Assuntos verdadeiramente importantes

kelvinHá uns anos, o Bloco de Esquerda, partido em que tenho votado, resolveu, numa unanimidade rara na Assembleia da República, não condenar no plenário o comportamento de Ricardo Rodrigues, o deputado socialista que se apropriou, no mesmo edifício que é a Casa da Democracia, de gravadores que não lhe pertenciam, por não gostar das perguntas dos jornalistas.

Resolvi, então, escrever ao Grupo Parlamentar do BE, pedindo que me explicassem por que razão deixaram passar em claro uma atitude tão absolutamente condenável, exactamente por ser ter sido tomada por um deputado da nação. A resposta foi, para mim, uma desilusão: que havia problemas muito mais importantes e que dar importância a um acontecimento daqueles iria distrair os trabalhadores e a sociedade desses problemas muito mais importantes.

Parece-me evidente que o desemprego crescente seja muito mais preocupante que um roubo de pequenos electrodomésticos, como aceito que uma fractura exposta seja mais grave que um furúnculo, mas, tal como ambos os problemas de saúde devem ser tratados, não percebo por que razão dois assuntos importantes de importâncias desiguais não devam merecer a referência na medida certa, não sendo, para mim, aceitável que o furúnculo, isto é, o roubo dos gravadores, mereça o silêncio, quando não pode, de maneira nenhuma, considerar-se que um deputado tenha o direito de se comportar como um carteirista.

Esta resposta do BE, no entanto, não é exclusiva de políticos profissionais; é, por assim dizer, um mal geral. Usando-me como exemplo, mesmo não sendo exemplar, já fui criticado por amigos e comentadores por me preocupar com um assunto tão pouco importante como o acordo ortográfico. Não me espanta, evidentemente, que haja quem discorde de mim, mas ficarei sempre admirado pelo facto de haver quem se julgue suficientemente dotado para decidir quais são os assuntos verdadeiramente importantes.

O futebol, como a religião, a política ou a literatura, pode ser, efectivamente, fonte de alienação, e, durante os últimos tempos, alguns aventadores, entre os quais me incluo, têm escrito sobre o tema, em tons entre o provocatório e o apaixonado. Por outro lado, o futebol só será fonte de alienação para quem não conseguir pensar em mais nada, o que, tanto quanto sei, não é o caso de nenhum de nós.

Para além de ser um fenómeno social de enorme envergadura, tão incontornável como a televisão, por exemplo, o futebol é, também, uma distracção, um passatempo, um escape (mesmo quando entristece), tão útil à vida como uma patuscada entre amigos ou uma reunião familiar, de que as piadas e as provocações podem fazer parte.

Alguns comentadores indignaram-se, acusando-nos de estarmos a esquecer os assuntos verdadeiramente importantes. Sou suspeito para afirmar aquilo que vou escrever, mas considero que o Aventar constitui um dos espaços mais estimulantes no interior desse vasto universo a que podemos chamar “comunicação social portuguesa”. Esse facto reside na diversidade de opiniões informadas e/ou apaixonadas, em que todos os temas são verdadeiramente importantes dentro da importância que lhes cabe, num ambiente de tertúlia, em que ser sério não é ser necessariamente sisudo.

De qualquer modo, e usando uma expressão que aprendi no norte, quem não gostar pode pôr na beira do prato. Finalmente, e em síntese, roubo um comentário do Armindo, que, a esta hora, está feliz com o mesmo pontapé com que o Kelvin me entristeceu:

No dia em que se fechar a porta ao comezinho, no dia em que, por decreto, for proibido brincar, no dia em que só o transcendente (política, para uns; religião, para outros; arte, para uns tantos…) fizer parte da vida, então, sim, nada poderá ser acrescentado.

E eu quero (poder) acrescentar sempre!

Por isso, venha o futebol! Venham uns copos para a festa.

É que, por acaso, aqui, quem escreve sobre as tais coisas superlativas é quem o faz também sobre estes pequenos prazeres, estas pequenas dialécticas, estas pequenas brincadeiras. É tão bom brincar!

Comments

  1. adelinoferreira says:

    O BE deu-lhe a dita,porque não percebeu o
    texto!

    • António Fernando Nabais says:

      Obrigado, Adelino.

      • adelinoferreira says:

        Não precisa de agradecer.Foi você que
        disse que não tinha nenhuma consideraçao por mim:

        1- utilizou uma troca de tecla para
        evidenciar a sua especializacão.
        2-voltou a fazer o mesmo num erro
        ortografico em que troquei um s por
        um z.

  2. adelinoferreira says:

    “exactamente por ser ter sido tomada por
    um deputado da nação”
    No melhor pano cai a nódoa!
    Só lhe envio este comentário porque tenho
    receio que não tenha percebido o primeiro.
    Um fim de tarde feliz.

    • António Fernando Nabais says:

      Obrigado por me considerar o “melhor pano”, embora não seja essa a minha opinião. Ainda assim, não estou a ver a nódoa, o que não quer dizer que ela não exista. Confesso, portanto, que ainda não percebi nenhum dos seus três comentários. Continue a tentar.

      • adelinoferreira says:

        ó Fernando,eu já lhe desejei uma tarde feliz mas, vou-lhe fazer a
        vontade dizendo-lhe o seguinte:
        Eu sou pobre,despido de sabedoria ,
        ainda hoje conto pelos dedos e o melhor pano para mim é a chita.Eu sei,
        que o melhor pano para si é a sêda natural.Mas, isso são panos que não
        fazem parte da minha vida!

        • António Fernando Nabais says:

          Adelino, estou ainda mais obtuso que o costume e, portanto, a sua metáfora têxtil passou-me outra vez ao lado. De qualquer modo, já não é o primeiro comentador a querer adivinhar qual é o pano da minha preferência ou outras preferências e não será o último a falhar. Não perca mais tempo comigo, sou um caso perdido.


  3. É o que tenho dito ao longo de todos estes anos : A política é suja e os parttidos
    são todos iguais , o que conta é a corrupção e o paneleirismo , o resto não impor-
    ta o que é preciso é ciganar .
    Essa de dizer que o caso do Ricardo Rodrigues , outro próximo do corrupto e de-
    pravado Socartes , era distrair os Trabalhadores é duma aberracão a todos os
    títulos , por isso é que este país não se endireita , deve ser um problema sexual ,
    um desviante comportamento sexual,


  4. A política é a nossa vida, é a nossa sociedade, é tudo o que nos envolve. Tudo é política. E literatura é algo importante, é importante para aprendermos, para sermos mais evoluídos, só que não se pode esquecer da cidadania, da política, da vida própria e da vida em comum, e isso tem falhado.


  5. Eu sou dos que não gostei que se tivesse falado de bola. Mas enfim, falaram, falaram, são livres. E têm todo o direito de escrever se vos der na real gana. O que é mentira é que aqui não se fale de assuntos importantes. Fala-se e não é pouco e tem-se batido muito por assuntos sérios. E o acordo ortográfico também é um assunto sério, é a nossa cultura, a nossa expressão, a nossa pátria que está em causa.


  6. Obrigado, Fernando.
    Quando escrevo, digo o que sinto, penso que estamos na mesma onda, mesmo que o pontapé do Kelvin tenha desencadeado sensações diferentes em mim e em ti. E no Jorge Jesus. Eu não ajoelhei, só mandei ajoelhar. Tu nem deves ter visto o JJ ajoelhar! Ora, estas sensações diferentes não chegam – e nunca chegarão – para nos fazerem perder o respeito um pelo outro, pelas ideias de um e outro. É assim que deve ser.
    Quanto ao que o resultado do jogo representou, eu, no final, não bebi champanhe, apenas entornei um irish-coffe na esplanada de um bar no Cais de Gaia. Para dar força, porque, comemorar, só no próximo fim-de-semana. Porque não esqueço que o futebol é pródigo em desenlaces inesperados.
    Provocação final: Artur Jorge, o Dr. Artur Jorge, que passou por Coimbra, o poeta que foi o primeiro treinador português a ser campeão europeu, disse um dia que o campeão se encontra no derradeiro apito do árbitro no último jogo do campeonato.
    … E a provocação é: o meu clube tem sabido gerir essa verdade, aprendeu com um dos seus treinadores de referência. Ora, esse mesmo treinador, que passou também pelo teu clube, Fernando, parece que não foi ouvido pelo líder da equipa técnica do teu clube.
    Como ele, eu penso que só quando o árbitro apitar pela última vez em Paços de Ferreira, o Porto será campeão. Ou não, o que me entristeceria sobremaneira, e a ti te daria um gozo do caraças!!!
    Um copo à nossa!

    • António Fernando Nabais says:

      Grande, enorme e gigantesco Armindo
      Não consigo discordar um milímetro de tudo o que escreves. Na vida, como no futebol, até ao lavar dos cestos é vindima. Fiel a este princípio, chego a ter uma dificuldade supersticiosa em brincar às vitórias antecipadas. Vi o Jesus ajoelhar e não o condeno por isso, como não condeno o Vítor Pereira por ter comemorado com um “sprint” o golo do Kelvin. Ouvir o Jesus dizer que sofreram um golo, quando já não estavam a contar confirma que ainda lhe falta aprender a lição definitiva: só acaba com o apito do árbitro.
      Se o Benfica ainda vier a ser campeão, lá estarei a comemorar com “um gozo do caraças”, evidentemente.
      Certo, certo, é o copo que havemos de beber, das próximas vezes que estivermos juntos.

Trackbacks


  1. […] Os meus parabéns ao António Fernando Nabais por mais este excelente texto. […]


  2. […] preferência nos estádios e se possível na companhia de amigos, com direito a cervejas e bifanas. Escrever sobre futebol? Sinceramente, não me apetece, que melhor é vivê-lo que escrever sobre ele, o que o torna […]


  3. […] os defeitos de Cristiano Ronaldo. Pode parecer um assunto fútil e também é, e ainda bem, porque não há coisa mais saudável que uma futilidadezinha controlada. De qualquer modo, o futebol,  com os territórios contíguos, goste-se ou não, é um fenómeno […]

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