E se os filhos de Mota Soares lhe fossem retirados para adopção?

À partida, declaro que votei a favor da IVG. Tratou-se de decisão, aliás, em que tive em grande conta a opinião dominante e sustentada de mulheres da minha família, de outras de relações de amizade pessoal ou de carácter profissional. Na maioria, jovens.    

Recusei, pois, encarar o aborto como tema da velha clivagem ‘esquerda-direita’. Entendi-o como questão fundamentalmente feminina, subordinada à visão, condições e princípios com que cada mulher se orienta nas grandes opções da vida.

Conceder às mulheres o direito de opção do aborto é, entendo também, uma questão de cidadania. Impor-lhes, de forma institucional e autoritária, a obrigação de abortar ou parir é acto de violência contra a liberdade individual feminina.

Tenho a convicção de que este governo, estruturado e vocacionado para a tecnocracia dos números, seja destituído de qualquer sensibilidade humana. Consequentemente, minimizar o número de nados-vivos e incrementar a morte de idosos – os dados da PORDATA, a qualquer instante, comprovam estar Portugal nesse caminho – são factores de facilitação das metas do dos ideais financeiros do OGE: um Estado Social mínimo ou, se possível, dizimado.

Com efeito, a meu ver, reside nesta obsessão financeira do ultraneoliberalíssimo a raiz de ferozes ataques do ISS – Instituto da Segurança Social, complementados pelo ineficiente e funesto ‘sistema judicial português’. O caso da cabo-verdiana Liliana Melo é dos exemplos mais repugnantes em termos do recurso a métodos de profunda desumanidade.

Todavia, a despeito da reprovação da opinião pública em relação a este caso e à intervenção do PM de Cabo Verde,  as “assistentes sociopatas’ do ISS persistiram no crime de impor o aborto e a laqueação das trompas a jovens grávidas.

Entretanto, em momento de rara clarividência, as chefias do Ministério da Segurança Social ordenaram que as associações representativas fossem ouvidas, tendo-lhes sido pedida a indicação das jovens a quem foi ordenado que abortassem e se submetessem à laqueação.

Algo se passou na cabeça do topo do ministério. Mota Soares terá tomado consciência de que até a China já decidiu pôr termo a tais práticas? Ou terá ficado perturbado apenas com a ideia de que lhe poderiam retirar também os dois filhos para adopção?

Vivemos no Pais de muitas interrogações e poucas respostas do governo – e quando este responde normalmente mente.

Comments

  1. Nuno says:

    Pois eu cá respeito muito a liberdade das pessoas querem ter filhos desde que tenham todas as condições para isso (incluindo as financeiras e afectivas) mas tenho ainda mais respeito pelos direitos de qualquer criança que venha a ser posta no mundo, de ter uma família que seja responsável o suficiente para colocar os interesses do filhos acima dos seus. Isto inclui (mas não se basta só por si), não sujeitar as crianças a situações de negligência (que não são mais do que maus-tratos) física, afectiva, educacional ou mesmo financeira. Quem sabe que não pode assegurar estas condições aos seus filhos e mesmo assim insiste em tê-los, acaba por causar-lhes sofrimento e comprometer o seu desenvolvimento. É alguém irresponsável e mais consciente ou menos consciente disso está a ser mau e egoísta. Acho bem então que às pessoas que não sabem ou que não querem limitar a sua liberdade de reprodução quando esta entra em choque com os direitos mais básicos das crianças, a restante sociedade se encarregue de lhes limitar essa liberdade por elas. Tal e qual como se limita a liberdade das pessoas depois de elas cometerem um qualquer crime… Quanto ao Mota Soares, independentemente de ideologias partidárias e sendo ele uma pessoa bem formada não vejo porque é que ele havia de passar por cima dos direitos de quem não pede para vir ao mundo para defender progenitores cruéis…

    PS: Agora só espero é não ser censurado…


  2. As condições materiais que hoje as pessoas consideram indispensáveis para terem filhos não as tinham as nossas avós.
    Hoje consideramos que não se pode viver sem condições que a minha avó nem sonhava poder existirem.

    • Nuno says:

      É verdade. E as condições que se exigirão aos nossos filhos para que criem os nossos netos também serão mais exigentes do que as que nos exigem a nós para criar os nossos filhos. Não vejo nenhum mal nisso. Pelo contrário…

  3. Jacquerie says:

    Eu, que sou contra o aborto, votei a favor da DESPENALIZAÇÃO da interrupção voluntária da gravidez, porque não quero obrigar as pessoas a não fazer abortos nem a fazer abortos. Porque sou a favor do livre arbítrio. Cada um viverá sempre com as decisões que toma na consciência. Se a tiver. Cada um com a sua e a minha Maria “ca dela”.
    A Pordata serve para esvaziar o INE de função. Enquanto o PS se contenta em manipular o INE enquanto está no governo (vide lutas intestinas para dominar o INE aquando da passagem Santana Flopes/José Trocas-te), a outra direita tem que controlar sempre os falsos dados estatísticos para em todas as ocasiões manipular a opinião pública. O lei Barreto e o luso-holandês dos Santos ainda hão-de controlar, mais, Portugal.
    A propósito, sabe que a Pordata estipula que o risco/limiar de pobreza desceu em Portugal nos últimos três anos? Portugal está um paraíso. Surreal, não é?
    Morra a Pordata. Pim.

  4. Carlos Fonseca says:

    A escolha de abortar ou parir – palavra dura, mas a mais autêntica – é, acima de tudo, um direito inalienável e soberano da mulher, jovem ou mais adulta, em condições de optar. Nenhuma entidade estatal, administrativa ou cidadã(o) devem ser municiados de prerrogativas para impor uma coisa ou outra a grávidas, independentemente da condição social em que vivem. É a minha opinião, que venho de longe, de muito longe, dos tempos em que colegas da primária – escola 15 de Lisboa – chegavam às aulas descalços e esfomeados.
    O assunto é complexo, reconheço. A eclosão de pobreza e toxicodependência é fruto da degenerescência socioeconómica em que vivemos. E esta, sim, deveria ser a área prioritária para qualquer governo actuar com eficácia na ‘educação sexual’ e na erradicação de pobres. Sobretudo, acudindo às famílias desestruturadas, bem como a jovens sem trabalho e futuro, submetidos aos ditames da exclusão social; tão assumidos, de resto, pelo poder (empobrecimento, custe o que custar!)
    O MSS é chefiado por um ministro democrata-cristão. O compromisso ideológico e político desse ministro, que votou certamente contra a IVG, só por si, elimina qualquer lógica de existir em organismos do seu ministério (ISS) qualquer serviço com poderes de ordenação do aborto e laqueação das trompas. Os políticos – todos ou quase todos – são contraditórios e desrespeitadores da palavra jurada perante os eleitores. Mas a este nível, é inadmissível.
    Sabe-se que os nascidos em meios precários ou mesmo miseráveis constituem fenómeno histórico de séculos.
    A Casa Pia, tristemente célebre nos tempos correntes, foi fundada em 1780 por Pina Manique e as motivações da institucionalização da velha ‘Casa dos Gansos’ não se afastam daquelas que no presente discutimos.
    Sucede que estamos no Séc. XXI, em momento complexo é certo; mas este tipo de chagas sociais, por falta de políticas adequadas, assolam a Europa inteira – o Reino Unido é o reino recordista no número de jovens grávidas no começo da adolescência.
    Em relação aos dados da PORDATA, a comentadora Jacquerie está no direito de os refutar. Porém, e para confirmar que Portugal, no correr do tempo, se tem transformado num ‘País de Velhos’, também poderá consultar os dados da OMS:
    http://apps.who.int/ghodata/?theme=country


  5. Despenalizou-se a IVG e agora querem obrigar as mulheres a fazer laqueação das trompas quando lhes parece oportuno? É mesmo irresistível a manipulação da vida intima e livre vontade das mulheres no que toca à reprodução. Mas também não percebo que vantagens traz para o país diminuir o nº de nascimentos…

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