Lendas de Portugal

No 31 da Armada retoma-se a lendária historinha de 1580: invasores espanhóis (expressão um bocado anacrónica, mas vá lá), atropelo jurídico do direito ao trono de Portugal,  perda da independência, etc.

Esta velha mistificação continua a omitir a legitimidade do rei Filipe ao trono de Portugal, fruto das fracassadas mas mui tentadas uniões ibéricas por via matrimonial dos nossos monarcas anteriores que à época levavam quase um século, já para não falar da vida e obra do tolo Sebastião, um dos expoentes máximos da argumentação de bolso de qualquer republicano.

O facto de não ter havido perda de independência, mas sim uma monarquia dual também não entra na versão Mattoso (pai) da nossa História. Haja pachorra para tanto e tão repetido dislate. E viva Filipe I, um dos melhores reis de Portugal.

Comments

  1. Alexandre Carvalho da Silveira says:

    Filipe II respaldou a sua legitimidade para ser Rei de Portugal, no facto da sua mãe, D. Isabel, mulher de Carlos V, ser a 3ª filha do Rei D. Manuel I. Mas a sua prima D. Catarina casada com o Duque de Bragança, era filha de D. Duarte, Duque de Guimarães, o 10º filho de D. Manuel I.
    Portanto a legitimidade da Duquesa de Bragança vinha-lhe por via masculina, e a de Filipe II por via feminina. Não há duvidas que o trono de Portugal deveria ter sido ocupado por D. Catarina , e não por Filipe II. Foi a força das armas que decidiu esta questão.

  2. Daniela Major says:

    Caro Alexandre: Apesar de ser verdade o que diz, também é verdade que Felipe era homem e Catarina era mulher. Não nos devemos esquecer disto. Além disso, é preciso também analisar algo que na minha opinião – e falo como estudante de História e como alguém que tem um grande interesse em Felipe II e consigo ver para além deste disparate pegado do nacionalismo que está patente no post do 31 da Armada. – a própria ligação de Felipe a Portugal

    Portugal nunca tinha tido uma Rainha e na altura ainda ninguém tinha bem a certeza que isso funcionaria bem. Podemos pensar nos esforços de Henrique VIII em Inglaterra para ter um varão, o que lhe custou 2 mulheres. Podemos pensar também que Elizabeth I era uma excepção entre muitas especialmente se considerarmos aquilo que aconteceu com Mary a Queen of Scots. Não eram muitos naquela altura que pensavam que uma mulher no trono era o mais benéfico para um país.

    Quem oferece mais resistência não é sequer Catarina de Bragança mas sim o Prior do Crato (que é aliás auxiliado por Inglaterra) e era à volta dele que se reunia o apoio popular provavelmente por ele ser homem.

    É também importante assinalar que Felipe se torna Rei legalmente. Ele não usurpa nada apesar das pressões da Corte espanhola. Felipe é coroado Rei, na sequência das Cortes de Tomar. A situação não é sequer comparável com, por exemplo a chegada de Henrique Tudor ao trono (depois da batalha de Bosworth onde Ricardo III é morto). E no entanto os Tudor tinham raízes profundamente galeses e uma ligação aos Plantagenetas muito mais débil do que tinham outros pretendentes ao trono (os filhos de Clarence por exemplo ou o próprio Duque de Buckingham)

    Felipe II ao contrário do que vem a acontecer com o filho e com Felipe III era, tinha uma enorme ligação a Portugal. Foi educado pelo mãe até à morte dela, a ama dele Leonor de Mascaranhas era portuguesa, o melhor amigo, Rui Gomes da Silva era português. A sua primeira mulher foi portuguesa. Alguns historiadores dizem que Felipe não falava português mas percebia. A mim parece-me bastante improvável que ele não tivesse umas noções de português especialmente quando era mais novo, algo que pode evidentemente ter perdido. Há um relato do próprio Felipe (Embora de rigor histórico ainda discutível) em que ele diz que as primeiras palavras que disse foram em Português o que faz toda a lógica considerando a sua infância.

    Ou seja, não vai nunca haver um acordo sobre este assunto até porque como vemos pelo post do 31 da Armada (A História de Barcelos já não é usada pelos historiadores e é vista como objecto meramente historiográfico) há sempre estes nacionalismos ridículos. Mas a verdade é que Felipe não usurpa nada. Ele tinha direito ao trono. Ele e Catarina tinham as mais fortes pretensões mas ele era homem e tinha armas sim. Mas não era sequer ela que reunia o apoio popular (para além de que Catarina não era sequer a filha mais velha de D. Eduardo e a mãe de Felipe era a filha mais velha de D. Manuel).

    Além de que a ideia da “perda de independência” é nitidamente uma lenda pelo menos no Reinado de Felipe II. O que aconteceu foi uma Monarquia Dual. Felipe não cumpriu todas as promessas que fez mas também Portugal foi mais na prática independente do que eram por exemplo Aragão e Nápoles. Se analisarmos a questão do Império Português não há nunca uma junção entre os dois. A própria ideia de que a Dinastia Filipina foi uma desgraça para Portugal já é uma noção que está a ser debatida por historiadores e que muitos consideram já desactualizada.

    João Cardoso: Nós nem sempre concordamos e tenho algumas dúvidas que Felipe tenha sido o nosso melhor Rei (Embora também de momento não estou a ver nenhum muito melhor, com algumas honrosas excepções) mas ao menos tem distanciamento para ver as coisas como elas são e para não cair nestes nacionalismos absurdos que só servem para descredibilizar o debate histórico.

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.