Acordo ortográfico: consoantes mudas, etimologia e outras coisas úteis e agradáveis

NAO2cÉ frequente, nas minhas aulas, devido à deformação clássica a que fui sujeito, explicar o significado de palavras e as relações entre elas, recorrendo à etimologia. Assim, vem sempre a propósito lembrar que a origem do verbo “recordar” está na palavra latina que significa coração (cor, cordis). Para muitos povos antigos, o centro das recordações residia nesse órgão, pelo que lembrar algo era, para eles, o mesmo que voltar a passar pelo coração, re-cord-ar.

A partir daí, há um festim de cruzamentos e alguns alunos, finalmente, percebem donde vem a expressão “saber de cor” e torna-se fácil levá-los a perceber, afinal, a origem e, portanto, o significado de tantas palavras, como “cordial” ou “cordato”. A próprio palavra inglesa record ganha um outro sentido, que é, no fundo, o verdadeiro. Pelo meio, ainda contactam com o Outro presente nas civilizações antigas, num exercício que, partindo do estranhamento, pode ser um caminho para a tolerância

De uma assentada, um breve passeio pela etimologia permite a qualquer jovem conhecer melhor a língua materna, integrando nesse conhecimento a noção de que essa mesma língua tem, integra e actualiza um passado.

Estas breves reflexões surgiram-me a propósito de um vídeo em que se explica por que razão a ortografia inglesa mantém – ó sacrilégio! – consoantes que não se pronunciam, dando como exemplo o B de “doubt”. Vale a pena ver e correr o risco de aprender que a ortografia é muito mais do que um conjunto de representações de sons, tal como o coração é muito mais do que um músculo.

Vídeo encontrado no facebook do Victor Santos Carvalho

Comments

  1. E julgo que não será de todo despropositado recordar que saber de cor é, em inglês, to know by heart.

  2. Sarah Adamopoulos says:

    E no entanto, os brasileiros usam o verbo lembrar (tá lembrado, cara?), e recordação acho que só para designar um recuerdo comprado na tenda dos souvenirs. É isso mesmo, as palavras transportam a história e a identidade dos povos. É também por isso que o AO não serve, porque atenta contra essa memória, decretando novas formas gráficas para o que o uso da Língua (e designadamente pelos seus escreventes chamados escritores, nessa cartilha identitária chamada literatura) não consagrou.

    • sinaizdefumo says:

      youtubar “Ainda me recordo” (Pixinguinha), “Eu me recordo” (Roberto Carlos)…

    • Sarah, o seu raciocínio não se aplica a este caso (para além do exemplo concreto também não se aplicar, como se vê pelo comentário acima).

      Repare que a existência de uniformidade ortográfica não necessita que exista uniformidade de léxico, nem tão pouco de pronúncia.
      Sugiro-lhe que veja as enormes diferenças de léxico e pronúncia ente o francês de norte de França, do Quebec, ou do sul de França. E, por isso mesmo, a unidade ortográfica é importante porque é o principal fator de unidade nas Línguas internacionais.

      • António Fernando Nabais says:

        Não partilho a ideia de ser necessária unidade ortográfica para que haja unidade nas línguas internacionais (basta ver as diferenças entre a ortografia inglesa e a ortografia americana). Mesmo acreditando que é possível ou necessário criar uma uniformização ortográfica, é absurdo tentar encontrá-la com base na pronúncia, para além de que as diferenças lexicais são tantas que as edições de livros, por exemplo, terão de continuar a ser diferentes. Finalmente, há outro pormenor: o AO90 não criou unidade ortográfica (para além das aproximações, mantêm-se registo/registro ou omnisciente/onisciente e surgiram pares como recepção/receção ou concepção/conceção).

        • Nabais, obrigado por “partilhar” que “não partilha”.
          Agora vá explicar isso, por exemplo, aos países de língua espanhola (dê uma olhada na web da associação da academias de língua espanhola)
          Diz-nos que há léxico que continua a ser diferentes em Portugal e no Brasil. Em todas as linguas internacionais isso acontece, e até acontece em Portugal. Essa é uma razão para cultivar a unidade ortográfica.

  3. sinaizdefumo says:

    questão de leigo na matéria: está certo, mas por que é que as mutações ortográficas do passado são boas e as que se fizerem agora são más; ora, o que falta para aí são pês e agás esquecidos, ésses por zês, éfes por pêagás, ãos por ons, etc. etc. etc.

    • Em cheio na “mouche”.
      Agora só falta você ensaiar a resposta; dou-lhe uma dica: “ódio de invejosos ao Brasil”.

      • António Fernando Nabais says:

        Claro, Silva: as pessoas escrevem sobre a importância da etimologia, sobre o ridículo da subserviência acrítica, sobre as inconsistências do AO90, porque odeiam e invejam o Brasil. Vá lá que, hoje, soube, ainda assim, manter elevação no debate. De qualquer modo, não consegue livrar-se dessa ganga do ódio ao Brasil ou de outros processos de intenções, que é tão lateral ao debate como os dislates dos anti-acordistas que alegam que devia ser o Brasil a sujeitar-se aos nosso ditames, porque a língua partiu daqui.

        • Nabais, não houve subserviência ao Brasil.
          O AO faz agora o que devia ter feito há 100 anos, aquando da reforma de 1911, isto é:
          -se se simplifica a etimologia eliminando consoantes mudas, então simplifica-se usando sempre o mesmo critério, ao contrário do que aconteceu em 1911;
          – se se usam diacríticos em Portugal para assinalar tonicidade excecional nas pronúncias portuguesas em algumas átonas, então usa-se esse critério para todas as átonas (o acento “`”), e não apenas para algumas, enquanto outras ficaram seguidas de uma muda etimológica
          – a LP é um bem partilhado, pelo que não podem haver reformas unilaterais, como aconteceu em 1911.

          E quem não consegue livrar-se da ganga do ódio ao Brasil são vcs.

          • António Fernando Nabais says:

            E, entre outros disparates, enquanto se eliminam consoantes mudas, criam-se diferenças que não existiam, como recepção (Brasil) e receção (Portugal). Brilhante!
            Realmente, exprimi-me mal: ao querer aconselhá-lo a livrar-se dessa mania de confundir anti-acordismo com ódio ao Brasil escrevi uma frase que significa que o Silva odiaria o Brasil. Foi um erro involuntário, porque, ao contrário de si, não perco tempo a adivinhar aquilo que as pessoas sentem ou pensam, procurando limitar-me a debater o AO90.

          • Nabais, quando fala no aparecimento um número ínfimo de palavras que se escreviam de forma igual em Pt e no Br, esquece que cerca de 10000 palavras em Pt passaram a ter ortografia igual à do Br. Agora é só fazer as contas para ver o resultado.
            Como lhe disse não sei quando, se as ortografias portuguesa e brasileira não tivessem sido quase uniformizadas, não veria um certo tipo de gente com ataques de histeria e de cabeça completamente perdida.

  4. Excelente post. O que os proponentes -e aceitantes- do AO conseguiram foi privarem uma ou duas gerações de usarem apropriadamente as palavras, como bem explica neste post.
    Privados do prazer de saborear as palavras e de uma consequente base cultural.
    Como é que fulanos de aquele calibre chegam ao poder?.

  5. É tão bom entender a língua. Conhecer a origem das palavras.

  6. Fiquei encantado com a sua “aula”.
    Por outras aguardo. Com um abraço.

  7. As consoantes “mudas” são como os sons inaudíveis: não se ouvem, mas mantêm a harmonia dos acordes musicais.

  8. João Lopes says:

    Não entendo, (entre muitos outros exemplos) porque o NAO (desacordo) preconiza a queda da letra “p” de Egipto, se todas as restantes palavras relacionadas a mantêm. Essa alteração afastam-nos das restantes línguas europeias em que a palavra se escreve de raiz com essa consoante.

    • Não entente, mas vai ver que é fácil de entender.
      “Egito” escreve-se sem “p” mudo e “egípcio” escreve-se com “p” pronunciado pela mesma razão que “dicção” se escreve com “c” pronunciado etimológico e “ditado” e “dicionário” se escrevem sem “c” mudo, apesar da raiz etimológica latina. (notar que antes de 1911 se escrevia diccionario / dictado).

      Há diversos exemplos desta caraterística da ortografia portuguesa.

      Mas já que estamos a falar de gentílicos, temos ainda os casos “Chipre” (cedência fonética) e “cipriota” (mais próximo da raiz etimológica), assim como “Guimarães” / “vimaranense”.

      Portanto, como certamente já compreendeu, a legitimidade ortográfica do par “Egito/egípcio” é a mesma (entre outros muitos exemplos possíveis) dos pares “Chipre/cipriota”, “Guimarães/vimaranense”, “dicção/dicionário”. Se estes últimos estão consagrados na tal ortografia “perfeita” e “imutávei” de 1945, qual o problema em acrescentar mais um caso absolutamente idêntico à “imutável perfeição”?

      • Qual o problema? Caetano Veloso diz que “Narciso acha feio o que não é espelho e à mente apavora o que ainda não é mesmo velho”. Será isso?

        • Talvez seja isso, sim.
          Vamos então esperar que quem agora acha mal daqui a um par de anos diga que não se mexe em “egito/egípcio” pela mesma razão que não se mexe “guimarães/vimaranense” ou “chipre/cipriota”, i.e., não se mexe em ortografias estabilizadas.

          Aliás, este é mesmo o meu argumento “desacordista” preferido, tanto assim que já o comecei a usar.
          Quando alguém me diz para voltar a escrever “actuar” em vez de “atuar”, eu respondo que seria o mesmo que voltar a escreve “escripta” em vez de “escrita”. Ora, se ninguém quer andar para trás e escrever “escripta” em vez de “escrita”, porque é que alguém haveria de querer andar para trás escrevendo “actuar” em vez de “atuar”?

          E se alguém tem dúvidas se está a dar erros de ortografia, é só seguir os sublinhados a vermelho do corretor de texto do Aventar e reparar que “escripta” e “actuar” estão sublinhados a vermelho (erro ortográfico). Depois é só escrever em português correto (“escrita” e “atuar”) e já não dá erro.

          • dina santos says:

            é triste não perceberem o erro de cortar certas consoantes mudas como o “c” do tecto da casa que sem essa letra se vai confundir com o teto da vaca, isto para não falar do arquitecto que, no meu ver, se perde o “c” tem que levar um assento (´) porque senão o “e” fica fechado. E ainda pior é tirarem o assento ao “pára”, expliquem-me como se distingue do “para”.
            EU VOU CONTINUAR A ESCREVER COMO APRENDI PORQUE ESTAS PARVOÍCES NÃO SE COMPARAM, NEM DE LONGE NEM DE PERTO, COM SUBSTITUIR O “PH” PELO “F” (E É MESMO PELO E NÃO PÊLO.

      • António Fernando Nabais says:

        Exactamente. Se já foram cometidos erros, por que razão não deveremos multiplicá-los? Se as anteriores reformas ortográficas deram origem a incongruências, por que diabo devíamos limitar a criação de mais incongruências? Se ninguém disse que a ortografia de 1945 era imutável e perfeita, o que impede o Silva de afirmar que alguém disso que a ortografia de 1945 é imutável e perfeita?

        • Nabais, não foram cometidos erros. A ortografia etimológica simplificada adotada em 1911 tem, entre outras essa consequência, logo, confere essa caraterística à nossa ortografia.
          Acresce que muitas destas discrepâncias antecedem a reforma de 1911, vêm do tempo da ortografia clássica (ou pseudo clásslica, como alguns preferem). E isto reforça que estas discrepâncias não são erros, são um traço de identitário e evolutivo da fonética da nossa Língua que se reflete na ortografia.

          • António Fernando Nabais says:

            Erro, na medida em que correspondem a opções erradas, porque aumentam o ruído na comunicação. O facto de haver gentílicos cuja relação com o topónimo se perdeu não é razão suficiente para quebrar essa relação em mais casos. Relativamente às relações entre fonética e ortografia, voltamos ao mesmo: como se pode uniformizar com base naquilo que é diferente?

          • Nabais, vc pergunta “como se pode uniformizar com base naquilo que é diferente”.
            Resposta: é para isso que a ortografia serve. Em Portugal dizermos a palavra “aldeia” com três pronúncias diferentes, você queria que escrevêssemos com três ortografias diferentes? Não pode ser, não é?

          • António Fernando Nabais says:

            Entretanto, o AO90, ao adoptar um critério uniforme (o que não se pronuncia não se escreve), criou diferenças que não existiam, certo? É a isso que me refiro, quando afirmo que não se pode uniformizar com base naquilo que é diferente. Assim, querer basear um acordo ortográfico com base na pronúncia, que é diferente nos vários países, só pode resultar em ortografias diferentes, como recepção/receção ou sinónimo/sinônimo. Vou dizer-lhe qual é o ponto comum entre os vários países lusófonos: a etimologia.

          • Quanto a não poder escrever-se da mesma forma o que tem pronúncia diferente, está enganado, porque é precisamente para isso que serve a ortografia.
            Basta pensar na diversidade de pronúncias que temos em Portugal apesar de haver uma só ortografia.

          • António Fernando Nabais says:

            Há aí alguma confusão: é claro que se pode escrever da mesma forma o que tem pronúncia diferente e isso já acontecia. É impossível, no entanto, criar uniformização ortográfica usando como base a pronúncia, como é óbvio.

  9. Vídeo apontado por Teresa Moscoso (https://www.facebook.com/teresa.lima) em comentário escrito em 11.01.13 no mural da ILC (https://www.facebook.com/ILCAO90/posts/367356263360281?comment_id=1997888&offset=0&total_comments=6)

    • António Fernando Nabais says:

      Não me apercebi desse comentário e, por isso, indiquei o mural que mo deu a conhecer. De qualquer modo, agradeço o reparo.

  10. Rui Miguel Duarte says:

    Excelente. Sou mal formado na mesma forja do António F. Nabais. E é impossível que a língua para nós seja um mero significante (imperfeito) gráfico, visual, de um outro significante (fónico). E então quando entramos nos alófones estamos com verdadeiros problemas…
    Alguma vez, aliás, a escrita foi isso, ou só isso? Vá-se à escrita ideográfica! E mesmo a fenícia, dita primeira alfabética, contém letras que remetem para referentes: o alef (cabeça de boi), o bet (casa)… A escrita é uma outra coisa, um mistério, e a porta e a chave para esse mistério.
    Porque não foi Malaca Casteleiro et alii a Israel, explicar aos Judeus que o alef, o ayin, por vezes o het final não servem para nada, pois não se correspondem a nada fónico? Ou o schwa?

  11. Dfgtr says:

    A mutilação das muito impropriamente chamadas “consoantes mudas” é coisa do Brasil e de Portugal, apenas. Ambos os países são vergonhosos exemplos de alfabetização e iliteracia.

    • Na verdade, não. Ficando-nos pelas ortografias ocidentais, a simplificação etimologia é uma caraterísticas de todas elas, ainda que em graus diferenciados, exceto o inglês e, em menor grau, o francês.

  12. Parabéns por mais este belo texto, António Fernando Nabais!
    Simples, singelo, linear, como as mais elegantes “demonstrações matemáticas” das coisas evidentes e apriorísticas, para desmontar as falácias que pretendem contornar o que é empírico, e assim (aparentemente) deixa de o ser. E assim para desespero dos que entretêm os seus (limitados) recursos intelectuais a construir falsos silogismos para confundir os distraídos, displicentes, ignorantes… E assim, também e obrigatoriamente, ACORDADO, lúcido, consciente portador do CORDÃO umbilical que nos liga à língua materna, ou seja, com o coração, de todo o coração, como é timbre da “inteligência” e não da mera “esperteza”.
    Vivam as palavras vivas! Grande abraço :)))

  13. Um pequeno acréscimo, relativamente a consoantes mudas no Inglês… O Grego “Gn”, da “Gnose”, “coGnição, etc. foi transposto para o Inglês com o “Kn” em que o “K” é… mudo, mas preserva o vínculo etimológico (tal como sucede em “douBt” em relação com a raiz latina): “Know”, “Knowledge”, “unKnown”, etc… Q.E.D.

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