Os ibéricos, esses malandros

12junho1985_assinatura_tratado_adesao_pt

(c) Parlamento Europeu
Mário Soares, Rui Machete, Jaime Gama e Ernâni Lopes assinam o tratado de adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia

12 de Junho de 1985: após oito anos de negociações, Portugal assinava o tratado de adesão que o colocaria em 1986 no clube dos consumidores europeus e grandes exportadores mundiais, então 320 milhões de indivíduos. A Europa dos ricos alargava as suas fronteiras aos pobres e recebia de uma assentada três milhões suplementares de desempregados. Jacques Delors celebrava o esforço comum empreendido em favor de «um mesmo ideal [que serviria] para reforçar as nossas economias, confortar as nossas democracias e partilhar as nossas culturas.» E foi assim, a imaginar que estávamos num clube filantrópico de amigos beneméritos, que deixámos a corrupção de sempre (a do sistema de poderes de tráficos e influências que prossegue minando de injustiça e imoralidade a vida dos cidadãos) tomar conta do Estado democrático.No entanto, a França dos franceses olhava com desconfiança para as fraquezas das economias portuguesa e espanhola, embora esperando que o dinamismo daquelas dos países mais ricos pudesse compensar aquilo que, com prudente e tímido optimismo, encaravam como um negócio arriscado. Já os alemães, consideravam os ibéricos (designação dos franceses) demasiado gulosos – talvez por lhes ter cabido a eles abrir os cordões à bolsa para beneficio dos portugueses. A Espanha aceitava reduzir a sua frota pesqueira, a França abria as suas águas aos espanhóis e faria tudo o que pudesse para calar os agricultores em fúria no sul do país.

Afinal, sempre eram 49 milhões de novos consumidores, que então comiam paelha e bacalhau mas que depressa aprenderiam a apreciar os queijos e as carnes francesas, ajudando pela mesma ocasião a escoar os excedentes franceses em cereais, leite e açucar. Assim mesmo explicavam os jornalistas radiofónicos franceses, em tom desconfiado e gozão, revelando a perplexidade dos que não compreendiam o que iria a Comunidade Económica Europeia (e sobretudo a França) ganhar ao certo com a adesão dos miseráveis e atrasados portugueses.

Está bem que Portugal ganharia estabilidade económica, o que favoreceria a democracia, e que a Europa ganharia a América de língua espanhola e a África de língua portuguesa. Mas… os portugueses que ainda ontem andavam ao gamanço do bacalhau nas águas da Terra Nova para dar de comer aos filhos e que ainda tinham uma data de estradas para fazer e tantas outras infraestruturas para construir, aguentariam eles o embate da entrada no maravilhoso mundo competitivo da guerra económica? Os franceses duvidavam.

Quanto à Grécia, cuja adesão amortecera e servira de treino aos franceses e aos alemães para a chegada dos portugueses e dos espanhóis, recebia indemnizações compensatórias pelas consequências da chegada ao mercado comum dos agricultores portugueses e espanhóis. Apesar dos discursos de propaganda que preconizavam o reforço dos elos políticos entre os países, na agenda das prioridades dos líderes da UE um único tema dominava: a moeda única. Era preciso tratar disso o mais depressa possível.

Entrevistado para uma rádio francesa, Mário Soares explicava ser aquele «um grande momento de alegria pessoal porque [ele] próprio [estivera] ligado desde o início ao processo, mas sobretudo um grande momento de felicidade para os portugueses, pois o povo português defend[ia] a integração do seu país na Europa. Medo da concorrência económica? Bem, [era] um grande desafio, o desafio europeu, mas esse choque europeu era necessário para a modernização da economia portuguesa. Se nos [arriscávamos] a que [fosse] demasiado violento? Talvez, mas nós [estávamos] habituados a essas coisas violentas, [tínhamos feito sozinhos] uma descolonização (…). Em termos económicos representa[va] a satisfação do contexto democrático pluralista ocidental, o que, para um país que [estivera] debaixo de uma ditadura durante 50 anos, [era] algo muito importante.» [Mais aqui].

Comments

  1. Devemos muito ao “bochechas”, sim… A avo dele e que nao devia ter parido…

  2. maria celeste ramos says:

    Foi o pior que podia ter sucedido – perdeu-se tudo a pouco e pouco – a agricultura e pescas e todas as formas de soberania
    alguém se abotoou com o dineiro que foram milhões e portrugal só empobreceu e agora vende o resto aos vampiros e ninguém melhorou em nada excepto os que roubaram – e europa não é união – é só predadora – sempre foi depois de ter desruido em duas guerras tem agora a guerra dos PIGS depois de terem comido o presunto

  3. maria celeste ramos says:

    Prémio Manuem ntónio da Mora um idiota que está na RTPInformção – 08:40 a querer que os velhos tenham envel«hecimento activo – o cabrão não acha que não fazer nada e tratar dos netos é bom para quem fez este país que com genmte desta se tornou um monste de merda e de erdosos que nem as ruas lavam – lixaram a Saúde e o Ensino que eram fantásticos – mandam agora pos merdosos que se preocupam que os velhos trabalhem mas deixa-os morrer sozinhos e pôdres +porque só vê o trabalg«ho e não outras fomas de viver com alegria que h+a muitas – o trabalg«ho dele é mandar os velhos trabalhar – é mesmo puta

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  1. […] Que uma Europa unida que serviu para destruir a indústria, a agricultura, as pescas, e para transfo…. […]

  2. […] desafio, choque, e fé – o PS tinha fé na CEE. Por fim, a CEE (a UE, vai tudo dar ao mesmo, à mesma Europa sem um programa político) era para o PS, na súmula que nada significava a não ser a ruína certa daí a uns anos, “a […]

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