Antigamente, as pessoas eram menos súbitas

Quando andava a estudar na Universidade (Aveiro), tinha a mania de fotocopiar as páginas mais marcantes de livros que ia descobrindo na maravilhosa biblioteca da instituição e outras municipais…

Hoje encontrei uma cópias de textos avulso. Cópias com mais de 15 anos! Partilho esta jóia de Pedro Alvim, um texto publicado, por certo, no Diário de Lisboa em 11 de Outubro de 1988. Ainda vou confirmar ou talvez o leitor (diga-me se descobrir).

Antigamente, as pessoas eram mais demoradas. Diziam as palavras sílaba a sílaba, sorriam com vírgulas, mostravam nos dentes um ponto de interrogação à laia de uma flor. Quer isto dizer que não faziam uma pergunta exigindo de imediato uma resposta. Esperavam esbeltas no tempo, os olhos isentos de qualquer desafio …

Hoje, não. Hoje não nos sabemos demorar (…) nas margens desta ou daquela situação. 

Se alguém nos acena, quase que não lhe podemos acenar. Se alguém nos mostra um objecto que o deslumbrou, só do objecto conseguimos apreender unicamente o resquício. Se alguém se lamenta de um morto querido, nem o nome do morto nós ouvimos…

(…) perdemos a noção da existência de um tempo descontínuo, de encontros vagarosos, de festa, de entendimento. Vivemos um tempo em linha recta, súbito (…)

Estamos em fuga, ultrapassamos todos os possíveis encontros – e cada vez, embora de muitas coisas acompanhados, nos sentimos mais sós uns dos outros. Sem nos apercebermos, vamos tendo o deserto à nossa frente.

Antigamente, pois, as pessoas eram menos súbitas … e porque eram a noite e o dia, e tinham dentro de si uma longa tarde, lentas se davam, lentas sorriam, e lentas (uma a uma) entardeciam.

Deste texto, descobri um excerto num só blogue.

Pedro Alvim…

Comments


  1. porque partilhamos o gosto da escrita deste poeta/jornalista, aqui lhe deixo uma crónica que dele encontrei: http://apenasmaisum.wordpress.com/2011/01/13/os-mortos-e-os-fosforos/
    Um abraço

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