De regresso ao passado

Por Santana Castilho

1. Nuno Crato, antes de ser ministro, tinha um farol para a Matemática: o TIMMS (Trends in International Mathemathics and Science Study), programa prestigiado internacionalmente, que, de quatro em quatro anos, mede os resultados do ensino da Matemática, num conjunto extenso de países. Clamava pela necessidade de entrarmos nessa roda, onde, em 1995, ocupámos um dos últimos lugares. Talvez por isso, ficámos de fora em 1999, 2003 e 2007. Voltámos em 2011, ano da Graça em que Crato passou a ministro e emudeceu em relação ao TIMMS. Porquê? Porque as pessoas que ele denegriu e os métodos que ele combateu fizeram história no seio do TIMMS. Portugal, em 2011, foi 15º em 50 países. Portugal foi o primeiro na escala que mediu o progresso: foi o país que mais progrediu no universo dos 50 classificados. Portugal foi melhor que a Alemanha, Irlanda, Áustria, Itália, Suécia, Noruega e Espanha, entre outros. E que fez Nuno Crato? Acabou com o programa de Matemática do ensino básico, que contribuiu para um sucesso a que não estávamos habituados. Substituindo qualquer avaliação fundamentada por juízos de valor, alicerçados no “achismo” que o caracteriza. Surdo à indignação dos docentes. Contra as associações de professores da disciplina. Com um comportamento autocrático, guiado pela sua nova luz: a do regresso às décadas do Estado Novo.
Em linguagem imprecisa e discurso sem rigor, o ministro justifica que o novo programa, que não é ainda conhecido, virá “complementar as metas curriculares”, cujo uso tem tido “resultados muito positivos nas escolas”. Um programa “complementa” metas? As metas a que se refere, ou não estão a ser aplicadas ou suscitam a perplexidade dos professores, que vêem nelas um retrocesso metodológico. Por onde anda o ministro? De que fala? Quem o informa?
O presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática admitiu que o novo programa irá originar uma confusão desnecessária. A Sociedade Portuguesa de Investigação em Educação Matemática, em sede de discussão pública das metas, em Julho passado, denunciou a incoerência que representavam, face ao programa vigente. João Pedro da Ponte, um dos autores do programa, considera que as metas estabelecidas para a disciplina configuram um recuo de décadas. No juízo que formulou é acompanhado pela presidente da Associação dos Professores de Matemática, organização que, em Março, ameaçou interpor nos tribunais uma acção para impedir a aplicação das metas, por conflituarem com o programa. O ministro parece ter actuado com impulso vingativo. Invocam conflito entre metas e programa? Corrigem-se as metas? Não! Muda-se o programa!
Borda fora, irresponsavelmente, vão milhares de horas de formação de professores e o envolvimento de anos de um enorme conjunto de instituições. Borda fora, levianamente, vai o financiamento de uma acção que deu resultados, internacionalmente reconhecidos. Borda fora irão os manuais escolares, há pouco aprovados. E alunos e professores aguentarão mais um experimentalismo, pedagogicamente criminoso, decidido por um rematado incompetente.
2. Correm rios de tinta sobre o concurso de professores. Não repetirei o que é público, o que os directores mais corajosos já denunciaram e o que os mais informados já escreveram. Não há concurso nacional de professores. Há uma coreografia sinistra, uma espécie de dança macabra de lugares, para preparar um despedimento de mais 12.000 docentes. É isso que está em causa. Não as reais necessidades das escolas, muito menos as do país vindouro. As estatísticas disponíveis (DGEEC/MEC, PORDATA), permitem concluir que tínhamos no sistema público de ensino não superior, em 2000, 1.588.177 alunos para 146.040 professores. Em 2011 (últimos dados disponíveis), passámos a ter 1.528.197 alunos para 140.684 professores. Ou seja, o sistema perdeu 59.980 alunos e 5.356 professores, mantendo-se a relação professor/alunos. Não há dados publicados referidos ao momento presente. Mas sabemos que a alteração da escolaridade obrigatória terá considerável impacto na necessidade de professores, sendo certo que a invocada diminuição da natalidade não é expressiva entre 2011 e 2013. E o que aconteceu ao número de professores? Considerando os contratados e os que saíram do sistema, teremos, hoje, cerca de 111.600. Em dois anos, perdemos 29.084 professores. Diminuição da natalidade? Sejam honestos: exclusiva preocupação com a redução de custos, sem nenhuma sensibilidade para o futuro. Porque temos 3.500.000 portugueses com mais de 15 anos, que não têm qualquer diploma ou apenas concluíram o ensino básico. Porque temos 1.500.000 portugueses, entre os 25 e os 44 anos, que não concluíram o ensino secundário. Porque, apesar dos progressos, persiste uma Taxa de Abandono Precoce de 27,1%, a maior da Europa. Porque estamos de regresso ao passado.
* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

Comments


  1. Deixe-me ver se percebi, um dos autores do programa é contra o programa? Bem, pelo menos não é canalha como os senhores do negócio do acordo ortográfico. Ao menos isso.


    • Continuo a ler, e vejo que o meu comentário ganha mais sentido quando falo no negócio. Ora quanto é que os canalhas não irão ganhar com a edição de mais livros escolares?


  2. O facto de haver menos alunos não pode estar completamente relacionado com a saída de muitas pessoas para o estrangeiro, e com a falta de dinheiro para manter os alunos nas escolas?


  3. até que enfim percebi alguma coisa neste assunto do programa de matemática.
    Obrigado !

    O Crato é um chico-esperto.
    Ora em matéria de ministros e, sobre tudo, em matéria de ensino, nada pior que estes sujeitos que chegam e dizem “vou escavacar tudo porque está tudo mal feito”, tiram o chapéu e esperemos que se pirem para nunca mais.
    O Álvaro também é do mesmo estilo.
    A Cristas, outra.
    O Portas, sempre foi.

    Depois há o Relvas cujo nem sequer precisa de ser porque se marimba para tudo, até para ter ideias sobre seja o que for.

    QUANDO É QUE CORREMOS COM ESTA TROPA ?


  4. conta os alunos, mas o tipo de alunos é o mesmo?
    nos nºs de 2011 estão os alunos das NO? Se estiverem esses alunos inflacionam em muito o nº de alunos sem aumentarem o nº de professores significativamente.
    Foi só da qualidade do programa? Entretanto não se criaram aulas de apoio para os alunos em maiores dificuldades? Não se criaram exames? A simples introdução destas duas coisas tem um efeito potencialmente maior que a da mudança de programa.
    Além disso portugal nunca teve maus resultados se atendermos ao nível de instrução dos pais dos alunos. Se corrigissemos esse factor portugal tinha resultados bastante razoaveis, os maus resultados que sempre tivemos eram antes do mais o resultado de uma população adulta com pouca instrução. Entre 1995 e 2011 o nível de instrução dos pais melhorou.

  5. miguel sousa. says:

    Para travar os chicos espertos e ministros da educação de meia tijela era começar já na terça feira com a greve aos exames do 1º ciclo e acabar nos exames do 12º ano.

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