Um grande texto do grande escritor Mário de Carvalho


Mário de Carvalho, o escritor português vivo que mais habita as minhas estantes, publicou no Facebook um texto sobre a memória e sua ausência. Ali mesmo alguns comentam que isto não era nada assim. A sério. Rui Ramos tem seguidores.

Denegação por Anáfora Merencória

“Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família». Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça». Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo; Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar». Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim. Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai. Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal. Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intréprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua. Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas, nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio. Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão. Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina. Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais. Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado. Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos. Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde. Eu nunca tive o meu telefone vigiado. Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro. Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer; Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche. Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país. Eu nunca vivi num regime de partido único. Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.

*Publicado hoje na sua página do Facebook.

Sobre João José Cardoso

Comments

  1. Em nome da memória, da verdade e do sentido crítico, é verdade que me lembro de muito do que aqui se diz, nomeadamente a saudação romana aos professores e à bandeira, ao 10 de Junho e à ordem unida manhãs inteiras de Sábado. Outras não me lembro porque não as vivenciei. Quanto ao racismo nunca o vi escrito em lado nenhum, pelo contrário, vi livros escolares com imagens de casais mistos (bem sei que Salazar os tratava por pretinhos). O dia da raça tem um significado diferente da raça como etnia, e devia sabê-lo (faz-se esquecido porque lhe convém). O Brasil chegou também a celebrar um dia da raça. O que é que isto acrescenta ou diminui à análise de RR no seu livro de história, não consigo perceber. Tudo me parece simplesmente um ataque a alguém que gosta de pensar e reflectir. Como se nós tivéssemos agora que criticar e reduzir a revolução francesa aos desmandos do reino do terror, a que nem Lavoisier escapou, e ao julgamento fantoche de uma mulher que nasceu no sítio e tempo errado, ou criticar o ancien regime com base na frase da rainha que mandava os pobres comerem brioches.
    O salazarismo foi mau, foi terrível para Portugal e para os portugueses. Ao historiador cabe analisar esse período da história e tentar não fazê-lo só por julgamentos morais. Julgo que foi o que RR fez.
    Quando o turco esfolou vivo o emissário de Veneza, fê-lo por sadismo ou porque era assim que as coisas funcionavam no seu tempo e as circusntâncias o exigiam? É isso que o historiador tem de saber interpretar.
    E grande parte do que se diz no post que se fazia ( e fazia), deixou-se de fazer depois que o salazarismo ruiu? Se não desapareceu não significará que isso nada tem a ver com o salazarismo mas com a forma como todos lidamos com as coisas? E não será legítimo e benéfico reflectir nisso sem estar constantemente a usar o bode expiatório do salazarismo?

  2. “Ao historiador cabe analisar esse período da história e tentar não fazê-lo só por julgamentos morais” – inteiramente de acordo. Foi exactamente o que RR nunca fez, seja em relação à monarquia constitucional, seja em relação à I República. Fingiu fazê-lo em relação ao Estado Novo, sem grande sucesso.
    Quanto ao racismo basta pensar na legislação colonial em matéria de cidadania, de 1ª, de 2ª e de 3ª.

    • Sem dúvida que houve tal legislação. Mas julgo que o mesmo estado novo a revogou (não tenho a certeza). Quanto à tal lei de cidadania julgo que também afectava os brancos nascidos nas colónias, logo não se baseava numa questão de raça. E com isto não pretendo dizer que o estado novo não era racista. Era-o na medida em que as pessoas o eram. Mas não o era do ponto de vista legal. Basta ver as capas de alguns livros com os lusitos negros e brancos lado a lado. Mas parece-me que toda este ataque a RR indicia que se a direita não está preparada para debates desapaixonados, a esquerda não o está mais, muito pelo contrário. E isso é estúpido pois não se analisa de facto o que está mal nas sociedade. Por exemplo não se analisa porque razão a maioria do povo estava com Salazar, como esteve com Mussolini e com Hitler e com D. Miguel. Ou preferem dizer que não, que isso é mentira, em vez de analisar porque razão tal aconteceu e que há um sério risco que volte a acontecer?

  3. Será que posso colocar uma questão? Eu sei que é ignorância da minha parte, mas a História não é uma ciência exacta, pois não? Não depende ela da interpretação dada por cada historiador? E não será cada interpretação o fruto do condicionamento pessoal, social e político do historiador?

    • Sim, é isso. Não há História “isenta”. Quando alguém, como é o caso, se apresenta como tal, obviamente que traz água no bico.

      • O que quer dizer, então, que ambos os historiadores em questão estão apenas a querer “chegar a brasa à sua sardinha”!

        • Não, quer dizer que RR está a vender gato por lebre. E que os seus amigos acham isso inatacável.
          Naturalmente que outros historiadores o criticam, mas isso faz parte do ofício.

          • Pois, mas se esse RR tem um condicionamento de direita, jamais vai admitir estar errado. Por sua vez o ML, que creio ter um condicionamento de esquerda, jamais vai estar de acordo com alguma coisa que o outro diga!

            Sabe que mais, caro João José, quer-me cá parecer que a esgrima deles não é propriamente por rigor mas por protagonismo!

          • Isso não é assim. Uma coisa é a suposta isenção, outra a ciência. Nesta discussão de um lado estão historiadores que têm argumentado de acordo com os procedimentos científicos habituais, e do outro está quem nem sequer lhes responde, excepto para insultar. De notar que do lado do Rui Ramos, e descontando os restantes autores da obra que não são da área da História Contemporânea, ainda não li nenhum especialista a defendê-lo.

          • Compreendo! Parece ser então que esse RR está a ter um comportamento muito recorrente nas atitudes prepotentes e ditatoriais: é o “quero, posso e mando”, mas na hora da verdade recusa a argumentação e “foge com o rabinho à seringa”!

  4. Ó João José, saberá dizer-me como e por quem é feita a selecção do(s) historiador(es) a usar na disciplina de História nos vários níveis de ensino?

  5. Não há “historiadores” seleccionados por esse lado, o programa no essencial tem uns 30 anos. Há é manuais, mas isso cada escola escolhe os seus.

  6. Bem, por um lado fico descansada; é o lado em que o governo não “sugere” a linha a seguir. Mas por outro lado, um programa com 30 anos não estará algo caduco? Sim, porque entretanto poderá ter-se chegado, fruto de investigações, consensos e até aparecimento de novos dados, a outras conclusões. Ou estarei errada?

    É que até hoje, com este seu post, nunca tinha pensado nas implicações daquilo que se ensina às crianças e aos jovens; e eu acho que são muitas se não existir sensatez nas escolhas que se fazem.

  7. Magalhães says:

    Pode parecer mentira, mas eu frequentei a escola primária na totalidade, na era Salazar, nunca ouvi falar em Mocidade Portuguesa, não conheci a farda, nem sabia de tal coisa, talvez por se tratar de um meio rural, a única coisa que me lembro era rezar no início da aula, mas não com todas as professoras, e por vezes cantar o hino nacional.

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