O flagelo do desemprego e as contas à FMI e à Gaspar

gráfico da Eurostat (2)

Tive de rasurar o gráfico com os dados do Eurostat, publicado apenas há doze dias (01-Fev-2013), relativos ao desemprego em Portugal. A taxa de 16,5% em Dezembro de 2012 agravou-se para os 16,9%, o que, segundo o ‘Público’, corresponde a mais de 923.000 desempregados. O INE, de forma mais analítica, precisa que a taxa hoje divulgada reflecte um aumento homólogo (Dez-2011) de 19,7% (+ 151.939 desempregados); aumento este que não reflecte as várias dezenas de milhar que, em 2012, resolveram emigrar e evitar a Vítor Gaspar uma dimensão maior dos erros que comete – em Junho de 2012 dizia a sábia figura que, em 2013, a taxa ficaria pelos 16%, tendo posteriormente o ajudante Pedro Martins,  entretanto afastado do Ministério da Economia e do (Des)Emprego, que o pressuposto do governo para o OGE deste ano ficaria pelos 16,4%.

Até aqui, e segundo a filosofia política dos números de que o governo é um devoto praticante, falámos disso mesmo, números. Mais adiante, poderemos voltar a fazê-lo. Contudo, o mais impressionante do desastre da governação, da qual Gaspar, Coelho e Portas têm obtuso e bruxuleante orgulho, é o ignóbil princípio do anseio de empobrecimento do máximo dos portugueses – “custe o que custar” ou “o desemprego é uma oportunidade” no pensamento irracional e desumano, em discurso cunicular.

Se somarmos aos números do INE mais de 200.000 portugueses não incluídos nas estatísticas, o total da população a enfrentar condições de complexa sobrevivência excederá consideravelmente um milhão de seres humanos – famílias inteiras em muitos casos e sobretudo adultos e crianças, com carências graves da alimentação e de bens e serviços (de saúde, por exemplo) essenciais.

Todavia, nada disto compadece a ‘troika’ e em especial o FMI. Esta instituição, centrada na salvação e capitalização dos bancos e que persegue objectivos lucrativos, para cúmulo confessa errar no multiplicador usado em políticas de austeridade.  Gaspar e os seus jovens ajudantes, Maria Luís Albuquerque e Moedas, também são incapazes de fazer melhor. Os modelos e matrizes macroeconómicas utilizados pelo governo, se certinhos em termos académicos, são meras abstracções que, aplicadas na governação, multiplicam a pobreza e a miséria, bem como dizimam o pouco que resta do tecido produtivo do País.

Como os portugueses são um povo, em períodos históricos deprimentes, predestinados para o drama e o fado, nem sequer nos falta em Belém quem assista ao desastre, sob total paralisia. Tenho a certeza de que Seguro, por falta de cultura e conhecimentos, não é alternativa. Porém, sem cair na tentação de defender um “salvador da pátria’, ainda quero acreditar haver mulheres e homens capazes de retirar da mão de garotos instrumentos incendiários que nos causam sofrimento. O supremo magistrado da Nação tem de intervir.

É natural, pois, perguntar a Belém: “Está aí alguém?”.

Comments

  1. João Paz says:

    Pelos números oficiais há 750 mil desempregados. Se lhe somarmos os inactivos disponiveis (desmpregados que nunca se increveram), os desencorajados (chegaram a inscrever-se mas não renovarama sua inscrição por absoluta falta de prespectivas) e o subemprego esse número sobe para o milhão e meio de desempregados e poderíamos continuar com os contratados a prazo (mais 750 mil) e com os trabalhadores temporários ( falsos recibos verdes etc que somam mais 750 mil) Ou seja mais de 3milhões entre os que não têm trabalho e aqueles que recebendo muito menos pelo tipo de vínculo que possuem não sabem à noite se no dia seguinte ainda terão trabalho.
    Uma hecatombe recheada de miséria e fome que faz com que em Portugal haja maisde 2,5 milhões de pessoas a viver abaixo do limiar mínimo de pobreza (420 Euros /mês).
    E as medidas do governo e da troyka “prometem” aumentar drásticamente estes números.
    Esperar por Cavaco é contar com um amigo onde existe um cúmplice do governo e, por conseguinte, um inimigo.
    Só nos resta nas ruas e onde quer que estejamos no dia a dia LUTAR PELO DERRUBE DO GOVERNO E DAS DUIAS TROYKAS (a interna comandada de momento pelo PSD mas onde coexistem também PS e CDS) e a externa.
    Qualquer solução que não passe por unir os democratas e patriotas contra estas duas troykas ao serviço dos interesses estranjeiros com a Alemanha à cabeça será simplesmente adiar e AGRAVAR o estado do nosso país.

  2. Sarah Adamopoulos says:

    “Passos Coelho afirmou nesta quarta-feira que “é normal” que o desemprego aumente ao longo deste ano.” (no Público online). Tudo normal portanto.

  3. Carlos Fonseca says:

    João Paz,
    Os números citados por mim foram recolhidos de fontes tidas por fidedignas. Todavia, estou de acordo consigo: a dimensão do desastre social é muito maior e dramática, se se considerar, e bem, que os ‘precários’ e ‘trabalhadores a recibo verde’ contribuem para uma imensidão de 3 milhões.
    A revisão das leis laborais, iniciadas por Sócrates, e agravadas por Passos Coelho correspondem à institucionalização da pobreza e da miséria.
    Quanto ao PR é mera provocação a que julgo ter direito como cidadão. Nada espero de Belém, a não ser a continuação da cumplicidade.

    • João Paz says:

      Claro que tem direito à sua provocação e eu a comentá-la, certo Carlos Fonseca?
      Mas há um aspecto em que, verifico agora, está mais actualizado que eu e esse aspecto é o número oficial de desmpregados que ainda não tinha actualizado,obrigado.

      • Carlos Fonseca says:

        João Paz,
        Tem todo o direito a comentar a provocação, como, porventura, outros pontos de vista em que não concorde comigo.
        Eu é que agradeço.

  4. Carlos Fonseca says:

    Sarah,
    Também li depois de ter o ‘post’ publicado. Não tenho pior qualificação para a abjecta afirmação.


  5. Abjecta,
    Sou incapaz de deixar sem resposta os comentários aos meus ‘posts’, mesmo os de origem abecta.
    Tem alguma dúvida de que a grande maioria dos milhares de emigrados estariam no desemprego, se permanecessem em Portugal?
    Com opiniões abjectas, a custo, ainda lido. Todavia, tratar de incapacidades mentais não é a minha especialidade.

  6. james says:

    ainda a embalagem do descarrilamento sócrates.

    Pro memoria (97) – «Seguro
    assumiu o legado de José
    Sócrates»
    A partir de agora já sabemos a
    quem reclamar a pesada herança
    do homem que pouco antes de a
    concluir dizia «estou muito
    satisfeito comigo»:
    Maior desemprego dos últimos 90
    anos;
    Maior dívida pública dos últimos
    160 anos;
    Mais baixo crescimento económico
    dos últimos 90 anos;
    Maior dívida externa dos últimos
    120 anos;
    Mais baixa taxa de poupança dos
    últimos 50 anos;
    Segunda maior taxa de emigração
    dos últimos 160 anos.

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