A Capela do Silêncio

Ando há procura dele…

Saint-Exupéry…

Não há ninguém que escreva melhor sobre o silêncio.

Hei-de escrever um hino ao silêncio. Tu, músico dos frutos. Tu habitante das adegas (…) vaso de mel da diligência das abelhas. Tu, repouso do mar na plenitude. (…) Silêncio das mulheres (…). Silêncio do homem que se apoia nos cotovelos e reflete e (…) fabrica o suco dos pensamentos. Silêncio que lhe permite conhecer e lhe permite ignorar (…). Silêncio dos próprios pensamentos. (…) Silêncio do coração. Silêncio dos sentidos. Silêncio das palavras interiores, porque é bom que tu encontres Deus (…). Silêncio de Deus qual sono de pastor. (Cidadela, cap. 39)

Saint -Exupéry dizia que somos uma raça tagarela (“raça tagarela dos homens”)!

(Já estou a dispersar. Mas é impossível resistir a este António…)

Mal ele podia imaginar, quando escreveu Cidadela (1948), que em Helsínquia, em pleno séc. XXI, alguém se ia lembrar de construir uma capela do Silêncio! Ou dito de outra forma, o silêncio mereceu uma capela naquela cidade!!

Saint-Exupéry iria gostar desta capela sem santos e sem decoração? Pois eu acho que sim!!

“Embora se chame Capela do Silêncio, não deverá acolher serviços ou cerimónias religiosos. Foi concebida como um local de retiro no espaço urbano. A obra, assinada pelo Mikko Summanen, com 270 metros quadrados, é um exemplo do uso inovador da madeira na arquitectura”. (Público, 10/7)

Este será um espaço para ateus e não ateus, crentes e não crentes. Porque todos procuramos o silêncio, afinal! “Serve ao turista e ao necessitado”- uma ideia muito interessante.

Também é caso para dizer: se o homem da cidade já não procura o silêncio, vem o silêncio à procura do homem.

Comments


  1. Silêncio e um banho de luz…interessantíssimo.
    Quanto aos santos e à decoração, na arquitectura existe um paradigma semelhante ao do ovo _ será que o ovo é a casca ou a clara e gema? E a arquitectura são as paredes/telhados/decorações ou é o espaço interior que criam?


  2. Que post tão aprazível!

    Conhecesse o Homem a eloquência do silêncio, e jamais deixaria de o ouvir!
    Conhecesse o Homem a sabedoria do silêncio, e jamais proferiria uma palavra!
    Conhecesse-se o Homem, e o silêncio seria a sua morada!

  3. Amadeu says:

    No silêncio só ouvimos a nossa consciência.
    E às vezes os gritos são bem altos.

  4. Sónia says:

    Por vezes o silêncio torna-se ensurdecedor, sobretudo quando nos obriga a dialogar connosco próprios (como diz o Amadeu). É por isso que tanta gente detesta o silêncio e não é capaz de estar em lado nenhum sem estar com a tv ligada, música nos ouvidos, etc.
    Eu gosto e preciso de silêncio!

  5. maria celeste ramos says:

    O silêncio é de oiro ??

  6. maria celeste ramos says:

    Há dias estava em lugar público e um casal de 30 anos na mesa ao lado cada um com o seu telemóvel onde escreviam as suas mensagens e liam as recebidas e durante tanto tempo – silêncio e parecendo estar “juntos” estavam num silêncio incomunicável – silêncio vazio – até me incomodou mais do que por vezes o falar alto demais – como este silêncio separa – e recebi um pps com casal a passear a beira mar mais ou menos um para cada lado cada um com o seu telemóvel – que união aquela ?? Aque gestos o homem é conduzido só por ter não um companheiro, mas um telemóvel por companhia distante e invisível – que estranho – devia haver horário para usar telemóvel e com certeza não o usar a conduzir um automóvel que mata onde se mata – nem sequer uso telemóvel e quem quiser encontrar-me sabe onde estou e a que horas – a comunicação incomunicável e Portugal bate record de nº de telemóveis per capita

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