As heroínas do Chile: Javiera Carrera

javiera Carrera

Javiera Carrera aos seus 19 anos, pintura al óelo de Bejamin Subercaseaux

Foi apenas na Primeira Grande Guerra de Europa, a data em que as mulheres começaram a aparecer nos campos de batalha O seu papel era de enfermeiras. A britânica Florence Nightingale, solicitou licença ao seu Governo para levar um grupo de aguerridas mulheres para curar feridos no campo de combate na guerra de Crimea. Florence Nightingale (Florença, 12 de Maio de 1820Londres, 13 de Agosto de 1910) foi uma enfermeira britânica que ficou famosa por ser pioneira no tratamento a feridos de guerra, durante a Guerra da Criméia. Ficou conhecida na história pelo apelido de “A dama da lâmpada“, pelo facto de servir-se deste instrumento para auxiliar na iluminação ao auxiliar os feridos durante a noite. Sua contribuição na Enfermagem, sendo pioneira na utilização do Modelo biomédico, baseando-se na medicina praticada pelos médicos. Também contribuiu no campo da Estatística, sendo pioneira na utilização de métodos de representação visual de informações, como por exemplo gráfico sectorial (habitualmente conhecido como gráfico do tipo “pizza”) criado inicialmente por William Playfair Mas, antes dela e o seu grupo de enfermeiras, outro tipo de mulheres lutaram no campo de batalha para conquistar a independência da sua terra colonizada pela coroa do Reino da Espanha. Ente todas, a primeira em quem penso, na Dama Criolla Dona Javiera Carrera, irmã do primeiro Presidente do Chile, José Miguel Carrera. Eram membro de uma família aristocrata, que ambicionavam o poder tanto como os seus bens e posses, e do coronel José Luís Carrera. Família subversiva, adicta ao poder, sendo o seu irmão José Miguel Presidente do Chile, conceito importado por ele desde outras Repúblicas europeias e das colónias libertas da Espanha, na hoje América Latina. A sua presidência começou em 1811, após um golpe palaciano que derrocara ao Governador da Junta provisional do Governo do Chile, Juan Martínez de Rozas, o primeiro, e, a seguir José Santiago Portales e Pedro José Prado Jaraquemada.   

 A sua vida e militar desde 1815 em adiante, foi decaindo progressivamente, até que, em 1821, depois de ser preso como montonero, foi fuzilado na Cidade de Mendonça  Carrera e a sua família eram descendentes de vascos.[3] Fonte: Diego Barros Arana, Historia General de Chile, Vol. VIII, Capítulo X: Revolución del 15 de noviembre; elevación de don José Miguel Carrera; disolución del Congreso Nacional (noviembre – diciembre de 1811). Foi Presidente de la Junta de Gobierno
23 de Júlio2 de Outubro de 1814. A seguir, fugiu, por terem tornado a reconquistar o Chile, as tropas da Coroa da Espanha, liderados pelo general Mariano Osório. A guerra independentista não teve quartel. As tropas chilenas organizavam-se em Mendonça, enquanto no Chile as guerrilhas, lideradas por Manuel Rodríguez, amigo de José Miguel, colegas de estudos na Real Universidade de San Felipe, graduados em Direito, sendo Manuel Rodríguez Deputado por Santiago, a pedido do seu amigo José Miguel, estabeleceu uma guerra de terrorismo que matava invasores sem se saber nem como nem donde em conjunto com a aristocrata proprietária da Hacienda de Maipo, referida em outros textos meus, da seguinte maneira: Paula Jaraquemada Alquizar ( Santiago Junho de 1768 – † falecida a 7 de Setembro de 1851). Filha de Domingo de Jaraquemada e Cecília de Alquizar, foi uma das personagens femininas mais importantes na luta pela independência de Chile.
Mal teve notícia da batalha de Cancha Rayada, ocorrida a 19 de Março de 1818, organizou aos peões da sua hacienda de Paine (Maipo), os enviou baixo o mando do seu próprio filho para pôr-se as ordens do general José de San Martín, proporcionou-lhe cavalos, alimentos e apetrechos. Transformou a sua hacienda num hospital para soldados feridos em combate, instalando ai o general San Martín o seu quartel-general el quartel geral de patriotas em retirada.

 Doña Paula era conhecida pelo seu carácter decidido e altivo. Houve uma ocasião, após as tropa independentistas abandonarem a sua hacienda, um pelotão realista faz uma incursão à sua propriedade procurando alimentos, solicitando-lhe as chaves da adega para retirar vitualhas. Dona Paula negou-se, o que causou que o oficial que comandava o pelotão, ameaça-a de morte, dona Paula dirigiu-se aos fuzis, desafiando os soldados a cumprir as ordens. Surpreendido, o oficial não deu ordem de fuzilamento, mas ameaçou com queimar a casa. Doña Paula lançou um braseiro aos pés dos soldados, dizendo-lhes: “¡Allí tenéis fuego!”. Os realistas abandonaram a hacienda estupefactos.

A Dona Paula foi ao campo de batalha e lutou junto ao seu filho e aos inquilinos. Não parecia ser digno de uma mulher da sua classe, mas relata o historiador chileno Jaime Eyzaguirre em vários dos seus textos, especialmente em Ideario y ruta de la emancipación chilena (1957), 29a. ed., (2007), Editorial Universitaria, ISBN 956-11-1904-8, que em tempo de guerra todo braço, treinado ou  não, é mais uma força que defende o que lhe pertence, ou aprisionando aos inimigos, ou matando-os ou mandando-os para fronteira mais próxima e perigosa, como eram Argentina, Peru, Bolívia, onde eram fuzilados. Uma Senhora que defende o seu, passa a ser uma Dama e infunde terror entre os inimigos, que fugiam dela como do diabo.

Os soldados do exército chileno tinham as suas companheiras ou camaradas, que lutavam com eles, essas heroínas que ninguém se lembra quando se fala da história do Chile. Eram, denominadas as cantineras ou camaradas, por estar sempre a abastecer de água, vinho e erotismo ao seu soldado companheiro de armas e amante ou namorada. Se é Paula Jaraquemada todos se lembram dela por ser uma Dama a lutar; mas, das proletárias, apenas o escritor historiador Jorge Inostroza, se lembra das mencionar no seu famoso livro Adiós al Séptimo de Linha, em que narra a guerra do Pacífico, as duas que teve Chile com o Peru e Bolívia nos anos 30 e nos 70. As duas ganhas pelos batalhões chilenos que levavam as suas cantineras com eles. Quem colaborou com afinco nesse triunfo, foram as companheiras. Na data da tomada do Morro de Arica, na primeira guerra contra a confederação Peruana-Boliviana ai estavam elas á sua espera para adoçar a suas vidas. Inostroza faz o texto de sete volumes mais leve, ao relatar que muitos jornaleiros, convertidos em soldados – entre a Independência e a guerra, pouco tempo houve para reorganizar as forças amadas e as cantineras eram consideradas parte do exército. Havia maridos que levavam as suas mulheres por não querer serem traídos na sua ausência, sempre prolongada. É preciso lembrar que as catineras eram jornaleiras: da mesma maneira em que procuravam trabalho pelos sítios por onde as levara o vento, assim também era a guerra um resguardo para a sua fome, a sua solidão e o dinheiro que ganhavam, era enviado à família que tomava conta dos seus filhos, nascidos no casamento ou com um afuerino qualquer ou migrante parcial, sempre em procura de trabalho, denominados também em Portugal ratinhos, caramelos, galegos que vinham em procura de sustento, como imigrantes parciais. Sempre ficava uma lembrança, um filho qualquer nascido de uma mulher afuerina ou ratinha, nos momentos de livres de trabalho. O entretenimento, quer no Chile, quer em Portugal, era o erotismo ou a satisfação da libido. A fonte destes acertos, além de romances como o meu muito querido livro de Eduardo Barrios, 1969: Gran Senhor y Rajadiablos, Nascimento, sempre citado nos meus textos, La Quintrala de Magdalena Petit, 1939, Zig-Zag, e Ciro Alegria, 1983: El mundo es ancho y ajeno, Alianza Editorial, e os impossíveis de comentar pela sua excelência narrativa, baseada em factos pesquisados como Crónica de una muerte anunciada, de Gabriel García Márquez, Bruguera, 1982, e esses detalhados livros sobre a vida de uma heroína, que lutou com corpo e alma na conquista do Chile, de Isabel Allende 2006, Areté: Inés del alma mia (versão lusa Ai, Mama Inês, Difel, 2006). Textos todos que narram o papel da mulher durante a guerra e essa procura da satisfação da libido, como comentam Freud em 1923, Além do princípio do Prazer, ou Le moi et le ça, Payot, livro acessível em http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_sciences_sociales/index.html , sendo  a sua base o resultado da psicanálise dos seus pacientes, académicos intelectuais e vários operários, que analisava por curiosidade, como método comparativo.

Mulheres cantineiras, guerra do Pacífico 1

São heroínas, como é possível apreciar pela imagem. Cansadas, tresloucadas, acompanhavam aos seus homens, na guerra como no trabalho.

Dona Javiera Carrera não era cantineira. Foi uma mulher aristocrata que ambicionava o poder para a família. Há o ditado que diz trás o triunfo de um homem, há sempre uma mulher

Francisca Javiera Eudocia Rudecinda Carmeno chamada também Dolores de la Carrera y Verdugo[2] [4] nasceu a 1 de Março de 1781 na cidade de Santiago. Foi a primogénita do casal formado por Ignacio Carrera y Cuevas e Dona Francisca de Paula Verdugo Fernández de Valdivieso y Herrera,[4] pertenciam à aristocracia colonial. 1 Recebera a educação tradicional ensinada normalmente aos homens da sua condição social. Destacou-se pela sua especial inteligência (nota: as referências não as apago por serem hiperligações que orientam para outra ligação.

Casou com Manuel de la Lastra y Sotta en 1796,[2] , tiveram dois filhos, ficando viúva aos dezanove anos.

Em 1800 casou em segundas núpcias com Pedro Díaz de Valdés,[2] advogado espanhol chegado a Santiago como regedor e assessor da Capitania Geral. Tiveram cinco filhos.

 Os bem conhecidos factos 1810, a libertação da coroa de Espanha, no a colocaram à margem dos factos, convertendo-se no motor patriótico da sua família, passando a ser ela só uma figura bem conhecida para os patriotas e entre o povo que ansiava a liberdade. Assistia a todas as comemorações realistas e as que se realizavam a raiz dos triunfos militares criollos. A sua acção foi tão significativa, entre os revolucionários usavam a frase “viva la Panchita” como contra-senha. Ajudava a levantar os espíritos em momentos de derrota, transformando-se na heroína da Pátria Vieja. Era linda e de forte carácter. Os acontecimentos de 1810 não a colocaram à margem deles, passando a ser o motor patriótico da sua família. Nesses tempos, a sua figura foi muito conhecida. Frequentava todas as comemorações: realistas e as que se realizavam a raiz dos triunfos militares patriotas. Além de esconder soldados na sua casa, estava encarregada de receber, às noites e de madrugada, as carretas conduzidas pelos “huasos” carregadas de armas para serem repartidas na cidade.

Era apaixonada, dominante e astuta nos seus movimentos. Apoiou aos seus irmãos José Miguel, Juan José e Luís, sendo a ambição da vida conseguir que fossem patriotas e não aristocratas realistas, jogadores, e mulherengos. Maria Graham descreve a Javiera com estas palavras “la hermana de José Miguel aspiraba a hacer de él un Napoleón, arrancándolo a la aturdida y borrascosa vida de joven calavera y dirigiéndolo hacia las metas del poder y la gloria“. Inteligente e ambiciosa, foi a ideóloga dos planos de luta para libertar o Chile. Era uma mulher que não sabia perdoar desacatos, preguiça e falta de interesse pela Pátria, para o que suava a sua natural sagacidade e habilidade.

Diz a tradição que a bandeira pátria teria sido bordada por ela, sendo presenteada e içada pela primeira vez a 4 de Júlio de 1812, numa cena com o cônsul estado-unidense Joel Roberts Poinsett para celebrar o aniversário da independência desse país.

A sua personalidade e conduta avivaram ódios e amores, recebeu como alcunha a “jaiba“, (sapateira em luso português) nome vulgar que se da vários caranguejos do mar. A relação que manteve com Bernardo O’Higgins foi sempre crítica: o denominava “el huacho Riquelme“, referindo-se a sua condição de filho ilegítimo. 1 Nunca pensou que tinha sido reconhecido pelo seu pai, o Vice-Rei do Peru, Ambrósio O´Higgins e pela sua mãe, após do matrimónio desta de forma aristocrática. Não dissimulou o rancor que sentia por José de San Martín, Toribio de Luzuriaga, Juan Martín de Pueyrredón, Tomás Godoy Cruz, pelos Larraín, e a Lógia Lautaro, considerava que todos eles eram os promotores da queda política, social e económica da sua família.

Em 1814, momento en que Espanha reconquisto Chile, Javiera abandona ao seu esposo e filhos para se auto-exiliar e seguir os passos dos seus três irmãos.Com eles, foi morar nas Províncias Unidas del Río de la Plata, viveu em Mendonça, para, mais tarde, mudar-se para Buenos Aires. Foi recebida pelo Padre Bartolomé Tollo, antigo amigo da família.

A sua vida de Buenos Aires foi-lhe difícil aparecem problemas de saúde e desastre financeiro. Iniciou una relação sentimental com o capitão David Jewett.

Dirigiu a chamada “conspiración de 1817” contra O’Higgins, o que finalmente lhe causou o fuzilamento dos seus irmãos Luís e Juan José en 1818, em Mendonça.

 José Miguel volta dos Estados Unidos, vê-se envolvido nas disputas internas dos caudilhos das Províncias Unidas del Río de la Plata, Javiera Carrera é desterrada a Luján, a seguir a São José de Flores, localidades nas imediações de Buenos Aires, até ser internada num convento da capital.

 Libertada, en 1819, refugia-se num barco português no porto de Buenos Aires e parte para Montevideu. Recebe a notícia, em 1821 do fuzilamento de José Miguel, em Mendonça, por causa das montoneras organizadas por ele na Argentina. A sua saúde fica em perigo “se enflaqueció su cuerpo hasta parecer un esqueleto, amoratósele el rostro, rompiéronsele los labios, perdió el cabello…”.[6] Fonte:Encina, Francisco Antonio; Leopoldo Castedo. «La primera dictadura». Resumen de la Historia de Chile. III (13ª edición). Santiago de Chile: Zig-Zag. p. 527.

Nega-se a voltar para o Chile enquanto governa-se Bernardo O’Higgins: considerava-o o principal culpado, gritando para quem quiser ouvir, que não regressaria enquanto “ese asesino gobierne mi pátria“. Assim, en 1824, depois da abdicação do Director Supremo, Javiera Carrera embarca-se a Valparaíso após dez anos de ausência.

Assim fica esta pinga amores, libertária e amante da sua família. Quem foi emblema da liberdade do Chile, a patriota, o santo-e-senha da Pátria, Manteve-se em retiro até os seus últimos dias na sua hacienda de El Monte, concentrando-se na vida doméstica e en obras de caridade. 5 Repatriou o corpo dos seus irmãos em 1828 na presidência de Francisco António  Pinto. Fonte: Las mujeres en la Independencia de Chile. Javiera Carrera

Faleceu na sua hacienda de Santiago, a 20 de Agosto de 1862. Desde 1952, o seu corpo repousa junto aos seus irmãos na Santiago.

Os Carrera foram patriotas ousados e firmes, lutaram pela liberdade do país, mas os seus hábitos aristocratas fizeram deles pessoas das que se fala imenso, são venerados como libertadores do Chile. Os tempos eram contraditórios. Era uma República em formação, havia ideias monárquicas, patriotas e criollas. Apenas com o castigo da ditadura, após o assassinato do Presidente Allende, em 1973 é que a República passou a ser um país calmo, especialmente sob a Presidência de outra heroína, Michelle Bachelet. Quase duzentos aos depois da sua independência, devida aos heróis nomeados, especialmente essa inteligente e patriota cabeça de grupo, Javiera Carrera, ainda amada, conhecida e reconhecida pelo povo, que a venera.

  

Michelle BacheletO´Higgins, San Martín, Jaraquenada, Manuel Rodríguez, os Irmãos Carrera, Allende, Salvador e a sua mulher Tencha, Aylwin, Lagos e Bachelet, e as heroínas anónimas, libertaram ao Chile em quatro períodos diferentes. Merecem o nosso respeito e saber das sua vidas como pessoas que facilitam a nossa serenidade, paz e liberdade, com  o PIB mais alto da América Latina.

Javiera Carrera <Javiera Carrera perto 1850 (Daguerrotipo de W. Helsby

Raúl Iturra,

10-11 de Julho de 2011

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