O concurso de professores e seu rabo de fora

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O concurso de mobilidade interna, quadrienal, para professores do básico e secundário trouxe este ano mais uma novidade: há, mas não há, existe mas é um zero.

Tentando explicar a quem está de fora: não se trata de um concurso para “entrar na profissão”, ou que de qualquer forma contemple poupanças ao estado nessa disforme gordura chamada escola pública.  Nada disso: normalmente existiriam milhares de vagas mas que seriam apenas acedidas a quem já está na profissão, e que assim se aproximaria de casa, já que numa tentativa de acabar com o nomadismo da vida docente sucessivos governos deixaram essa hipótese remetida para um de 4 em 4 anos, e vais com sorte. Absolutamente mais nada, a menos que as vagas superassem as 12000 (número que corresponde vagamente ao de professores sem horário na sua escola, mas que não coincide de forma alguma com ausência de horários, ous seja de trabalho), e eis que surgem 600.

Quer isto dizer?  Qual é a ideia, não havendo poupança alguma? Chatear umas dezenas de milhares de pessoas?  Penso que visa duas patifarias conjuntas.

A primeira, pontual, aponta-a o Paulo Guinote: para privatizar a gestão de escolas públicas, como sonham os chulos de sempre, é condição sine qua non reduzir ao mínimo o quadro dessas escolas. Os empreendedores deste ramo têm como princípio básico de gestão livrarem-se dos professores à medida em que estes começam a ganhar algum, abastecendo-se com óbvia vantagem no mercado dos contratados. Digo pontual porque nem há empreendedores que cheguem para um assalto generalizado às escolas públicas (mesmo que como é óbvio isto se vá limitar às mais rentáveis), nem acredito que Crato passe de um teste, rompendo o caminho e esperando que um PS qualquer venha a seguir alargar a estrada.

A segunda, que pode estar na calha e faz todo o sentido, é simples: muito em breve é criada uma carreira única no estado, a partir daí alterações no regime laboral entram em simplex, e lá para Junho/Julho os professores serão contemplados com uma carga lectiva completa de 22h, sem reduções por idade, isto para já, subir a carga lectiva não me admirava assim muito.

Aqui entra a poupança: de imediato uma supressão tal de horários que o seu não aparecimento a concurso passa a fazer algum sentido (e como consequência a passagem de uns milhares de contratados, para não dizer de todos ao desemprego, a que se segue a colocação de um número muito razoável de professores do quadro na mobilidade especial, com vista para o despedimento em dois anos), e lá para o Natal veremos os pedidos de reforma antecipada e penalizada a atingir um pico inimaginável.

Isto contou-me o meu dedo que adivinha. Às vezes engana-se, ok, mas faz todo o sentido, e até era possível quantificar estragos e supostas poupanças (em educação poupar tem o perverso efeito de no futuro ficar muito caro ao país). E com o choque que este concurso já criou, só falta o pavor que se segue. Se os deixarmos, é claro.

Comments

  1. Ana Lourenço says:

    Tenho 27 h de carga letiva sempre com 26 alunos. Não tenho redução de horário até aos 60 anos altura em que terei menos 5h letivas… Pertenço aos escravos do 1.º ciclo. Quando tenho reuniões chego a estar 12h por dia na escola.

    • ribeiro says:

      12h, só?!… Eu pertenço ao 2º/3º e já tenho estado das 8:00h às 4:00h da manhã do dia seguinte!!!… trabalho de exames sem remuneração…

  2. Anabela Magalhães says:

    Subscrevo. Aliás, já denunciei, no meu blogue, este caminho que me parece ser o do MEC. Porque uma coisa é certa, não se fecham assim vagas sem um qualquer trunfo na manga. 🙁
    Ainda anda tanta gente a dormir… 🙁 🙁 🙁

  3. almaria says:

    Também acho que eles “andem” por aí…
    Não me parece é que seja lá para Junho/Julho deste ano, por causa das eleições. Eles pelam-se por votos. Mas, logo a seguir alguém vai tratar disso.

    Sei do que fala a Ana Lourenço e não me conformo com semelhante brutalidade tão “esquecida”…

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