Carnaval em pleno Verão: há um certo PS a disfarçar-se de esquerda

Nesse tratado literário e sociológico intitulado Os Maias, há um episódio em que acompanhamos João da Ega numa visita à redacção do jornal A Tarde, um pasquim com muito de partidário e muito pouco de jornalístico. A dada altura, nesse antro de maledicência, o conde de Gouvarinho, membro do partido a que o jornal estava ligado, é criticado por um correligionário que chama “carola” ao dito Gouvarinho, que teria criticado, no parlamento, uma proposta para introduzir a “ginástica nos colégios”. Neves, o director do jornal, resolve, então, puxar dos galões e dar uma lição de pragmatismo:

– Carola! Vem-nos agora o menino gordo com carola!… o Gouvarinho carola! Está claro que tem toda a orientação moral do século, é um racionalista, um positivista… Mas a questão aqui é a réplica, a táctica parlamentar! Desde que o tipo da maioria vem de lá com a descoberta do trapézio, Gouvarinho amigo, ainda que fosse tão ateu como Renan, zás!, atira-lhe logo para cima com a cruz!… Isto é que a estratégia parlamentar!

Esta concepção da política é terrivelmente intemporal e, portanto actual. Para estes maquiavéis de sempre, a política é jogo, é calculismo, consiste em defender ideias contrárias, conforme se esteja nas bancadas da oposição ou nos cadeirões do poder. Ainda recentemente, Nuno Crato confessou que é diferente ser-se comentador e ser-se ministro, ficando sem se perceber se é aceitável criticar os mega-agrupamentos, como comentador, e, passado um ano, estar pô-los em prática, vestido de ministro.

Está a ser lançado um Congresso Democrático das Alternativas, uma tentativa louvável de unir diferentes forças de esquerda. Não deixa, no entanto, de me espantar que surjam, no meio desta organização, figuras do PS que defenderam pública e entusiasticamente as políticas de Sócrates.

Aceito que se possa acreditar em Sócrates, como aceito que se possa acreditar nas aparições de Fátima. Respeito a fé alheia, desde que não seja calculista, até porque o calculismo me parece contrário à própria fé. Ainda assim, parece-me muito estranho que alguém possa dizer que os dois governos de Sócrates eram de esquerda. Por maioria de razão, parece-me estranhíssimo que cónegos da ordem socrática, como João Galamba ou Sérgio Sousa Pinto, surjam, em menos de um ano, associados à esquerda que renegavam, quando oficiavam no altar da maioria governamental, desejando infernos às mesmas almas perdidas a que hoje se abraçam.

Poderá perguntar-se se não é legítimo as pessoas mudarem de opinião. É, com certeza. Confesso, no entanto, que nunca ouvi (e nunca ouvirei) galambas e sousas pintos anunciarem essa mudança. Estão no seu direito de não renegar e estão no seu direito de declararem o seu esquerdismo, do mesmo modo que qualquer pescador fala de robalos do tamanho de tubarões brancos.

Desconfiado, não por feitio, prevejo que estes novos gouvarinhos, que hoje se sentem tão confortáveis ao lado de bloquistas, comunistas e sindicalistas, voltarão amanhã a render preito a qualquer outra troika.

Para quem tiver paciência, ficam algumas ligações que servem para recordar o período socrático e dois vídeos do tempo em que João Galamba e Sérgio Sousa Pinto declaravam, alto e bom som, tudo aquilo que sentiam. Seja como for, aproveito para declarar que o título dado ao vídeo de Sérgio Sousa Pinto não é da minha responsabilidade.

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Comments


  1. Agora carolas é coisa que não falta em Portugal. Um carola é um grande crânio, exemplos há nos Governos e oposições.

  2. António Gil Cucu says:

    “Não deitemos para as costas do povo a culpa da vitória da direita e da persistente divisão da esquerda. Se a esquerda, quando maioritária, podia ser, devia ser governo e não o foi, a culpa não é de quem teimosamente votou e continua a votar nela. A responsabuilidade cabe às direcções políticas, e se é verdade que nenhuma poderá considerar-se completamente limpa de culpa, desde os esquerdistas ao PS, sem exclusão do PCP, também é certo que ao Partido Socialista vai a mais alta quota de acções divisionistas. O maior adversário da unidade da esquerda foi, e é e continua a ser o Partido Socialista. Desgraçadamente. E agora contra si mesmo virado.”

    José Saramago – Folhas Políticas, crónica “Unir a esquerda, defender a democracia”,
    1 de Novembro de 1980

  3. Pedro Marques says:

    Com simpatia do Mário Soares, está mais que claro que essas duas almas do PS não querem tirar Socialismo algum da Gaveta.

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  1. […] Alternativas, mais uma tentativa de unir a esquerda portuguesa. É da minha vista ou andam por lá alguns membros do Partido Socialista que, há menos de dois anos, andavam a defender José Sócrates? Estarei enganado ou foi José […]


  2. […] a um caldo exclusivamente composto por inveja, caturrice ideológica e resistência endogâmica. Sérgio Sousa Pinto, com a elegância que sempre o caracterizou, chegou mesmo a afirmar que a “universidade, desviada por instantes do negócio dos […]

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