Tenho definido criança em outros textos, como todo ser humano que nasce, cresce e atinge uma primeira maturidade, quando começa a observar que deve optar para poder sobreviver. Ainda que a sua opção seja elementar e pouco contextualizada. Por outras palavras, de que a sua opção acaba por ser sem experiência.

Entre o entendimento de conceitos e normas, um conjunto de experiências acontece à pequenada. A mais importante de todas, é aprender. A aprendizagem deve também ser definida.

Por aprendizagem se entende, de forma metafórica, a escola. No entanto, para ir à escola, os pequenos devem já saber falar, usar o seu corpo, saber classificar às pessoas e entender quais os requerimentos que os seus adultos fazem para se deslizar pela teia social, pela estrutura social. É quando essa aprendizagem está já feita, os mais novos do grupo social, a pequenada pode se instruir em outro sítio, como a referida escola.

Factos que acontecem em todo grupo social, não apenas entre nós em Portugal. Todo grupo social, tem uma forma de ensinar aos mais novos, como é possível ver dos textos da Antropologia e nos meus próprios. Não entender que há várias formas de saber como é a vida social, é uma forma de etnocentrismo, que penso que existe muito entre nós. Parece que pensamos que a nossa sociedade é a melhor, e a que tem mais problemas ou não. É necessário usar o método comparativo, para entender as formas diversas de ensinar. Ensinar passa ser parte do meio social, entendido como interacção entre pessoas. É essa interacção ente adultos e crianças, e entre as crianças elas próprias, é a actividade em que a sociedade está interessada. Mas, proponho que ela seria mais lucrativa e interessante, se puder comparar com outras sociedades, que possam dar a entender à infância, de que outras formas de agir não são desprezíveis, bem como compreensíveis. O método comparativo com outras sociedades, podia dar `criança um sentimento de igualdade entre eles e com o mundo. É dizer, abrir o entendimento ao debate e não ao valor dos seres humanos.

2. O processo educativo.

É em diferentes sítios, que o processo educativo é feito pelo lar, por amigos e pelas instâncias oficiais. Em primeiro lugar, pelo lar. Mas, o que é que o lar pode ensinar? Começa por ser o carinho, ou, eu diria, a empatia simpática. Isto, num lar ideal, numa configuração idealizada do que um lar deve ser.

Vivemos numa sociedade denominada cristã, seja Católica, Arménia, Kopta, anglicana, presbitéria e outras, com expectativas éticas de lealdade, monogamia, cuidado dos descendentes, solidariedade, reciprocidade entre as pessoas. Pelo menos, é isto o que se tem definido no decorrer dos séculos. Especialmente, entre nós, Portugal, um povo denominado cristão católico. Donde amor e caridade, são comportamentos desenhados ao longo dos tempos.

Ninguém diz que uma pessoa deve estar a par do que a doutrina católica diz, mas sim que deve estar a par do que o ideal cristão manda. Porque é desse comportamento, que vão resultar as interacções referidas mais acima. Se o processo educativo no considera os princípios do cristianismo para entender o agir, mal pode transferir o saber do experimento aos pequenos. Esses estão, antes de optar, treinados em ritos que definem a passagem do tempo. Um educador, pai/mãe, professor, deve saber qual é a forma que a memória social define no comportamento, para poder colaborar com o mesmo e assim entender o que a pequenada entende. O diálogo entre adulto e criança, sofre porque o adulto acredita ter já abandonado os princípios cristãos, que a criança está a aprender.

Há uma base de falta de diálogo, ou apenas uma falta de diálogo. Não devido a experiências diferentes, mas sim a causa de pensamentos e actividades diferentes que as pessoas têm.

As crianças crescem e começam a imitar aos seus pares, mas também aos adultos que eles apreciam. É possível observar o facto na aprendizagem oficial: é mais fácil para um pequeno entender o que é transmitido pelo adulto simpático, que por adultos que punem ou ameaçam com dizer e contar o mal que parece a criança ter feito.

É esta a ideia, no que eu queria  insistir que o adulto cresce com a criança. Cresce, na medida que entende os conceitos de criança e desfaz os seus próprios conceitos, em palavras de fácil compreensão para quem está a entender a vida social. O diálogo, é um diálogo entre duas culturas dentro da mesma sociedade: a do adulto e a da criança. Eis, que os pequenos procurem a companhia dos seus iguais para poderem  ser entendidos.

Tenho-o afirmado em mais do que um texto, mas gostava de acrescentar neste ensaio, de que o pequeno não ensina nada novo para a opção que na nossa sociedade deve ser apreendida. O conceito de opção, como o de religião, acaba por ser central para a consciência de um educador, ascendente ou oficial.

3. A opção.

É um conceito económico. É um conceito derivado da teoria económica. É estar em conhecimento das formas de investimento, dos preços do mercado, do valor do trabalho e do que ele custa. Conceito que é claro no agir do adulto e transmite, por imitação, aos mais novos. Mas, não é explícito. Porém, junto com a escrita e a leitura, a ética de escolher aritmeticamente, devia ser um dos primeiros temas a tratar. À distância do conceito de bem e mal, que é como se faz na nossa sociedade. Ético matemático, para mudar o bem e o mal num agir de cálculo estrito, baseado na poupança e no saber gastar e investir.

Hoje em dia, a sociedade mudou de solidária á concorrencial. É a época do neoliberalismo, donde artigos de luxo são os mais apreciados. É neste ponto também, que adultos e crianças entendem-se pouco. A geração anterior, foi criada na ideia de nunca gastar. A geração actual, existe num mundo globalizado, bem informado, com empresas privadas a serem as interessantes. Donde, o estado previdência já não existe e passa a ser a iniciativa privada a que organiza as actividades da pessoa. O dinheiro é usado como crédito, os mais novos podem viver hipotecados e dentro dos carros que, em idade mais adulta, já podem adquirir. A geração que começa a aparecer, é a empresa. Cada indivíduo é uma empresa, com seguro privado, conta própria no banco, investimento em divertimentos e em lucro. É uma geração que joga com o dinheiro e da moeda, cria moeda, o que Marx definiu por mais-valia, o parte da fórmula que origina o capital. Diferente ao comportamento da geração anterior, que usava a moeda para não gastar e o corpo, para trabalhar. Questão que está longe de ser o que a rapaziada mais nova, queira fazer. Profissões liberais, tecnologia, matrimónios pelo interesse de objectivos de trabalho, de juntar terras, de adquirir dinheiro, são a forma de regulamentar a emotividade. Facto discutido já faz tempo entre os antropólogos e resolvido nos feitos, hoje em dia. Anteriormente, a explicação era que classe junta classe, e não lucro junta lucro.

4. Os pais não tomam conta de mim.

Será, porém, uma frase de um pequeno? Primeiro, é a causa dos progenitores estarem a trabalhar os dois de forma igual. Segundo, porque a criança fica entregue aos organismos oficiais dentro dos horários de trabalho adulto. Muito se fala de que a criança não deve trabalhar, mas acaba por ter que o fazer, quer no infantário, quer na escola, quer ainda, a andar só pelas ruas. Sabemos que na maior parte das escolas, os estudantes não assistem as aulas para irem falar nos cafés ou andarem nas mãos da adição. Há um alto número de pequenos que crescem hostilizados pela falta dos pais, ou pela falta dum deles, pela falta de cuidado da família em se manter unida.

Penso que o que tenho denominado a Produção de Produtores em outro livro meu acaba por abandonar os papeis masculino e feminino de tomar conta dos mais novos em casa e em horas de poder partilhar a criatividade, a conversa, as saídas.

Será que estou a advogar por uma volta ao passado? Eu não peço que a mulher fique em casa, mas um dos pais pode e deve tomar conta dos mais novos, como a lei permite hoje em dia.

É por esse motivo que tenho dado o título hipotético ao texto, que talvez seja entendido de imediato como o feito de que os adultos devem trabalhar e por isso é que o pequeno fica só.

A hipótese deve ser entendida melhor, como a falta de conhecimento do que regulamenta o comportamento social, seja religião ou economia, e a falta de diálogo que este agir produz.

5. Conclusão.

Não acrescento mais ideias, nem acrescentar bibliografia,

Para que as pessoas assistentes possam ler e debatermos as três ideias que tenho exposto.

Com factos, não com teoria: esta fica para entender os feitos. São estes os factos como também se diz, os que interessam.

 

Escrito em 1999 e proferido como conferência.

Revisto em 8 de Abril de 2011

Publicado privadamente em 1999 pelo Instituto Irene Lisboa

Comments

  1. julia says:

    Caro Professor:
    Fez-me recuar, ao tempo, em que fui professora 1º ciclo, mãe, avó, enfermeira, assistente social, mãe da mãe e do pai…psicóloga de filhos e pais!…
    Alunos com idades entre os 6/15anos e neste momento, aposentada, mas ainda tenho uma “aluna de 37 anos, deficiente…que não prescinde da minha decisão.Os meus prémios eram colo…Iam para casa exigir colo aos pais…Este regressar ao passado foi um bálsamo, pois creia, recordei os meus meninos.Eles contavam comigo, pois diziam-me segredos…
    Até amanhã! Até sempre!
    Júlia Príncipe

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