A propósito de teatro: um país desequilibrado

Sou um privilegiado. Desde pequeno, graças aos meus pais, pude ler livros, ouvir e aprender música e ver teatro e cinema. A escola ainda ligeiramente elitista que frequentei desempenhou um papel muito reduzido na aquisição desses privilégios.

Em democracia, a Escola deveria ser uma entidade que desse a todos os jovens a possibilidade de alcançar os conhecimentos ou ter as experiências de que, por razões económicas ou culturais, estariam arredados. O eduquês será, afinal, o resultado de uma generosidade pervertida, um discurso aparentemente sobre Educação, posto ao serviço da propaganda política.

A Escola foi fazendo o seu caminho, com demasiadas “reformas” e carente de verdadeiro investimento. Durante alguns anos, ainda teve condições para se ir aproximando do papel que lhe cabia, com erros e com insuficiências, mas caminhando. Chegados aqui, sete anos depois de Sócrates, há um retrocesso que Nuno Crato acentua, limitando-se a colocar um simulacro de exigência onde, antes, estava o referido eduquês.

Com as alterações curriculares, a criação de mega-agrupamentos e o aumento do número de alunos por turma, entre outros disparates, os alunos terão cada vez mais dificuldades em contactar com áreas tão fundamentais como o Português ou a Matemática, como é o caso das várias artes, preciosas para o desenvolvimento harmonioso de qualquer jovem.

Ontem, pude assistir a duas representações teatrais de gente tão talentosa que só pode constituir excepção. São privilegiados, com pais que tudo fizeram para lhes mostrar que há mais mundos, jovens que puderam frequentar uma das poucas escolas profissionais de teatro do país. Tivessem nascido em zonas carenciadas e não teriam tido o privilégio de poder escolher um caminho que os aproximasse da realização pessoal.

O Estado, demitindo-se da sua função de fiel da balança, limita-se a votar ao abandono as escolas afastadas dos grandes centros ou as famílias arredadas da mera possibilidade de levar os filhos ao teatro. A Escola limitar-se-á a reproduzir, com pouquíssimas alterações, as diferenças socioculturais.

Comments


  1. Concordo com praticamente tudo o que diz, António. Farei apenas um abanar de cabeça, de um lado para o outro, como se em ponderação…
    A verdade é que sempre senti que muito desse dever social-cívico-cultural não será nem critério nem responsabilidade do Estado, per se. Talvez -e repito, talvez- veja mais objectivas ditas responsabilidade por parte de entidades municipais, das quais farão parte não só as Câmara e Juntas, como igualmente a própria escola e as restante entidades culturais: Teatros Municipais, Conservatórios, Universidades, etc.

    Costumo dizer que a nossa Cultura é uma Cultura envelhecida, isto no sentido de apenas ter a companhia de sexagenários quando vou ao Teatro, ou quando me dá para ir ouvir uma orquestra. Perguntando às pessoas se estão interessadas em irem ver uma peça de teatro, ou um concerto clássico, rapidamente se justificam, dizendo não conseguirem ir pois vai haver a inauguração de mais um bar ou uma discoteca “In“.

    No fundo é dessa forma que analiso a cultura; não apenas, nem lá perto, como uma exigência e obrigação estatal, mas sim um acto de responsabilidade própria.

    • António Fernando Nabais says:

      Subscrevo o comentário do Tito Lívio. Acrescento, ainda, que as escolas deveriam estar organizadas de modo a permitir aos jovens contactar com teatro, cinema ou jornalismo (o jornal escolar deveria ser uma actividade obrigatória, por exemplo). Isso obrigaria a não prescindir de recursos humanos e a conceder às escolas créditos de horas, de modo a que estas actividades não dependessem da carolice ou da boa vontade. O objectivo não seria o de obrigar as pessoas a gostarem de teatro ou de artes, mas o de lhes dar a possibilidade de contactar com teatro ou com as artes, tornando mais harmonioso o seu desenvolvimento. Tal como as coisas se passam, as crianças continuam demasiado dependentes do meio em que vivem: assim, um jovem de um bairro difícil terá menos probabilidade de vir a gostar de teatro do que outro nascido num berço mais privilegiado (repito: probabilidade). O Estado, na Educação como no resto, na minha opinião, deve servir de fiel da balança, o que não deve ser confundido com centralismo ou intervencionismo.

  2. Tito Lívio Santos Mota says:

    é evidente que a responsabilidade da educação artística e da descoberta das diversas artes do espetáculo ao vivo são responsabilidade da educação nacional.
    Quer o orçamento venha diretamente do Ministério, quer este venha das Câmaras, a responsabilidade não muda.
    Mudar orçamentos do Estado Central para Municípios também não muda seja o que for em matéria de orçamentos, antes dilui responsabilidades.
    Orçamento vindo do Ministério e usado de forma coordenada com os municípios, nomeadamente através das excementes potencialidades da rede de teatros / cine, talvez seja a solução.

    Em todo o caso o que se constata em Portugal é bem claro : a população que frequenta o teatro e as outras formas de espetáculo ao vivo é demasiado envelhecida. é a geração que herdou essa “educação” no pós-25 de Abril.
    Basta comparar com o que se passa fora da Península Ibérica.


    • Mas lá está, vocês estão a passar um papel de responsabilidade parental ao Estado. O próprio António dizia, e eu igualmente me associo, que houve a sorte dos progenitores criarem condições para haver algum tipo de apego e conhecimento a certas vias culturais como o Teatro, a Revistas, etc.

      É nesse sentido que pretendo fazer a minha argumentação; mais que exigência estatal é, e acaba por ser, uma decisão parental. E dou-vos um exemplo: indo com o meu filho (6 anos) ver uma peça como o “Quebra Nozes” -tipicamente para um público-alvo mais infante- apenas o meu filho lá estava como representante de crianças.

      Como podem então associar tais decisões individuais a programas ou falta de patrocínios e investimentos governativos?

      • António Fernando Nabais says:

        Ou me expliquei mal ou fui mal entendido. O Estado não tem de se substituir à responsabilidade parental. O que se está a defender é que o Estado, através das escolas e/ou com a colaboração das autarquias, possa criar condições para que todos os jovens possam ter a possibilidade de contactar com o teatro, entre outras possibilidades. Pode responder-me que, aparentemente, toda a gente tem a liberdade de ler um livro ou de ir ao teatro, mas isso não é inteiramente verdade: se uma criança nascer numa casa em que nada disso seja valorizado, até podem viver por cima de uma livraria ou ao lado de um teatro. A Escola deve servir para compensar, na medida do possível, aquilo que a família não pode ou não consegue proporcionar. Isso pode ser feito sem gastar muito dinheiro, mas tem de ser feito.


        • Ora essa; compreendi perfeitamente e igualmente se explicou bastante bem, tal qual o Tito Lívio Mota – que até apontou uma solução com a qual penso que todos concordamos.

          O meu continuar a “bater na tecla”.. apenas se deve a fazer uma análise com uma maior cadência de tempo, chamemos-lhe; que acaba por ser: haverá realmente e após o esforço comunitário (apoio camarário, com as restantes entidades culturais e educativas) a iniciativa por parte dos encarregados de educação em fomentar tais interesses?
          Sinceramente, tenho sérias dúvidas. Razão que me levou a dar exemplos e até a fazer menção à “plateia” idosa – que muitos até interpretam com elitista.
          As mentalidades e o desinteresse de uma maioria, demasiadas vezes acabam por ser um entrave inultrapassável.

          • António Fernando Nabais says:

            Nada tenho a opor que haja campanhas e eventos que tentem levar mais pessoas ao teatro. No entanto, o esforço a que me estava a referir deverá ter como público-alvo os jovens e não os encarregados de educação. O objectivo, repito, deveria ser o de procurar que a Escola compensasse, na medida do possível, o desinteresse dos encarregados de educação. De um modo simplista e eventualmente frio, poderia caricaturar: os pais já estão perdidos; tentemos, ao menos, captar os filhos.

          • Tito Lívio Santos Mota says:

            graças à acção desencadeada por Jean Vilar que criou o Festival de Avignon e os Teatros Nacionais na Província e que completaria este ano um século de vida, a frequentação dos teatros franceses foi este ano de 93%.

            O que falta é coragem para começar.

            Criar público é começar por deixar de chamar “elitistas” às pessoas que apreciam arte.
            A arte é como a boa educação, não depende da classe social mas da maneira como nos educam.

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  1. […] a outros oriundos de classes desfavorecidas. Os primeiros foram expostos, desde pequenos, a actividades e bens culturais e perceberam que os pais valorizavam a Educação e a Escola. Os outros, por razões culturais ou […]

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