Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Teolinda Gersão

Escritora

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso,confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas,mas as ideias são todas deles.

Aqui ficam,e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.

Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto:  No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito. “O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.

No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento,e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.

No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.

No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela,subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?

A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português,que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo,o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)

Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou : a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens,ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.

E pronto, que se lixe, acabei a redacção – agora parece que se escreve redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.

E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.

João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).

Adenda: publicado pela autora no facebook e republicado no Aventar com a devida autorização.

Comments


  1. Reblogged this on primeirociclo.


  2. Eu subscrevo o que diz o João Abelhudo, e sou mãe de um aluno que está a acabar o mesmo ano.

  3. Célia says:

    Posso partilhar? …espectacular!!!
    Infelizmente só fazem mal à nossa língua portuguesa.


  4. Partilhado! 🙂


  5. “vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas”

    Este bocadinho sumariza na perfeição o que eu acho do sistema de ensino corrente (embora esteja pronto a admitir que é difícil implementar outro por questões práticas).

    Partilhado através do FB.


  6. Porque é que os professores de português não se revoltam contra esta anomalia e contra o jornalista que se acha à altura de secretário de estado de quê ??? mas os professores nunca fizeram grave por razão nenhuma ?? se agora eu tivesse que fazer português graças a Deus que chumbaria – o brasil que vá para o raio que o parta – o que é o brasil ?? fizeram alguma coisa interessante des de 1500 ?? a não ser avacalhar a lingua ? fiquem com a deles e não xateiem – mas não digam que falam português – não se aproveitem disso – ou o brasilês não lhes dá categoria nenhuma ??? fiquem lá com a amazónia que destroem com fogo e agora até o português daqui querem estragar – fiquem lá com a lingua deles e não venham cá ficar com o que nos resta e os tipos nada sabem fazer – querem a TAP + a ANA + o quê ??? não sabem COPIAR ??? – aprendam com os xineses que sabem e fiquem lá com os criminosos do Rio e não façam mais casinhas de alterne – aqui já temos que chegue “genuínos”


    • Maria Celeste. Porque é que deveriam ser apenas os professores de português a lutar por uma língua que é de todos nós? Essa é muito boa. Transferir a responsabilidade deste tema para os professores de português. Lindo.

      Dica….a melhor forma de lutar pela língua portuguesa, é usá-la o mais correctamente possível. Eu esforço-me por fazê-lo. E a Maria Celeste?

      • Pedro Marques says:

        Parece muito chateada. Mas realmente não se vê os professores a lutar pela língua. Mas esteja descansada que o mal é geral. Há imensa gente que não luta pela língua e não só. Não fique tão ofendida, a Maria Celeste tocou numa ferida, e em vez de ficarmos ofendidos quando nos dizem algo, é preciso ver por que é que o dizem e ver se podemos corrigir. Boa noite. E vamos à luta.

      • Maria Celeste Pinto says:

        Olhem, mais uma Celeste… Com todo os respeito pelos professores, alguma vez fizeram greve por alguma coisa que não fossem os VOSSOS direitos? Salário, progressão na carreira, aulas de substituição, obrigatoriedade de horário mínimo, condições de trabalho… Se fizeram, peço desculpa, mas eu não me lembro. Quem melhor que os professores para travarem esta barbaridade? Terão a solidariedade dos país, não duvidem!


        • Vejo aqui algo em comum entre as Maria Celeste, que vai para além da sua graça.

          Eu não quero que sejam os outros a lutar pelas MINHAS causas. Porque é que hão-de ser os professores a lutar por uma causa que é de todos? Dá muito trabalho, é?

          Reitero a dica que dei à sua homónima: a melhor forma de lutar pela língua portuguesa, é usá-la o mais correctamente possível. Eu esforço-me por fazê-lo. E a Maria Celeste?

          (E já agora….. só para que não haja confusões…… eu não sou professora 🙂

          • Maria Celeste Pinto says:

            Eu também me esforço por usar correctamente a língua portuguesa. A senhora revela uns tiques de arrogância que não lhe assentam nada bem…

      • Pedro Marques says:

        A causa é de todos, mas como são professores de português deviam ser um dos primeiros a vir defender a causa, o que não está a acontecer, mas enfim já começa a ser hábito as pessoas não lutarem pelo que devem lutar.


        • O que me incomoda é que haja quem aponte o dedo a um grupo de professores (os de língua portuguesa) que são, claramente, uma minoria e com pouca força. “Isto é uma causa de todos, mas os professores de português que se cheguem à frente porque são parte mais interessada”. Não são. É o mesmo que achar que apenas os médicos devem lutar por questões relacionadas com a saúde de todos. A língua é minha, não delego em nenhum grupo em especial a responsabilidade acrescida de lutar por algo que é tão meu como doutro qualquer.


          • Absolutamente de acordo! Há uma mania generalizada de achar que os outros é que devem lutar por aquilo que queremos. Mas o facto é que se cada um de nós fizer a sua parte a língua portuguesa estará acérrimamente defendida. Eu assim faço: tento cuidá-la o melhor possível cada vez que a utilizo e não me coíbo de chamar a atenção, educadamente é claro, das pessoas que me rodeiam quanto à sua boa e correcta utilização.


    • Maria Celeste, os professores revoltam-se e muito. Não só os de português, mas também os de línguas estrangeiras, que apreciariam muito que a gramática portuguesa fosse ensinada de modo a ser mais compatível com as gramáticas, necessariamente normativas, das outras línguas. O problema é que os professores têm Sindicatos mas não têm uma Ordem. Contra as tropelias laborais da sua entidade patronal, ainda têm meios de luta; mas contra as tropelias pedagógicas e deontológicas dessa mesma entidade estão totalmente indefesos.


    • Além de ser injusta para com os professores, está também a ser injusta para com os brasileiros. Os brasileiros falam e escrevem uma variante maravilhosa do Português, espantosa de expressividade e plasticidade. E muitas vezes têm mais respeito pela gramática dessa variante do que nós pela gramática da nossa. Culpemos, sim, os académicos (mais os portugueses que os brasileiros), que querem enfiar à força todas as variantes num espartilho comum. Não sabem nada do Mundo e julgam por isso que ele cabe todo na sua micro-especialidade.


    • Maria Celeste, os professores portugueses e o Brasil são os únicos culpados?

      abraços brasileiros

    • leitor says:

      Que acordo é esse em que “chateiem” e “chinês” passa a “xateiem” e “xinês”, e os pontos de interrogação são usados em pares e trios para conferirem maior expressividade? (ou será ???)

      É com cada uma…

    • Miguel Soares says:

      Dona Maria Celeste, absolutamente ridículo o seu comentário.

  7. Dora says:

    Lindo!!!

    A TLEBS é esta coisa! – A “NOVA” Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário.

    Gosto especialmente dos sujeitos nulos, dos elementos de polaridade e dos complementos oblíquos – que são muito matching com a crise, o bailout, o desemprego, a pieguice, a compaixão, os pastéis de nata, e, last but not least, esta paciência para aturar tudo isto.

    • João Roma Santos says:

      Querida Dora,é um prazer ler as tuas posições,continua a tua sementeira pois será uma questão de tempo para isto mudar: tem de mudar! Abraço saudade

  8. joão says:

    “almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado”

    Fiquei interessado na designação dos verbos copular e obrar, parecem-me de evento mas estou na dúvida entre serem de evento prolongado ou não.

    Depende, não é?

    Daí esta coisa das polaridades, certo?

  9. Emília Ferreira says:

    Cara Teolinda Gersão: agradeço desde já este magnífico texto que vou partilhar no facebook, como desejo de ‘manifesto’ contra a falta de tino no ensino do português. Quanto às observações que aqui li, gostava apenas de dar uma achega: acho realmente que o português é responsabilidade de todos nós. Que falar bem a nossa língua é um dever. Mas também acho que os professores de cada disciplina (e a de Língua Portuguesa não deveria ser excepção) deviam rebelar-se contra programas absurdos que complicam em excesso, no que parece ser um projecto de desinformação muito aturado. Os miúdos não lêem (como haviam de ler? Tudo é dado sob a nada sedutora forma do massacre), não sabem interpretar, não sabem falar. Os professores queixam-se disso: há um excesso de conceitos gramaticais obscuros e um claríssimo defeito de informação. E o que fazemos (todos) para mudar isso? (professores incluídos).
    Há dias ouvi na rádio uma jornalista dizer o seguinte mimo: ‘Todos não sabem que…’. Fiquei em estado de choque. Dei aulas de português a estrangeiros durante 9 anos. É fácil explicar a qualquer aluno que ‘todos sabem’ (universal afirmativa), mas que ‘ninguém sabe’ (universal negativa). São fórmulas que vêm da lógica e todos as compreendem sem problema. Então, como é que chegamos a um absurdo destes?
    Também é fácil explicar muitas outras coisas. Por exemplo, que o que está perto de nós é definido no espaço por ‘isto’ ou ‘este/esta’; que o que está próximo do nosso interlocutor é definido espacialmente como ‘isso/esse/essa’ e que o que se encontra afastado dos dois intervenientes da conversa é referido como ‘aquilo/aquele/aquela’.
    É igualmente simples de explicar a diferença entre ir e vir. e evitar situações obtusas como ‘eu nunca fui aqui’.
    Como é fácil fixar as excepções (mesmo sendo muitas) da conjugação verbal. É simples fixar que os verbos valer e caber, por exemplo, são irregulares e que por isso se diz ‘eu caibo’ e ‘eu valho’ (e, no presente do conjuntivo: ‘para que eu cabia’ e ‘para que eu valha’) e não os disparatos e corriqueiros ‘eu cabo’ e ‘eu valo’. Ou que o Pretérito Perfeito Simples é o único tempo em português em que a segunda pessoa do singular não termina em ‘s’. Ou seja: ‘tu foste, ‘escreveste’, ‘disseste’ e não ‘fostes’, escrevestes’, ‘dissestes’…
    Também não existe qualquer mistério no facto de o verbo haver, como existência, se conjugar apenas na terceira pessoa do singular. E, contudo, apesar de ainda não se ouvir dizer ‘hão muitas pessoas na sala’ é mato ouvir dizer ‘haviam muitas pessoas no cinema’ ou ‘houveram’ ou ‘vão haver’.
    É ainda de uma grande facilidade explicar que situações de incerteza ou de objecção obrigam ao uso do conjuntivo. Assim, é óbvio que temos de dizer ‘talvez chova no fim-de-semana’ e ‘embora eu saiba que vai chover não levo guarda-chuva’ e não ‘talvez eu vou contigo’ ou ‘embora eu sei que o filme não presta, vou vê-lo’.
    Tudo isto é fácil de explicar. Sei-o por experiência. Por, durante 9 anos, ter ensinado inúmeros estrangeiros a falar a nossa língua. Não percebo como é que, ao longo de anos de escola, os miúdos (na sua maioria naturais da língua) não conseguem dominar o código.
    A gramática é um instrumento precioso, mas não de tortura. Não deveria servir para nos provar que a língua que falamos é uma chatice e um impecilho, mas para nos organizar o pensamento de modo mais simples e claro, iluminando as nossas dúvidas e orientando o raciocínio.
    Depois de tudo isto, mais uma vez, muito obrigada (e, sim, é um particípio passado, que significa que estou agradecida, e portanto acorda com quem o diz; pelo que uma mulher diz sempre ‘obrigada’ e um homem diz sempre ‘obrigado’; não há cá genéricos nem outros disparates) à Teolinda Gersão, uma das minhas escritoras preferidas.
    Grande abraço!!!

    Emília Ferreira

  10. Floripes says:

    Se este João Abelhudo fosse meu aluno, tiraria 5 no final do ano! Texto espetacular, no qual muitos de nós, professores de Língua Portuguesa, nos revemos!

    • Maria says:

      Eu diria mesmo espectacular, Floripes.


      • Acha que os professores, em particular os de Língua Portuguesa, estão de castigo e são obrigados a utilizar uma convenção ortográfica no trabalho e outra fora dele? Parece que meio-mundo ainda não entendeu que a ortografia mudou nas escolas, e que obviamente somos obrigados a cumprir o que os governos determinam.

        • Pedro Marques says:

          Não são nada, não é constitucional, não é legal, logo não são obrigados.


          • Onde é que está a decisão do Tribunal Constitucional sobre o assunto? quem é que determina se é ou não legal? o Pedro, o VGM, ou o Ministério da Educação não havendo uma decisão judicial em contrário?
            O máximo que um professor pode fazer é cumprir sob protesto escrito. Ou muito simplesmente tem um processo disciplinar.


          • Caro Pedro….. não sei se trabalha por conta de outrem, mas é essa a minha situação laboral. Se a empresa onde trabalho emitir uma circular que diga que a partir de agora, no atributo das minhas funções, eu tenho de passar a escrever com linguagem de sms, pr ex axim, pr q as gerxoes + jovens m compreendam, eu tenho duas opções, ou cumpro, ou mudo de trabalho. Presumo que com os professores se passe o mesmo. Cumprem ordens. Na minha empresa, o novo acordo ortográfico já entrou em vigor. Quando escrevo a título profissional uso o novo acordo, quando escrevo a título particular, não uso. Essa coisa de que a constitução é o único documento que regula os nossos actos é muito bonito, mas só serve para emoldurar e pôr na prateleira. Na vida real, como sabemos, as regras são outras.


  11. Reparem que o mostrengo se chama TLEBS e não TGEBS. Isto é: Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário e não Terminologia Gramatical para o Ensino Básico e Secundário. Como se o objectivo fosse formar toda uma nação de filólogos e não uma geração de utilizadores competentes da língua portuguesa.

  12. Filipe says:

    Pois é… Eu amo a Língua Portuguesa. Acontece que está tão doentinha que até dá pêna. Os successivos “desAcordos desOrtográficos têem vindo a detorpar tanto a nossa língua & hôje é um farrapo lingüístico. Tenho 20 annos mas nas minhas coisas escrevo num Português que considero perfeito, com regras rígidas, para não falar de coherência & até um pouco de tradição (mas sempre justificada). A única coisa que os AOs fizeram de bom foi a supressão do PH, porque não faz sentido escrevêr duas letras pâra o som duma só (F) quando não afecta de maneira alguma a pronúncia da palavra – o único argumento que encontrei pâra que antes se escrevessem palavras com PH foi que as palavras eram d’origem grêga, pelo que substituía a letra “fi” (φ)… Ora digam-me lá se fez ou não sentido? De resto, os AOs só serviram para estragar a nossa linda Língua!


  13. Entre outras é «deíctico». O «c» que lá está levou uma vassourada porque resolveram os do Desacordo Ortográfico que se não diz. Não diz?! Se se não dissesse porque o havia deixado o prof. Rebelo Gonçalves em 1945, em contradição com ví(c)tima ou vi(c)tória? Ah!…
    « A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. » — Aha!…
    Cumpts.


  14. É fantástico como perante o verdadeiro inimigo da língua, a TLEBS e antes dela já reinava muito disparate, venha tanta gente bater num erro menor e irrelevante, a ortografia, fora quem aproveita para mandar umas postas de pescada sobre os professores, que não têm qualquer autonomia (e responsabilidade só a de manterem uma Associação que viu na TLEBS uma oportunidade de ganhar dinheiro por conta da formação).
    O que este texto tem de mais brilhante é precisamente apontar o dedo ao problema principal. O que anda a transformar o ensino da língua numa catástrofe é a substituição da gramática por uma pseudo-ciência de tolinhos encartados. Não é de erros ortográficos que ela mais sofre mas sim do caos que reina na sintaxe, até porque a sintaxe fala-se, a ortografia apenas se escreve.


  15. Ah, grande Teolinda Gersão, é por estas e por outras que gosto muito de si e a admiro sem reservas! Eu, que fui professora de Português durante mais de 30 anos e tenho a paixão da nossa língua, também chumbava agora. Já nem me atrevo a tirar dúvidas a um aluno de qualquer ano, pois as minhas dúvidas são maiores do que as deles. Nem sequer consigo ver lógica ou sentido em tudo aquilo. Pertenci a muitos grupos de professores que alertaram para o perigoso caminho por onde estava a ser levado o ensino, em vão. Tivemos sempre consciência de que os interminháveis relatórios que nos pediam sobre a TLEBS e outras teorias afins eram deitados para o lixo, sem sequer serem lidos, porque tudo estava já decidido pelos burocratas eminentes do Ministério. Ainda não percebi o que pensa o Ministro Crato sobre este eduquês!

  16. Patrícia says:

    Depois de ler esta pequena carta pensei para comigo: “tenho de voltar à universidade e aprender tudo de novo.” Afinal com tantas mudanças o que vou eu ensinar? Polaridade?
    Jesus Christ! Acho que vou definitivamente ensinar apenas o Inglês que não tem destas compilicações!

  17. António Fernando Nabais says:

    Se um dos argumentos a favor do Acordo Ortográfico é o de que somos obrigados a utilizá-lo porque tem força de lei, o mesmo se pode dizer acerca da TLEBS, uma vez que os currículos são impostos pelo Ministério da Educação. Esse, no entanto, não é o problema. Há imensos pareceres de especialistas contra ambas as aberrações. Acontece que esses pareceres são, como é costume, ignorados pelo poder executivo. Esses pareceres, para além disso, não são “mediáticos”, como se diz, e, por isso, fica-se com a impressão de que não há contestação. Por outro lado, é verdade que há demasiados professores conformistas.

  18. chatice says:

    Demasiados professores conformistas é o preço de estar empregados e um Governo que não é nosso.


  19. Reblogged this on Firefox contra o Acordo Ortográfico and commented:
    Esta publicação já consta de muitos sítios. Este “reblog” propriamente dito vem do site Aventar.

  20. Pedro Germano says:

    Daqui fala um velho professor que vai morrer com a impressão de ter andado muito errado; não sabe sequer como haverá de falar a S. Miguel (que lhe pesará as boas e más acções) nem a S. Pedro (será que abrirá a porta?). O facto é que tentou aprender e ensinar português e outras línguas mais ou menos estrangeiras, usando critérios de escrita e de análise gramatical que considerava quase como categorias universais!
    No final da sua (dele!) existência, vieram uns/umas senhores/as dizer-lhe que se deveria escrever assim e assado (e não como ele aprendeu pelos já de si complexos acordos ortográficos de 1911 e de 1945) e que a terminologia gramatical teria de ser mudada, tal como uma roupa usada e fora de moda deve ir para o lixo.
    São tantos os ataques ao que julgava adquirido, lógico, transmissível, … que está pior do que os alunos que já esperam um chumbo certo!
    Pudera! Os programas não estão feitos para transmitir a cultura, mas sim para lançar a confusão nas suas pobres cabeças! Se é isso que pretendem, acertaram em cheio!
    Se ao menos lhes (aos alunos) fossem cabalmente explicadas as razões por que tal terminologia deve ser alterada! Admito que muitos dos responsáveis por esta “bagunça” não saibam sequer que o português é uma língua românica (e muito raramente saibam latim) e que a esse nível é que a nossa língua deve ser compreendida, ensinada. (Assim: para que se conheça a composição das enxurradas de palavreados que por aí passam: na enxurrada, vale tudo!)
    Não, para mim, não vale dizer “n’importe quoi”, nem o país deve fazer tábua rasa da sua cultura, do seu passado. Haja um mínimo de respeito! «Um povo sem memória, não existe!»
    Digo claramente que os responsáveis por estas coisas deveriam saber que, além de muitas coisas, não é decente pedir a um idoso que ande a mudar de regras de escrita e de terminologia que nalguns casos já teve de actualizar duas e mais vezes.
    Apetecia por fim citar a letra da antiga canção: «P’ra melhor, está bem, está bem, / P´ra pior, já basta assim!»

  21. José Manuel Ramos da Veiga says:

    Tenho uma neta que vai entrar agora para a Primária. Estou em choque! Tive grandes professores de Português no Alexandre Herculano, apesar de apenas ter tido a disciplina até ao 5.º ano (fim do segundo ciclo), pois a partir daí, como segui a parte de Ciências, não mais tive contacto formativo com a Língua Pátria. Caro e saudoso Sr. João Maria Moreira da Silva, meu Professor Primário. Caros e saudosos Dr.ª Maria Antónia e Dr. Gaspar da Cota. Provavelmente bem inquietos e preocupados com o estado do ensino da língua que amavam e me ensinaram a amar. Apesar de não gostar de o admitir tenho de dar razão a Maria Celeste Pinto não só sobre o que se passa com o ensino do Português mas com o ensino de modo geral. Efectivamente não me recordo de ver o Corpo Docente dos ensinos Básico, Unificado e Complementar, protestar com veemência por causa das condições de trabalho e consequente faltas de respeito a que eram constantemente submetidos, nem reclamar por as “criancinhas, coitadinhas” não deverem ser avaliadas em exames de ciclo. Talvez porque essas avaliações implicavam duma forma indirecta, a sua avaliação. Pelo contrário, ouvi muitas vezes colegas que leccionavam na Universidade do Porto, dizerem que apesar de o número de anos lectivos no “liceu” ser de oito anos, ou seja, mais um que em tempos anteriores, os alunos apareciam cada vez pior preparados…
    Dou toda a razão ao João Abelhudo e à ‘Stora coitada, mas as ‘Storas e ‘Stores actuais têm algumas, não poucas, responsabilidades pelo estado a que se chegou com a TLEBS e a cor do horto gráfico que uns senhores resolveram parir para chatear os ‘Stores, os Joões Abelhudos e todos os que amam a língua Portuguesa.

  22. Alguém says:

    A todos, os que leram e os que NÃO leram o Acordo Ortográfico (AO), vejam esta referência que inclui o texto integral do AO. Chamo especial atenção para os os quatro pareceres de linguistas enviados ao Instituto Camões
    http://www.fcsh.unl.pt/docentes/aemiliano/AOLP90/


  23. Há tempos, depois de ter ouvido o Prof. Marcelo comentar o Acordo Ortográfico (AO) quando um senhor muito importante tinha proibido o seu uso, resolvi escrever ao professor a pedir-lhe que também comentasse esta “nova gramática” (tanto me faz chamar-lhe assim como assado). Pois é, nada aconteceu! Eu não sou uma pessoa muito importante. Eu sou professora de meninos e meninas que gostam de ler e a verdade é que tenho de lhes dizer (não digo ensinar) tudo aquilo que a Teolinda escreveu. Para quê? Para que deixem de gostar de ler?

  24. Nina Torres says:

    “Impor” não tem acento circunflexo, nem nenhum dos verbos derivados de “pôr”. Corrijam lá isso antes que alguém veja 😉

  25. Ana Leitão says:

    Perdão, mas noto que por várias vezes se referem à TLEBS. Pequeno apontamento: a TLEBS foi retirada de cena e o que vigora agora no Novo Programa de Português para o 3º ciclo do Ensino Básico (o menino que escreve não é netinho que ande no secundário, lamento) é, na verdade, o Dicionário Terminológico. E sim, é uma maçada lidar com tantos e por vezes densos conceitos, mas está na mão do professor saber operacionalizá-los e torná-los úteis, dentro da escolha adequada que deverá fazer. Não nos podemos é deixar absorver unicamente por essa componente, caramba! Além do mais, o programa tem outras fragilidades que vão bem além do conhecimento explícito da língua!

  26. Ana Leitão says:

    Quanto ao Novo Acordo, há ali umas coisitas com as quais não consigo atinar: a perda do acento na forma verbal ‘pára’, assim como na 1ª pessoa do plural da 1ª conjugação no pretérito perfeito simples do indicativo (em Portugal estabelecemos efetivamente a distinção na tonicidade da vogal e não somos uma minoria no nosso país), a maioria diz Egipto e não Egito (nem sequer se considera dupla grafia, que absurdo!)… e fico por aqui.

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