A escola e a escola da vida

porta fechada

O governo proletariza os cidadãos

Sendo a escola um espaço obrigatório de passagem, que importância terá para aqueles que não foram obrigados a incluí-la no seu percurso de vida?

Sendo a escola local privilegiado de aprendizagem, como aprendem aqueles que não a frequentaram, que apenas o fizeram de uma forma rudimentar ou que a deixaram há muito?

Sendo a escola um espaço essencialmente frequentado por crianças e jovens, como relembrar os idosos o seu tempo de escola?

Sendo a escola um lugar público e obrigatório de aprendizagem, porquê colégios privados e caros?

Pequena digressão: quem nos governa, tem despedido a mais de 60% de docentes, rebaixando os ordenados dos que têm na sorte de encontrar trabalho como um novo imposto. Os pais habituados aos colégios privados, vêem-se obrigados retirar seus filhos dos privados sem encontrar escolas públicas, para os matricular e estudar. Não apenas o governo tem mentido, bem como Portugal começa a andar como o escorpião: para trás.

A geração actual não tem onde estudar, nem sítios de trabalho para ganhar dinheiro, e assim pagar a sua aprendizagem, assim como os pais devem escolher, entre alimentar a sua prole ou guardar moeda para escolas que encontram com vagas, pagar matrícula, vesti-los, comprar livros ou alugar. O governo tem mentido e não tem capacidade para remediar o que não tem cura. Como se estiverem a pensar que enquanto menos se saiba, mais mão-de-obra livre para trabalhar para o lucro do capital dos investidores, que enriquecem com estudantes sem escola, que não sabem usar instrumentos de trabalho e perdem o seu tempo de ser cidadãos de mais-valia para o país. Governo que engana e converte Portugal num país proletário. Até os membros do próprio governo revoltam-se e demitem-se. Em breve, este governo traidor, não terá com quem governar, nem cidadãos sábios para criar e inventar novas formas de saber, medicinas e formas de curar, rapidamente, doenças que matam. Infelizmente, estamos a recuar aos tempos da ditadura…

Estas e outras perguntas, questões, indefinições, acompanharam-me no meu percurso de investigação com idosos. Com o objectivo principal de compreender como é que o idoso(a) construíam e reconstruíam as suas identidades na fase final das suas vidas: na velhice. Descobri, entre outras coisas, que a escola, podendo não ser um espaço de passagem comum a todos os idosos entrevistados, no entanto foi por todos mencionados. Mais ou menos valorizada, a escola, faz parte do percurso biográfico destes idosos, que relembram a escola de há 60 ou 70 anos atrás.

Dos cinco idosos entrevistados apenas um, agora com 80 anos, não frequentou a escola, tendo, contudo, aprendido a ler e a escrever pagando cada lição com um tostão ao seu tutor. Os restantes escolarizaram-se ficando um deles com o 2º ano incompleto, outro com o 5º ano, outro com o 7º ano, e o ultimo atingiu o grau de licenciado. Apesar de entre os idosos entrevistados não encontrarmos nenhum analfabeto, a verdade é que a taxa de analfabetismo no nosso país sempre foi das mais elevadas da Europa (Nóvoa, 2005). Efectivamente, a grande maioria dos nossos idosos não sabe ler nem escrever o que se assume, muitas vezes, como um dos factores de exclusão social.

Será esta pesquisa um prenuncio do que deve acontecer entre nós, a partir deste governo?

 Analisando a situação social das famílias de origem destes idosos e dos jovens sem escola nem trabalho, depressa verifiquei que os menos escolarizados provinham de famílias não escolarizadas, ou pouco escolarizadas e que os mais escolarizados eram oriundos de famílias sem educação escolar. Devia ser a resposta de como deveria ser doravante que esta constatação reforça a ideia de que, tal como hoje, também no passado o acesso ao meio escolar e o sucesso em si próprio. Sucesso que é e foi fortemente influenciado por fenómenos de reprodução social (Bourdieu e Passeron, 1978; Iturra, 1990; Vieira, 1998). Mas, para todas as regras existem excepções, acontecendo também nesta situação. O João – nome fictício, representa a excepção neste grupo de cinco idosos, bem como pessoas como ele na geração actual. Era filho de pescadores mas a deficiência corporal que o acompanhava desde os nove meses, depressa fez com que a sua mãe se consciencializasse das dificuldades de inserção e aceitação do filho numa sociedade que, vulgarmente, exclui aqueles que, pela sua deficiência são, diferentes. Há deficiências e deficiências. A da geração actual não é corporal, é económica. A obtenção do diploma de sétimo ano foi, naquele tempo e para aquela família, uma forma não só de inclusão mas também de ascensão social. É a grande queixa da jovem geração actual e as novas leis que impeçam a sua ascensão social ou, simplesmente, ganhar a sua vida de forma autónoma que, hoje em dia, é o realce social: à independência dos pais e da família. Os contactos estabelecidos no mundo da escola permitiram que, quando todas as portas se fecharam, o João conseguisse obter emprego. Mas se neste caso a escola funcionou como um motor de inclusão social, a verdade é que para aqueles que não a frequentaram, ou pouco a frequentaram, a inclusão passou pela aquisição de outros saberes fora dos saberes da mesma. Na verdade, a experiência permite aprendizagens no domínio psicomotor, cognitivo, afectivo e social (Cavaco, 2003). No caso dos adultos não escolarizados, ou pouco escolarizados, é o saber experiencial o instrumento mais importante de sobrevivência e de acção. Foi assim com o Mestre que, apesar da sua escassa escolaridade e de não ter frequentado nenhum curso de cerâmica, aprendeu com o trabalho que praticou nas diferentes fábricas onde passou sendo, ainda hoje, aos 80 anos, conhecido e tratado por Mestre!

De salientar ainda, a aprendizagem experiencial não acontece exclusivamente nos adultos nem exclusivamente nos não escolarizados mas em todas as fases da vida: aprendemos desde que nascemos fora e dentro da escola.

Para finalizar gostaria de destacar, que apesar de a escola ter sido diferentemente vivida por estes idosos, e de nem sempre ter funcionado como o trampolim de sucesso para a vida futura, a verdade é que a escola foi recordada e mencionada por todos os idosos que entrevistei. Como pelas queixas da geração actual contra um governo que expulsa das actividades aprendidas a alto custo. Talvez por ter sido um espaço desejado que não foi alcançado, talvez por ter sido um espaço de desilusão entre as expectativas do aluno e as do professor, talvez por ter sido um espaço de socialização importante para o futuro, talvez por ter sido um espaço comum a filhos, netos e bisnetos ou, quem sabe, simplesmente porque se assume que a vida escolar faz parte do universo onde vivemos. O Governo actual sabe do valor da escola e define leis que passam a ser um problema para os estudos primários, quer a docentes, quer a estudantes, quer, ainda, a família que todo fez para elevar o saber e o estatuto social dos seus descendentes. Estou certo que o Governo actual é um atropelo, uma vergonha para a escola, dificulta a aprendizagem da ciência, bem como o trabalho e o sucesso na vida. Este depositário de nossa soberania apenas quer operários, pagar pouco e lucrar com a falta aprendizagem da geração actual. É muito diferente aos tempos do João: os pais apoiavam e eram bem sucedidos, enquanto hoje nem os pais conseguem oferecer apoio, até nem eles têm lucro para se manterem. Os depositários da soberania, parecem-me ser uma felonia para o nosso país, e seus objectivos de mais-valia.

Referências Bibliográficas:

•BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude (1970, Minuit),1978 : A Reprodução. Elementos para Uma Teoria do Sistema de Ensino. Lisboa: Veja. Original

•CAVACO, Cármen (2003), “Fora da escola também se aprende. Percursos de formação experiencial”, Revista organizada por nós: Educação, Sociedade & Culturas, n.º 20, pg. 125-147, Afrontamento, Porto

•ITURRA, Raul (1990), Fugirás à escola para trabalhar a terra. Lisboa: Escher.

•NÓVOA, António, 2005: Evidentemente: Histórias da Educação. Porto: Edições Asa.

•VIEIRA, Ricardo (1992) 1998 2ª edição: Entre a Escola e o Lar. Lisboa: Fim de Século.

Comments


  1. http://zebedeudor.blogspot.com/2011/09/ontem-chegaram-ao-fim-as-negociacoes-do.html

    A ESCOLA TRANSFORMOU-SE NOS DIAS QUE CORREM EM CURRAIS MULTIMÉDIA COM GRADES DOURADAS ….

    Nenhum de nós sabe o que existe e o que não existe. Vivemos de palavras. Vamos até à cova com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas. São as palavras que nos contêm, são as palavras que nos conduzem. Mas há momentos em que cada um redobra de proporções, há momentos em que a vida se me afigura iluminada por outra claridade. Há momentos em que cada um grita: – Eu não vivi! eu não vivi! eu não vivi! – Há momentos em que deparamos com outra figura maior, que nos mete medo. A vida é só isto?

    Raul Brandão,


  2. Raul Iturra says:

    Obrigado pelos vossos comentário e a leitura do texto. Foi escrito apóa pesquisa em educação com o amigo qe faleceu, Pierre Bourdieu e o ouytro que tembém nos deixara, Steven Stoer e um conjunto de colaboradores orientados por mim para as suas teses de Doutoramento, com grande sucesso. A esola não sabe ensinar ciência, os docentes trabalham bem, mas falta pedagogia. As aulas precissan ser curtas e com intervalos.Memorizar,decorar é a pior pedagogia. No entanto, os estudantes são avaliados não pelo que entendem, mas pela memorização de temáticas. Os discentes precissam visitar os sítios, base de factos para entender.O governo actual não se interesa pela educação, apenas pela falência que nos afecta. Se não houver lar para ensinar aos seus membros leituras e experientos, teriamos uma camada de proletários que apenas procura trabalho. O ensino escolar é pobre, os docentes são despedidos e não adiantamos no saber.Sabemos o que existe:falta de educação e o que não existe, o interesse do estudante em querer saber

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