Aprender a dançar com os gregos

A Grécia tem um ano de avanço: Passos, Portas e Seguro sabem agora o que os espera. O pânico à direita está na cara dos comentadores amestrados da Goldmam Sachs (a grande derrotada do dia, em três países, o que é obra) que nas televisões misturam Syrisa com nazis, tudo no mesmo saco; quando não se trata dos seus parceiros da corrupção pública e privada é tudo extremista e radical. O “centrão” ou o caos, socorro, chamem a cavalaria, vêm aí os gregos.

A lição que aprendemos com os gregos é muito simples: o bipartidarismo alternadeiro não dura sempre, por mais que se esforcem as comunicações sociais dos donos. Nenhum povo aceita ser governado por governos estrangeiros sem resistir. Não há mal que não acabe.

É certo que os nossos partidos do regime, os que nos fizeram o mesmo que fizeram ND e PASOK aos gregos, poderiam aprender a lição mas para esse lado não haverá sobressaltos: é a sua natureza de agremiações dos interesses instalados que os impede de pensar acima das suas possibilidades, embora não seja de todo improvável que numa reforma das leis eleitorais também ofereçam 50 deputados a si próprios.

Na Grécia 2% de votos separam o partido mais votado do segundo: um fica com 108 deputados, o outro com 52.

A esquerda grega ainda não ganhou, e fique também à atenção do PCP que defender a saída do euro e permanecer na via ortodoxa para lado nenhum não é uma estratégia inteligente (não estando a comparar o KKE, uma agremiação que demonstra neste texto viver algures entre a Idade Média e a Revolução Cultural Chinesa num exercício daquilo a que Álvaro Cunhal chamaria radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista, com o PCP), mas a vantagem dos disparates dos outros é a de não os repetir.

Quanto aos nazis gregos são um problema de confronto físico, e mais nada. O partido de extrema-direita que havia, e estava no governo, desapareceu do mapa por isso mesmo, houve uma deslocação de voto para a massa muscular. Traduzindo para português, até podia ser o destino do CDS, não tivesse ele um líder inteligente e se o PNR existisse. É improvável.

Comments

  1. Maquiavel says:

    Muito boa análise!
    Uma correcçäo: na Grécia 2 pontos percentuais (p%) de votos separam o partido mais votado do segundo.


  2. Nas actuais circunstâncias, ganhe quem ganhar as perspectivas são igualmente cinzentas. Veremos o novo capítulo.

  3. Fernanda Leitao says:

    Boa e oportuna a sua análise. Oxalá os estarolas do governo o lessem e entendessem para se evitar a Portugal uma situação semelhante a curto prazo.

  4. Nuno Castelo-Branco says:

    …”chamaria radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista”. Em suma, o PC de cá jamais deixou de ser precisamente isso. Álvaro Cunhal nunca percebeu.

    No que respeita às hipóteses de governança na Grécia, a coisa não vai ser simples e já agora, sempre espero para ver o que o BE local terá para fazer. É que se o sr. Samaras não formar governo nos próximos 3 dias, o líder do Syriza será chamado. Talvez consiga atrair o PASOK, decerto disposto a tudo e mais alguma coisa, mas os ódios pessoais naquele país são qualquer coisa digna de nota. Depois decerto começará a aplicar os pacotes bruxelenses. Queres uma aposta? A propósito do Alvorecer Dourado, os nazis, parece-me que a base eleitoral do CDS não tem nada em comum. Seria muito mais provável um partido nazi português que fosse pescar nos sítios onde o PC ainda tem alguns eleitores. Foi precisamente o que aconteceu em França. Lembras-te do PCF com 20% e a FN com 0,2? Com a campanha anti-magrebina de Marchais, o desemprego e tudo o que se sabe e politicamente correcto não se ousa dizer, o PC ficou reduzido e a FN abarbatou-lhe quase todo o eleitorado. Sim, precisamente aquelas áreas suburbanas, com os portugueses locais em primeiro plano, sempre de braço estendido e entusiastas da Dª Marinne.


  5. Também temos muito a aprender com a Soraia Chaves, é outra dança.


  6. Nuno, os governos na Grécia têm obrigatoriamente de ter maioria parlamentar. A menos que um dos dois novos partidos (os dissidentes do PASOK ou da ND) se queira suicidar, não haverá governo, mas novas eleições.
    Quanto à base social dos nazis, era preciso que o KKE tivesse perdido votos, não foi o caso.

    • Nuno Castelo-Branco says:

      Pois isso ainda não sei, mas não vai ser difícil perceber de onde vieram os votos. Na Alemanha e em França, sabemos onde estão: na antiga “RDA” e na banlieu dos grandes centros urbanos ex-PCF. Por cá, a gente do CDS – conheço muitos, acredita -, não simpatiza nada com os “esquemas dinâmicos” do Sr. Hitler. Nada mesmo.


  7. Há CDS e CDS… Boa parte da nossa direita mais musculada até vota PSD. Mas claro que a base eleitoral existe em toda a parte, falta-lhes é um líder.

  8. maria celeste ramos says:

    Mas ao menos têm o grande Zorba de Anthony Quin – tenho um video lindo que tenho de procurar para vos enviar de AQ dançando com Alan Bates (creio) no campo grego e outro “dançando numa rua grega – onde estarão ??? – e que levaram quem estava na rua e mercados a dançar todo na rua – que lindo – foi um festival e nem sei quem filmou – mas nem interessa – A grácia eterna a quem Roma deve tanta e quem diz Roma diz o ocidente que passa por aqui – ainda agora enviei imegem de escavação de esqueleto com mais de 2 mil anos que será de romano que andou por aqui e aqui ficou ? ai a cultura de hoje será o fim do Imperio Romano do ocidente que ainda está presente ???

  9. Maquiavel says:

    Os votos na Aurora Dourada neonazi vieram do LAOS, o outro partido de extrema-direita (mas menos agressiva), porque este se lembrou de entrar para o Governo da Troyka. Quando percebeu que o tiro lhe saiu pela culatra, já era tarde, e nem o seu último voto contra o n-ésimo pacote austeritário e consequente saída de Governo os salvou.
    Näo, NC-B, a Grécia näo é a França, e se na França a FN foi buscar votos ao PCF, ou na Finländia os Persut foram buscar votos ao SDP, na Grécia quem vota comunista é porque se lembra do que foi, näo só a ocupaçäo nazi, mas também e principalmente do que foi o Regime dos Coronéis. Para essa gente de boa memória, nem nazis estrangeiros nem nazis nacionais.

    • Nuno Castelo-Branco says:

      Qual boa memória? E a guerra civil grega e as violências incontáveis que os camaradas por lá desencadearam? E nada aprenderam com os vizinhos mais a norte, a Albânia, a Jugoslávia e a Bulgária? Sinceramente, não vejo qual a vantagem ou a decência de tudo isso. Choque-se à vontade, mas estão todos no mesmo patamar. São capazes do mesmo, sem um só pestanejar de olhos.
      E já agora, onde é que eu disse ser o Alvorecer Dourado (que nome idiota, parece coisa norte-coreana) um caso idêntico ao da FN francesa? E não é neo-nazi: é nazi.

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