Um Meninico Como Outro Qualquer – Como Se Fora Um Conto

No segundo ano da segunda metade do século passado, em pleno estio, o meu avô Júlio recebeu em sua casa o sétimo neto dos nove que acabaria por ter. O pimpolho que mais tarde acabaria por vir a ser este vosso escriba, recebeu loas de toda a família e de mais quem fosse. Minha avó, mulher para quem os filhos e os netos eram tão-somente os melhores do mundo e arredores, fez uma propaganda enorme no que à beleza do menino dizia respeito. Afinal era o primeiro, e acabaria por ser o único a poder continuar o nome da família.

Naquela altura, muito embora já sem a força de outros tempos, meu avô era ainda uma das figuras importantes da vila. O terceiro da hierarquia lá do sítio.

Solicitador encartado, fazia o papel de advogado em muitas situações, já que por aquelas bandas não havia profissionais daquele ofício. Tinha escritório em cinco comarcas em redor, e diziam as más-línguas, que casa montada em cada uma delas. Afilhados eram mais que muitos, e todos traziam consigo o nome de meu avô. Havia até quem dissesse que o apadrinhamento os fazia serem muito parecidos com ele. Tinha sido fundador dos Bombeiros da Vila e o seu primeiro Presidente, e era muito bem considerado por toda a gente. Amigo de bem comer e conhecido também pela sua bondade e largueza de mãos, cedo delapidou toda a fortuna amealhada ao longo de uma vida de trabalho, por via dos pedidos que constantemente lhe faziam, que sem excepção sempre satisfazia, fossem eles de dinheiro, de terras, de árvores ou de animais.

Júlio, o meu avô, era natural da Foz do Douro, tendo nascido na actual Avenida Brasil e sempre viveu em Paços de Ferreira. Foi o vigésimo primeiro filho de vinte e quatro, foi educado pela irmã mais velha e o único dos irmãos que estudou. Casou com Felisbina, mulher de muita fibra e saber que era filha de Teresa, uma transmontana de rara beleza e bondade.

O acontecimento do nascimento do neto do meu avô foi notícia na terra. Era, para além de tudo o mais que antes disse, o filho do Zézinho do Porto, pessoa também muito considerada por toda a gente.

Dos quatro cantos da vila vinham dezenas de pessoas para “adorar” o menino, que diziam ser de uma beleza nunca vista, e, claro, para prestar homenagem ao dono da casa. Era um corrupio de gente, havendo até alturas em que se acotovelavam três ou quatro pessoas à espera de vez para olhar o “crianço”, que, coitado, nem se apercebia do interesse que provocava.

Com o passar das semanas (estive por lá a apanhar os bons ares que naquela altura havia na vila, cerca de dois meses) o número de pessoas que me iam visitar ia diminuindo, até quase passar a haver uma total calmaria à minha volta. O berço creme com rodas grandes, onde, eu, invariavelmente estava deitado, passou a ser um sossego.

Um dia, perto da hora do almoço, uma voz fina, quase esganiçada, perturbou a quietude da sombra onde a minha avó, a minha mãe e uma das minhas tias estavam sentadas, enquanto em quase silêncio velavam o meu sono.

– Ó da casa … Posso entrar?

Repetiu mais duas vezes a pergunta sem que obtivesse resposta audível, sendo que quando da última repetição já se encontrava bem dentro dos terrenos da casa, aparecendo junto à mesa de pedra a espreitar para o local onde estávamos recolhidos.

A casa de meus avós ficava bem no centro da vila, hoje cidade, e no local onde hoje existe um centro comercial decadente e muitas casas comerciais de duvidosa qualidade. No tempo do crescimento enorme que a vila teve, anos depois da revolução, não se acautelou a qualidade de vida nem se planificou como deveria a construção em altura, e hoje verifica-se que, a agora cidade, perdeu uma oportunidade única de ser uma das urbes mais bonitas do norte de Portugal. Naquele tempo, havia amoreiras brancas nas ruas e avenidas da zona que circundava a casa, árvores enormes e lindas que projectavam sombra fresca no sempre muito quente verão e casas de um ou de dois pisos, muitas delas de qualidade arquitectónica reconhecida.

A voz, e posterior cabeça, vinham do lado do portão de ferro que existia na entrada lateral da casa, por onde os jornaleiros e serviçais entravam.

Quem por lá viesse descia uma pequena rampa e via à sua direita a casa do forno, onde se fazia o pão, se assavam as carnes e se defumavam os enchidos, e a seu lado as cortes das vacas e dos porcos e o enorme galinheiro. À sua esquerda o tanque para rega onde um dia eu brincaria como se de uma piscina se tratasse e o poço de água. Nos baixos da casa a garagem seguida da casa da lenha e, virando a esquina, onde a cabeça da visita apareceu, a enorme mesa de granito. Da mesa de pedra até ao local onde estávamos, na eira, distavam cerca de quinze metros e para lá chegar passava-se pela escadaria com guardas de ferro de acesso ao primeiro andar onde estava a entrada das traseiras e de serviço da casa.

Era aí, na eira, na sombra feita pelo canavial que impedia as vistas da rua, que todos estávamos sossegados.

– Entre … ora diga! Disse a minha avó.

– Boas, minhas senhoras! – Disse a velha vestida de preto dos pés à cabeça e com um lenço da mesma cor a tapar-lhe os cabelos brancos.

– Vinha ver o menino. Dizem que é bonito como Jesus e que coisa mais linda não há.

A minha mãe, a minha tia e sobretudo a minha avó incharam de orgulho, enquanto o catraio que acompanhava a velha fazia um trejeito de troça. Já há três ou quatro dias que ninguém vinha para olhar o menino, e apesar da canseira que era receber tanta gente, já lhe sentiam a falta.

– Não a conheço … de onde é vossemecê? Disse a minha avó.

– Vimos de Lustosa. Este é o meu neto Júlio … afilhado do senhor doutor.

A cara de minha avó fechou-se, mas nada transpareceu na sua voz.

– De tão longe? Ó mulher, você deve vir muito cansada.

– Homessa minha senhora, disse a velha, dizem que o menino é tão lindo que tive de o vir ver, e o Júlio é afilhado do senhor morgado que é muito nosso amigo. Não podia ser de outra maneira!

– Venha então, mas cuidado com o pó que vossemecê traz na roupa. O menino é da cidade e não está habituado a estas coisas.

A mulher inclinou-se com muito cuidado sobre o berço não fosse qualquer grão de poeira mais solta cair em cima da criatura recém-nascida.

Olhou, olhou, tornou a olhar inclinando a cabeça como se assim visse ainda melhor, e ao fim de algum tempo endireitou-se. Olhou para o neto que se tinha mantido a um metro de distância e disse:

– É como eu te disse… Vem ver o pirralho.

Enquanto o Júlio se aproximava muito devagar do berço, minha mãe perguntou com uma voz quase ansiosa:

– Então, que lhe parece, é muito bonitinho, não é?

– Ui, disse a velha com ar sério, olhe minha senhora, é um “meninico” como outro qualquer!

Comments

  1. maria rodrigues says:

    texto interessante, convida à leitura. Lamenta-se “trás na roupa” em vez de “traz na roupa”

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