Manifesto contra o amor

Sou contra o amor. Que me perdoe o médico argentino Rafael de La Serna, mas não acho que um revolucionário seja movido por um grande sentimento de amor, mas já lá vamos. Eu não gosto do amor. Não me refiro ao amor fraternal, paternal, aquele que sentimos por quem amamos mesmo; é ao outro. Aquele amor que os escritores e poetas inventaram para vender livros e despejar frustrações.

Não gosto do amor dos clássicos da literatura. Aquilo não é amor, chamem-lhe outra coisa. Sofrimento, dor, estupidez, uma boa fórmula que, ao longo dos anos, vendeu bem. Chamem-lhe outra coisa, mas não é amor.
O amor dos poetas e dos clássicos é lamechas, pegajoso, baboso, velho, gasto, bolorento, bafiento, frio, distante, cheio de coisas feias e lágrimas e choros e descabelamentos e suicídios e tiranos e tiranias. O amor é aquilo que nós temos como fado – não a expressão musical, mas a palavra em si.

Sou contra este amor. Eu sou pela paixão. A paixão deve ser a coisa mais bonita do mundo. A paixão tem chama, calor, queima, arde; tem suores e corpos colados, saliva e contacto; tem som e gemidos; tem perigo e vontade, pele, sol; tem vermelho e liberdade; tem bom.

Florentino Ariza viveu toda uma paixão durante grande parte da sua vida. E aquilo não era amor, era paixão, mesmo quando só foi consumada enquanto tal no fim da vida dele e de Fermina Daza. Ariza viveu feliz com a paixão e encontrou outras paixões pelo meio. Assim se prova que o amor de que falo – o dos poetas – não pode ser castrador dos afectos ou, sendo-o não é amor. É estupidez.

Eu sou apaixonado e não sou romântico. Sou apaixonado e vivo apaixonado, com os sentimentos à flor da pele, a palavra à flor da boca e a sua expressão na ponta dos dedos. Apaixono-me todos os dias e, às vezes, desapaixono-me. Vivo os momentos com a intensidade da paixão, entrego-me, quando corre bem é tão bom, quando corre mal, vai ser melhor. Cada dia é uma paixão, cada causa é uma paixão, cada revolta é uma paixão, cada alegria é uma paixão, cada raiva é uma paixão e, tudo junto, é o bom. Mas não me falem em amor, não naquele tipo de amor meloso e desgraçado.

A paixão é o momento e é o que nos move. A paixão é impulsiva, impensada, saudavelmente incontrolável e dura enquanto dura. Depois, se a paixão deixar de existir, o que ficar da paixão será forçosamente bom. E aparecerá uma nova paixão arrebatadora como a anterior, com novas belezas e formas.

A paixão é o Vinicius e o Ary, é a revolução do que somos no momento e faz-nos bem.

“Ide e amai-vos uns aos outros”? O amor dos poetas é uma merda.

Comments


  1. Post muito, mas muito interessante mesmo!

  2. Ricardo M Santos says:

    Acho que noto aí uma certa ironia, haahahahha

  3. Amadeu says:

    Porra. Coisas lindas que se encontra por aqui no Aventar.

    O amor é a paixão dos envergonhados, a tusa dos católicos, o traje dos poetas.

    Vão-se catar e apaixonem-se.


  4. De modo algum! Acho o post muito interessante porque poucas pessoas confessam de um modo tão directo que não gostam do amor. E até acho bastante inteligente que se vá para além do estereotipo…

    A palavra “amor” é, a meu ver, uma das palavras mais estúpidas e mais enganosas que existem! Quanto ao sentimento em si, não me pronuncio porque não o conheço.

  5. Amadeu says:
  6. Ricardo M Santos says:

    Esta é, essencialmente, a grande questão da coisa:
    “Tu continuas à espera
    Do melhor que ja nao vem
    E a esperanca foi encontrada
    Antes de ti por alguém
    E eu sou melhor que nada”

  7. adelinoferreira says:

    Estiveste alguma vez apaixonado?É horrivel, não é?Fica-se
    tão vulnerável?Ficas com o peito e o coração abertos e a
    outra pessoa pode entrar dentro de ti e revolver-te por
    dentro.Constróis todas essas defesas,constróis uma arma-
    dura de alto a baixo para que ninguém te possa ferir,e de-
    pois uma pessoa estúpida,atravessa-se na tua vida…Dás-
    -lhe um bocado de ti.Não to pediram.Fizeram um dia uma
    estupidez qualquer,como beijar-te ou sorrir-te e a tua vida
    daí em diante deixou de ser tua.O amor faz reféns.Entra
    dentro de fi.Come-te e deixa-te a chorar no escuro, e é assum
    que uma simples frase do tipo”talvez devêssemos ser só
    amigos” se transforma num eatilhaço de vidro que te vai
    direito ao coração.Dói.Não é só na imaginação.Não é só
    mental.É uma dor da alma,uma dor real que te invade e
    te rasga e te parte.Odeio o amor. NG
    Continuem a discussão.Hoje, já foi bom andar por aqui!

    mental.
    mental.É uma dor da alma,uma dor real que
    amigos”se tfansf

  8. Ana Lourenço says:

    Gosto quando os homens falam destas coisas. Ouvimos um e percebemos todos os outros. Homens, abri-vos aqui no Aventar as mulheres agradecem!!!


  9. O grande problema reside no facto de a grande maioria das pessoas acreditar que o amor, ou o acto de amar, outorga direitos e deveres! E não é assim!

    A lamechice, o sentimento de posse, o ciúme, o querer mudar o outro, tudo isto é sentido como direitos e deveres. Para mim, numa situação óptima, o amor (que não conheço) deveria ser a mais pura e intocável das liberdades. Mas parece que para a grande maioria é a mais cruel e dilacerante das prisões…

  10. Não Digo says:

    O Mito da Monogamia
    O Mito da Monogamia
    de Judith Eve Lipton, David P. Barash
    Edição/reimpressão: 2002
    http://www.wook.pt/ficha/o-mito-da-monogamia/a/id/109824

  11. Sarisa says:

    Existem várias formas de amar (consoante cada pessoa e o que a vida fez dela) e várias circunstâncias para surgir o amor (que não é uma coisa muito comum de acontecer). Nem sempre as coisas correm bem e acontece o que os poetas e os escritores dizem, outras vezes a coisa até corre bem. Mas a primeira hipótese soa melhor em poema ou em livro, e vende mais porque as pessoas gostam de fatalismo e de chorar muito, porque quem chora muito é muito sensível e boa pessoa. Mas esse tipo de amor existe, assim como a paixão ou o acomodar ao outro que até não chateia muito e tem uma certa piada.


  12. Pior que esse amor de que escrevem, só o outro de que nos falam, este que posto abaixo.

    Ensinaram-nos religiosa e societalmente que o valor universal da humanidade, aquele que é objectivo ultimo a atingir pela sociedade é o valor e o sentimento de Amor.
    Considerando que, para a generalidade das pessoas, amor é o sentimento de gostar intensamente de outra pessoa, a definição de amor, sem um vinculo á paixão, provavelmente poucas pessoas sabem definir.
    Por outro lado, sabendo que o sistema de controlo em que vivemos desde os tempos mais remotos, tem como objectivo a não liberdade das massas, podemos perguntar porque incentivam o amor como valor universal?
    Da mesma forma podemos interrogar qual o sentimento que mais se impede a obtenção, ao longo dos tempos?
    Qual o sentimento mais presente e abundante na essência de tudo o que existe?
    O prazer!
    O prazer é o sentimento universal que todos os seres procuram.
    O prazer é creativo, libertador, proporciona solidariedade, bem estar, conforto, igualdade.
    O prazer é a energia universal que constantemente somos impedidos de alcançar.
    Se um ser humano obtiver um elevado nivel de prazer na sua existencia, deixa de ser escravizável.
    Só atingindo um elevado nivel de prazer, o ser humano se liberta dos medos, ódios e de outros sentimentos negativos que afligem a humanidade.

  13. Ana Luisa says:

    Um texto algo interessante porém denota-se frustração. E frustração para mim é sempre sinal de que a coisa que motiva a escrever para convencer os outros, ainda não convenceu o próprio autor. Quem me conhece sabe que sou uma apaixonada pela vida, pelas pessoas, pelas coisas que faço. Desenvolvo-me e e expresso-me através da arte e para mim, arte é paixão. Escrevo poemas que falam de paixão e não conheço poetas que não tenham sido infortunadamente apaixonados pela vida. São todos. Não escrevem de amor, escrevem de paixão, é por isso que toca e que move e mexe cá dentro.. Paixão não é só pulsar pelo bem, é pulsar pelo mal e soluçar imenso. Qual é a diferença então para o Amor?? Com paixão eu fiz o meu filho com o pai dele. Hoje vivemos separados porque a paixão acabou. Hoje eu por ele não sinto paixão. Mas descobri que algo especial se sobrepõe à mágoa e à paixão anterior. E por me ter dado o meu filho, independentemente do que ele actualmente sinta por mim, eu apercebi-me que o comecei a amar pela ligação de alma que temos e de onde surgiu uma criança. É um amor que ao inicio eu confundia com saudade do passado, mas não era… Nem quero voltar a ter com ele um reatar de relacionamento, neste actual momento. Mas sei que nasceu algo muito mais bonito e forte, que não é carnal, nem me impede as paixões que vou tendo à espera de assentar de novo com alguém mais parecido comigo. Paixão é paixão, amor é amor. Diria que paixão é humana, qualquer um acede. Amor, sem ser por pais e por filhos, só se apercebe o que é quem já tem outro desenvolvimento emocional de aprendizagem relativamente à dor. E amor aí é curativo, terapêutico, pois é essencialmente amar o outro, pela vontade de me amar a mim mesma. Contrário de amar seria desprezar, frustrar e adoecer… Paixão e Amor estão tão ligados que se confundem, até ao ponto de alguém vir para aqui escrever que poetas não entendem de paixão e só escrevem sobre amor… Enfim..

    • Ricardo M Santos says:

      Que disparate. Ary era poeta, Vinicius era poeta, estão os dois no texto. Que é só uma opinião.


  14. ADORO! Granda texto Ricardo, mesmo

  15. Amadeu says:

    E o amor ao senhor deus ????
    hehehehehe

  16. Ana Lourenço says:

    Homens para um lado mulheres para outro. A Isabel alinha na equipa deles porque, diz ela, ainda não conheceu o amor.
    Homens, defesas em baixo! Viver a paixão sem contenção e subir o degrau do amor porque é logo a seguir. Aviso, contudo, à navegação: não dar pérolas a porcos. É assim que eu vejo as coisas, se calhar mal…

  17. Konigvs says:

    A avaliar pelos comentários parece que falar de amor, ainda que seja para falar mal dele, vende também muito bem nos blogues!
    Não concordando muito com o texto, ainda assim parece-me uma técnica de engate com bastante potencial:
    “Olá querida. Sabes, eu gosto de me sentir livre, vivo o momento ao máximo. Sabes, não gosto nada do amor, o amor asfixia, prende, por isso é que as relações todas falham. Acho que devíamos era estar sempre apaixonados e viver ao máximo cada dia.
    – Vamos foder?”

  18. xico says:

    Cá por mim, nem amor nem paixão. O que eu gosto mesmo é de tesão!

  19. Sara says:

    O Vinicius é um dos maiores poetas do Amor.

    Soneto do Amor Total

    Amo-te tanto, meu amor… não cante
    O humano coração com mais verdade…
    Amo-te como amigo e como amante
    Numa sempre diversa realidade

    Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
    E te amo além, presente na saudade.
    Amo-te, enfim, com grande liberdade
    Dentro da eternidade e a cada instante.

    Amo-te como um bicho, simplesmente,
    De um amor sem mistério e sem virtude
    Com um desejo maciço e permanente.

    E de te amar assim muito e amiúde,
    É que um dia em teu corpo de repente
    Hei de morrer de amar mais do que pude.

    Rio de Janeiro, 1951.

  20. Amadeu says:

    Já agora, aqui vai uma ode contra o amor incondicional

    Se me esqueceres
    Quero que saibas
    uma coisa.

    Sabes como é:
    se olho
    a lua de cristal, o ramo vermelho
    do lento outono à minha janela,
    se toco
    junto do lume
    a impalpável cinza
    ou o enrugado corpo da lenha,
    tudo me leva para ti,
    como se tudo o que existe,
    aromas, luz, metais,
    fosse pequenos barcos que navegam
    até às tuas ilhas que me esperam.

    Mas agora,
    se pouco a pouco me deixas de amar
    deixarei de te amar pouco a pouco.

    Se de súbito
    me esqueceres
    não me procures,
    porque já te terei esquecido.

    Se julgas que é vasto e louco
    o vento de bandeiras
    que passa pela minha vida
    e te resolves
    a deixar-me na margem
    do coração em que tenho raízes,
    pensa
    que nesse dia,
    a essa hora
    levantarei os braços
    e as minhas raízes sairão
    em busca de outra terra.

    Porém
    se todos os dias,
    a toda a hora,
    te sentes destinada a mim
    com doçura implacável,
    se todos os dias uma flor
    uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
    ai meu amor, ai minha amada,
    em mim todo esse fogo se repete,
    em mim nada se apaga nem se esquece,
    o meu amor alimenta-se do teu amor,
    e enquanto viveres estará nos teus braços
    sem sair dos meus.

    Pablo Neruda, in “Poemas de Amor de Pablo Neruda”

  21. Ana Lourenço says:

    Voto no Neruda ele é que sabe do assunto. Obrigada oh Amadeu o poemacaiu que nem gingas nesta comunidade de exaltados do sexo, apenas. Muito bonito

  22. Sarisa says:

    E poetas portugueses?

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