Pequenas maravilhas de seis ou sete anos

Por volta dos seis ou sete anos, os rapazes são uma divertidíssima combinação de inocência e perversidade. Falam de beijos na boca, mamas e pipis, e soltam gargalhadas recém-desdentadas à conta da sua própria audácia em falar dessas coisas, para logo em seguida discutirem entre eles a natureza da Fada dos Dentes e os poderes do Homem-Aranha.

Valorizam a camaradagem entre rapazes e tratam-se pelos apelidos – o Silva, o Fonseca, o Campos – e olham para as raparigas com desconfiança e impaciência. Desprezam as brincadeiras em que elas tentam inclui-los – pais e mães, comidinhas, etc – e reduzem-nas a um invariável adjectivo: chatas.  Mas são chatas com um inegável mistério, uma fonte de atracção – a diferença – que eles suspeitam vagamente que poderá vir a ser importante.

Estes rapazes são criaturas de riso fácil: qualquer frase que inclua cocó, xixi, ranho, pilinha ou diarreia arrancará gargalhadas certas. Navegam pela internet, aceleram pelo botão scroll do rato como se tivessem nascido com ele na ponta dos dedos, mas espreitam para baixo da cama para ver se não está lá o lobisomem, tal como os seus avós poderiam ter feito.

Sonham conduzir carros, marcar golos, ser presidente de várias e imprecisas entidades, salvar pessoas de prédios em chamas, acabar com as guerras no mundo inteiro, mas não se imaginam a viver longe da mãe e muito menos – buargh! – a casar com uma rapariga.

Olham para os bebés como uma espécie num estádio inferior de desenvolvimento e para os rapazes mais velhos como semideuses, capazes de marcar penalties, fazer contas complexas de cabeça, e tocar no tecto de certas salas, com os braços bem esticados.

Observam às escondidas os namorados no recreio e não entendem como é que os semideuses de onze e doze anos perdem tempo com raparigas parvas.

Fazem danças cómicas, rebolam os rabos e deitam as línguas de fora, e terminam a encenação com um “beija-me, mulher!”, mas desatam a fugir se uma rapariga tenta, de facto, beijá-los.

Apreciam dinossauros, vulcões, asteróides, qualquer elemento capaz de provocar destruição massiva, factos insólitos, explicações sobre o funcionamento das coisas, histórias assustadoras, coisas nojentas. Uma geringonça alimentada por um motor movido a ranho, por exemplo, parecer-lhes-ia a coisa mais sensacional do planeta. Mas ainda procuram o urso de peluche nas noites de pesadelo e choram por qualquer insignificância.

Aspiram a conhecer tudo, todos os factos do universo, a explicação de todos os fenómenos, mas respondem-nos, com um encolher de ombros enfadado, “porque sim” se queremos saber porque é que certo super-herói é mais poderoso do que outro.

Para eles, o mundo é científico, mas também é mágico. A infância que conheceram parece-lhes aborrecida, mas ainda apetece regressar a ela para curar joelhos esfolados, reprimendas de professores, pequenas traições de melhores amigos. Os rapazes de seis, sete anos, são uma das maravilhas do planeta e acham muita piada a que se lhes diga isso.

Comments


  1. Boa tarde, mãe!

  2. Amadeu says:

    Olha a imagem do meu neto de 6 anos !!!
    Muito bonito texto. Obrigado.

  3. palavrossavrvs says:

    Desculpa, mas esse é o meu retrato.

  4. Norma7 says:

    Delicioso e saudoso texto. Grata.
    Norma Cardoso – Rio de Janeiro/RJ

  5. antonio oliveira says:

    Ia comentar….mas para quê se já está tudo dito!

  6. sinaizdefumo says:

    Palavras para quê, é uma escritora a desabrolhar.

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