Pais e filhos – Um rascunho

Pais e Filhos

 Parece-me impossível falar de pais e filhos sem acrescentar o complemento do sujeito um rascunho. Infelizmente nas línguas latinas, as palavras têm género ou subentendidos. Género, por existirem palavras masculinas e femininas que definem a relação. Bem como plural e singular, porque se falarmos de pai, falamos do género masculino, enquanto pais abrange aos dois géneros. O filho é o rascunho do pai, por outras palavras, a cópia do que a paternidade do bebé rapaz seria se tem um pai disciplinado e ordeiro. Diferente a maternidade e a filha.
No entanto, no género feminino a maternidade é mais ampla que o de paternidade: abrange filhos e filhas, por serem as mães as que suportam o peso da criança que tem sido engendrada, os amamenta, toma conta deles durante os seus primeiros anos da sua vida, ensinam a andar e até têm licença no seu trabalho para ficar com os bebés, até eles aprenderem a andar, comer sem apoio, serem limpos e mudados para estarem limpos e não ferir a pele do seu corpo com humores azedos, que ferem.

A prova do meu acerto, é essa imediata associação de masculinidade ao falar de pais e filhos: a primeira imagem que aparece, é a de um pai com o seu catraio nos seus ombros. Raramente a imagem de maternidade é desenhada essa forma. Maternidade tem como imagem própria, um bebé no seu colo, a beber o leite materno nos seus primeiros meses de existência, seja filho ou filha quem repousa no colo que acarinha.

Talvez seja essa a diferença: a mãe amamenta, o pai sempre fora de casa a ganhar os tostões que permitem uma mulher ter um ano de licença e criar, dito de forma redundante, a essa criança. No entanto, os tempos têm mudado e os progenitores fazem turno para ser pai/mãe e vice-versa. Com uma certa reticência da parte do pai, quem procura pessoas amigas e família, para se entreter no dia da sua vez de tomar conta dos pequenos. A mãe, com turno ou sem turno, está sempre a vigiar ao bebé e ao homem pai para observar se cumpre os seus deveres. Atrever-me-ia dizer que, ao longo do tempo, o pai é, as vezes, outro bebé da mãe, toma o pequeno-almoço na cama, ou sai com os amigos a noite e de manhã, cheio de sono, deve ser empurrado pela mulher para não perder a hora do trabalho, importante para todos eles. Nem sempre é semelhante, depende dos trabalhos e da classe social a que se pertença: o operariado, começa a noite antes de chegar a casa, a beber cerveja com os colegas; os intelectuais, debatem até tarde durante a noite, mas o seu tipo de trabalho permite-lhe dormir até mais tarde. Há os que preferem trabalhar de noite em silêncio, há os que preferem acordar de madrugada, e usar o tempo do dormir dos outros, para usar duas ou três horas de silêncio, sem telefone que toque ou pessoas de casa que falem.

Estas ideias apareceram em mim, desde o minuto que soube que o filho da minha filha mais nova e o seu marido, teria como segundo nome, o meu. Nunca o imaginei. Estes descendentes levam tempo para decidir o nome da criança: pensam, calculam, procuram semelhanças, querem exemplos, quase como Durkheim diria; ideias solidárias mecânicas, ou de solidariedade orgânica. As primeiras, são um exemplo da procura das actividades associativas, vem-se na pessoa cujo nome escolhem, um atalho emotivo para saber conviver; as segundas, são as regulamentadas pelo direito e a lei.

Mal soube que o meu neto mais novo, o quinto já, de três semanas de idade, também tem o meu nome, causaram em mim o mesmo sentido de responsabilidade que era o meu norte, ao ser pai novo de pequenas crianças. Dividia o dia nas atenções e acompanhamento dos filhos, e nas horas de trabalho. Como fazem os meus filhos, com os filhos deles: uma quadriga sempre unida, juntas, com passeios em horas livres e leituras nas horas de dormir. Senti a emoção de ser pai novo outra vez, e o livro para ele, começa a ser escrito. Especialmente, pela confiança depositada em mim, ao transferir o meu nome pessoal para uma criança que apenas mama, e não sabe pensar. A emotividade caiu entre a minha geração e a deles, com a obrigação para mim de ser o exemplo do pequeno da terceira geração. A calma, a alegria caiu sobre mim, que nem dormir podia. Um nome não é só uma metáfora, é uma responsabilidade.

A imagem de espelho que caiu sobre mim, foi a de respeito ao pai, que tem a obrigação mímica da disciplina nele, para que o seu catraio assim aprenda, como deve ser coo adulto. Quanto a mim, apenas melhorar o meu estado de vida, para ser um exemplo activo para esse neto, que um dia terá uma imagem de mim, enquanto eu tenciono ser um homónimo para imitar. Como eu, com ele, apesar da gerações diferentes que nos distanciam e nos unem de forma mecânica. O direito não tem sítio, apenas a afectividade entre três gerações com imensos anos e distância…Mi Weñe!, que em língua mapudungum do clã Picunche da Nação Mapuche da Cordilheira dos Andes, que estudo, é rapaz calmo, lindo e feliz…  O que me da esperança que é em adulto será trabalhador, sábio e com uma família feliz, como todos temos sido.

Viva mi Weñe! Não apenas um nome que o fará feliz, bem como a família que forme, que estou certo será, como todos nós…e a música!

Abuelo,