O ano em que encarece a palha

Num país estranho de que me falaram, rapazes de vida airada brincavam até aos 40 anos, aprendiam tudo acerca de intriga, manobrismo e rasteiras nos partidos em que, tendo começado a colar cartazes, acabaram por ser dirigentes, passadeira pela qual chegaram a mandantes. Estudar é que não era com eles e nem mesmo trabalhar, porque para isso estavam aboletados na CP (Casa do Pai). Sabiam vagamente do interior do país e do seu povo por serem dados à grande cidade e às delícias que ela traz a quem não sabe quanto a vida custa a ganhar.
Mas um dia perceberam que, na grande cidade, eram olhados de alto por uns barões e marqueses de muito título e pilim. Mudaram de agulha e resolveram ser como eles. Começaram pelo pilim, pelas negociatas proporcionadas por uns bardinas partidários que sabiam da poda. Quando a carteira engordou, trataram dos títulos: como não era possivel ser barão  ou marquês, mesmo rebentando com o Visa e a conta bancária, porque é aquela chatice de haver neste mundo coisas que não se compram, atiraram-se a ser “dótores”. Sem estudarem, porque eles não tinham pachorra para isso.  Que estudassem outros, uns parvos sem o golpe de asa dos ladinos. E era esse país tão estranho que o puderam fazer na mais estrita legalidade, segundo roncaram os donos das escolas por onde saltaricaram.  É que as leis eram cozinhadas no parlamento, sítio esquisito onde os partidos estavam acampados: por fás e nefás eram todos primos e compadres. Tão esquisito, o tal sítio, que nele pai e filho não podiam parlamentar ao mesmo tempo. É que, se ao pai fosse perguntado o que fazia o filho, não podia o progenitor sujeitar-se à violência da verdade: meu filho deputa.
Enfim, lá se desenrascaram.  Ficaram  todos “dótores” e como eram pategos,sentiram-se realizados.
Dizem as crónicas do tempo nesse país estranho, que o povo, alem  de esfomeado e sem trabalho, se sentia humilhado, envergohado, traído.  Houve gritaria da grossa.  O Carão, indignado, lembrou que, quando ele era novo, chamavam a estes gandulos “os doutores da mula ruça”.  Mas o povo,  mais bruto e mais autêntico,  lavrou para a acta: “com formaturas assim, este é o ano em que encarece a palha”. Que país estranho!  Não sei como acabou esta cégada e gostava de saber.  Se alguém souber, tenha a gentileza de mo dizer.

Comments


  1. bom comentário e bem sibilino…
    como no caso ” de quem fala assim não é gago” pois que “quem assim escreve não é maneta”!
    de tanto ler o Eça o meu amigo muito se assemelha e bem haja por assim escrever!
    gostei e voltarei a gostar certamente pois que jeito como este, não se perde assim…
    um abraço de elogios
    nota de rodapé – vou dizer que o dente de leão no vosso logótipo, me trouxe à leitura do Aventar pois foi na minha meninice quando soube ser o simbolo do Petit Larousse “je seme à tout vent” assunto que me ficou para sempre, eis a razão!
    Quanto ao AVENTAR, gostaria que dissesseis qual dos tres significados é o eleito?

  2. maria celeste ramos says:

    Mas com a seca encarece a palha para os animais – mas para os mandantes a palha é de borla porque “alguém” paga e não lhe são descontados subsídios e ainda nos dão palha – grandes suínos


  3. Abrantes está cada vez mais longe.

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.