Costa está nas minhas mãos?

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Escreverei, um dia, sobre táxis e sobre taxistas e talvez não seja simpático para ninguém, concorrência e políticos incluídos. Para já, declaro apenas que sinto cada vez mais saudades da vírgula ou das vírgulas. Fazes-me falta, vírgula, especialmente quando há vocativos. Eu já sei que Costa está nas minhas mãos, mesmo sabendo que só valho um voto. A vírgula está nas tuas mãos. Usa-a, ó escrevente!

Imagem recortada da primeira página do DN de hoje.

A luta continua, gramática para a rua

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Depois de uma, vem outra. Dizem que o Duarte Marques está de serviço à propaganda do PSD no facebook.

Outra possível explicação: se o BE dá erros (menores) na língua alemã, os alemães do PSD dão erros maiores em português.

O Chimpsky e o Dan

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Depois de Nim Chimpsky ter servido para Herbert Terrace tentar provar que a capacidade de produção de enunciados respeitando regras gramaticais não é um exclusivo dos seres humanos (ao contrário do que muitos pensam, o próprio Terrace já admitiu que os resultados obtidos e publicados deram, afinal, um ‘falso positivo‘), agora surge o babuíno DAN (no artigo do Courrier International, surge ‘Dan’ que, convenhamos, é mais carinhoso: a adopção de maiúsculas em DAN distancia-nos dele, como de certa forma acontecia com o HAL: Heuristically programmed ALgorithmic computer)) como estrela da companhia de projecto chefiado por Jonathan Grainger (numa equipa que conta com, entre outros, o excelente Johannes Ziegler), em que os autores pretendem demonstrar poderem as competências de base para processamento ortográfico na direcção da leitura  ser adquiridas sem a pré-existência de representações linguísticas.

A seguir com atenção.

Acordo Ortográfico: foi você que pediu uma gramática única?

Diz um conhecido aforismo que “uma mentira repetida muitas vezes passa a ser verdade”. Os defensores do chamado acordo ortográfico (AO90), usando de um entusiasmo cabotino, gritam aos quatro ventos que, agora, portugueses e brasileiros podem escrever textos conjuntos, iguaizinhos, mais parecidos que gotas de água: enquanto Jesus multiplicou os peixes, os profetas do AO90 proclamam ter reduzido as ortografias a uma una e única. [Read more…]

Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Teolinda Gersão

Escritora

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso,confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas,mas as ideias são todas deles.

Aqui ficam,e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.

Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa [Read more…]

Para o amigo Carlos Loures: Às voltas com a gramática

Amigo Carlos Loures,

 

O texto que se segue é de um grande amigo meu, Magalhães dos Santos, a quem pedi opinião sobre " A maioria dos comentários revela…(e não revelam)".  Simples curiosidade.

 

934      GRANDE DICIONÁRIO DE DIF1CULDADI~ E SUBTILEZAS

 

 O excomungado, no lance, foi o grande escritor Rodrigues Lo Corte na Aldeia, redigiu:

“Nem é outra cousa os desvarios e desalentos dos que amam.”

O escritor pecou, segundo a Gramática, a qual ensina que ele deveria ter escrito:

‘Nem são outra cousa os desvarios.

Mário Barreto, benemérito gramático brasileiro, foi mais indulgente para com

os pecadores, visto que admitiu a possibilidade do singular, quando no predicado não

entra a palavra coisa. Citou ele um dia o mesmíssimo Rodrigues Lobc ‘Os títulos é coisa conveniente e necessária. . • (‘).

Até aqui, falou a Gramática.

Agora vão falar os escritores, isto é, os pecadores, e eu serei humilde mas sincero advogado.

 

 

Venha em primeiro lugar o grande Mestre da Arte de Dizer e de de Escrever

o glorioso Padre António Vieira. Redigiu assim num dos seus modelares

sermões:

“A morte do Infante, considerada da parte de Deus, foi ciúmes”.~

Isto vem assim mesmo no volume xv, pág. 205 (ed. 1748).

Note-se bem — a morte foi (e não foram) ciúmes.

Distracção pecaminosa! — vociferam os gramáticos julgadores. E eu observo que Mestre António Vieira sempre era muito distraído! Em outro dos seus magistrais Sermões, redigiu outra vez com o verbo no singular, onde a Gramática impõe o plural:

Os mais celebrados montes, que há no mundo, é o monte Olimpo, o monte

Sinal, o monte Tabor e o monte Olivete~ (xv, pág. 110, cd. 1748). Exclamam, agora, alguns gramáticos:

—Isso, agora, já é mania, o emprego do verbo no singular.

Venha, então, outro maníaco (sem ofensa), Mestre Alexandre Herculano, Cartas (11, 250):

O         cânon enfitêutico, o censo, qualquer quota no produto da terra, senhorio directo de um prédio. . . reserva para si. . . é, em rigor a renda de um capital.

Mas, então (objectam-me os puritanos), o senhor quer fazer violência à Gramática? Não se tratará de meros descuidos dos escritores, tal concordância, ou antes, tal discordância do singular, em vez do plural?

 

 

(1)               Cf,, neste mesmo artigo, a alínea 11.

 

 

 

 

 

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Eu sinto as mãos dos gramáticos prestes a agredirem-me, se me atrevo a proferir uma desobediência, mas peço justiça; peço que, antes de me condenarem, vejam não ser eu o desobediente, mas sim a fluência natural de quem fala e escreve.

Aos meus exemplos de Vieira e de Herculano ajuntarei mais dois, registados pelo douto vernaculista Padre Pedro Adrião, no belo livro Tradições Clássicas da Língua Portuguesa.

Ai se lê:

‘Já tudo é cinzas; tudo, destruição.. (De Gonçalves Dias.)

‘Um livro nem sempre é uma obra: as mais das vezes é palavras.,… (Castilho.)

o que indelevelmente diviso na tela do meu espírito é as grandes árvores, as sombras escuras, os penhascos musgosos.. (Camilo.)

Senhores gramáticos: tenham piedade para com os grandes escritores de Portugal. Consintam que, mais uma vez e também neste facto de expressão, o uso seja o inspirador da lei. Permitam que o verbo ser concorde com o sujeito

ou com o nome predicativo (nos casos, mencionados), consoante ao espírito de quem escreve ou fala apeteça uma redacção ou outra, pois tal duplicidade sintáctica é humana, é natural, é psicologicamente necessária.

Evidentemente, a concordância ‘Migalhas é pão” está de acordo com a gramática, e evita a detestável sequência fónica — são pão.

Mas, se Gonçalves Dias escreveu, contra a Gramática, ‘Já tudo é cinzas., escreveu eufonicamente melhor, escreveu expressivamente melhor do que se houvera redigido: Já tudo são cinzas.

Além do ciciar de “são cinzas”, o é tem expressividade. Tudo é só isto:

cinzas.

Quando o genial Camilo escreveu “o que diviso na tela do meu espírito é as grandes árvores, as sombras escuras, os penhascos musgosos”, o Mestre não quis saber da Gramática, e só o Estilo ganhou com isso, pois o é ficou mais intenso (no significado de ser) do que um esbatido e pouco enérgico são.

Não se julgue, aliás, que eu sou apologista daquelas infracções dos Mestres que nada têm a seu favor senão o dormitar natural. Para prova, lembro o que escrevi nos Estudos Vernáculos (pág. 24), ao estudar a linguagem de Camilo:

‘É horas…” Na pág. 7 da Luta de Gigantes aparece a redacção:

‘É já horas de lhe falar de umas paixões do tempo que foi”. Não é para imitar

semelhante construção, visto que a Gramática, neste ponto fidelíssima ao g
n
io da

 

 

            936      GRANDE DICIONÁRIO DE DIFICULDADES E SUBTILEZAS

 

 

língua, determina que se realize, por atracção, a concordância do verbo ser empregado impessoalmente, com o nome predicativo.

Aliás, o próprio Camilo escreveu logo após, na mesmíssima pág. 7:

‘Eram paixões de uma classe.

Portanto:          são já horas, e não ‘é já horas..

No entanto, devo acrescentar a esse meu comentário, de 1930, que estudos posteriores me deixaram esta explicação (de modo nenhum defesa) do erro de Camilo. Ao escrever “é já horas”, o escritor, de certo, tinha em mente ‘é já tempo , e esta influência analógica determinou o lapso.

Em resumo, e a meu ver, tão legítimas devem ser as concordâncias deste tipo assim:

— ‘Os sinos são uma coisa poética e santa.. (Herculano.)

— ‘Eram tudo memórias de alegria.. (Camões.)

— A vida são dois dias (frase de nós todos).

— Migalhas é pão (maneira mais expressiva e gramatical) como legítimas devem ser igualmente consideradas as construções destoutro género sintáctico:

—        ‘A morte foi ciúmes.. (Vieira,)

— Tudo é cinzas.» (Gonçalves Dias.)

— ‘O que nos falta é exemplos. (Camilo.)

E, ainda que os respeitáveis gramáticos não queiram, a não menos respeitável vida da Expressão portuguesa quer, e há-de querer mesmo.

Contra factos teimosos da linguagem de pouco valem argumentos rígidos ou intolerantes da Gramática.

Esta só vence, quando não exorbita. E se exorbita, nem sequer convence, como provam as belas páginas da literatura portuguesa e as bocas populares nas suas dições louçãs. (G. C.).

*

 

 

 

Qual será a frase correcta — ‘Na mina estão soterradas algumas dezenas de operários ou “Na mina estão soterrados algumas dezenas de operários” ?

Consoante já frisei no meu livro intitulada Contra os Gramáticos, há duas espécies de concordâncias — a gramatical e a semiótica, mental ou latente..

Ora, revertendo às frases apresentadas, temos isto:

Concordância semiótica, mental ou latente— “Na mina estão soterrados algumas dezenas de operários”.

A concordância semiótica é, muitas vezes, mais lógica e por isso deve preferir-se, mesmo que a Gramática proteste.

 

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São os operários que, de facto, estão soterrados, e não as dezenas.

Para reforço dou este exemplo:

Comi ontem uma dúzia de carapaus estragados Se inverter, direi — comi, estragados, uma dúzia de carapaus.

Semelhantemente: ‘Aquela dúzia de carapaus estavam estragados’ é concordância semiótica, perfeitamente lógica.

Aliás, já neste Dicionário apresentei a redacção de Frei Luís de Sousa, que é assim: ‘se tirarão um grande número de corpos’, comparável à frase que estou a estudar.

Claro que também, gramaticalmente, se podia redigir— ‘se tirará um grande número de corpos’. Mas Sousa fez a concordância mental— ‘se tirarão um grande número de corpos’.

Nas mesmas condições, temos, repetindo:

Concordância mental ou semiótica — ‘Na mina estão soterrados algumas dezenas de operários.’

A lógica, portanto, explica certas concordâncias semióticas, mentais ou latentes, embora não gramaticais. (P.).