Série Maridos (II)

FRUTOS SECOS

Era um homem pequenino, nervoso, revoltado com as circunstâncias da vida que haviam feito com que, ainda tão novo, andasse pelos dias sem ser marido de ninguém. Naquele jantar, foi ele que tratou de tudo.

– Ai as mulheres de hoje em dia não prestam mesmo para nada!

dizia nostálgico de tempos que não podia ter conhecido, mas cheio de ensinamentos antigos. Foi ele que cozinhou o jantar, ele que o preparou e se manteve de olho no forno, ele que afastou as mulheres da cozinha.

– Ai dá Deus nozes a quem não tem dentes!

Ele, uma maravilha de uma noz, ainda rijinha e estaladiça, bebia cervejas pelos dias por não ter uma mulher para comandar,

– Anda, sai lá daí que tu não percebes nada disto!

para castigar,

– Ai havias de ser minha mulher e ias ver o que te acontecia!

para censurar,

– E ainda dizem que os homens não são bons cozinheiros!

Enfim, um desperdício.

A progressiva optimização da fiscalidade do professor

O consenso aparentemente existente, entre falantes de português europeu, acerca da pronunciação da amálgama ‘setor’ deveria ser motivo suficiente para quem se entretém a adoptar o Acordo Ortográfico de 1990 – por obrigação, engano, prazer ou convicção – ter uma ideia bastante clara sobre a perturbação introduzida na ortografia portuguesa europeia através da supressão do cê de ‘sector’ — a grafia ‘setor’, note-se, não cai do céu, encontrando-se, por exemplo, não só no Assim Mesmo, no Ciberdúvidas, na Sábado e no Expressomas também cá por casa, em trabalhos académicos (cf. Zenhas, 2004  e Dias, 2011) e na Infopédia.

Acrescentemos ao raciocínio uma dose de estupefacção: apesar de a hipótese ‘sector’ existir, estando prevista na própria base IV do AO90 (sector e setor”) e sendo autorizada pelo VdM, há quem opte por ‘setor’ — neste preciso momento, ocorrem-me umas cinco ou seis razões para tal acontecer, mas hoje, convenhamos, é domingo.

Antes que me esqueça: repararam na ‘optimização’? Com pê? Sim? Pois, no título. Óptimo. Adiante.

Continuando na senda de ‘setor’, o título deste trabalho (“Uma análise das competências do professor de Turismo a partir da perspectiva dos estudantes”) é mais uma demonstração de que efectivamente o AO90 não veio “fazer com que a língua portuguesa tenha uma ortografia única. Ou tanto quanto possível aproximada”, como se pode depreender dessa perspectiva mantida no Brasil, mas em Portugal, pois, claro, proscrita — se lerem o artigo completo e encontrarem aspectos (sim, aspectos) e respectivamente, não se admirem, lembrem-se da “ortografia única” ou “tanto quanto possível aproximada” da “língua portuguesa” e  continuem sempre a acreditar.

Actualização (1/7/2013): Referência ao VdM.

Praia Fluvial com Estacionamento Pago?

estacionamento-praia-adaufeO impensável acontece nas margens do Cávado, na periferia da propalada “terceira cidade de Portugal”.
Sem factura, que o lucro é para causas nobres, dizem.

Teixeira dos Santos ou Lixívia Política

Continuo a pensar que a entrevista que Teixeira dos Santos à TVI é mais uma manifestação de branqueamento histórico de uma história mal contada. As razões que levaram Portugal ao pedido de ajuda externa não podem ser objectivadas por aqueles que degradaram o rating português e viram a dívida escalar num par de anos até à vulnerabilização final atribuída ao chumbo de mais um PEC, o IV. O testemunho de Teixeira dos Santos não vale e não colhe, tal como não vale nem colhe dizer do passado o que nos apeteça para que nos apareça com a melhor cara possível. O pedido de resgate era inevitável e ao PEC IV teriam certamente sucedido PEC sucessivos e intermináveis, num apodrecimento que nada poderia apaziguar. Fala-se do efeito dominó provocado pela crise grega, mas deveria falar-se no efeito dominó dos nossos próprios problemas estruturais e da nossa política doméstica assente no regabofe da dívida pública, na ineficiente cobrança fiscal e nula competitividade da economia, com os seus sectores protegidos sempre prósperos e o sector produtivo mirrado e paralisado. [Read more…]

Escritores moçambicanos na diáspora repudiam Acordo Ortográfico

Depois do PEN Internacional e da Sociedade Portuguesa de Autores, eis os Escritores Moçambicanos na Diáspora:

o AO é muitíssimo prejudicial, visto que empobrece e desagrega o idioma de um modo geral, introduzindo ainda inúmeras incorrecções e incongruências exaustivamente apontadas já por filólogos portugueses e brasileiros. 

Ovação de pé.

Actualização (1/7/2013)Texto da Moção (via Ivo Miguel Barroso).

Vícios privados, públicas virtudes

A notícia da jovem angolana violada por três angolanos que retirou a queixa porque “havia que salvar a reputação das famílias” só pode admirar quem nunca tenha vivido numa ditadura, como Angola continua a viver.

Sim, isto é política, e social: o peso de uma classe que se ostenta a partir da acumulação corrupta de capital é terrível.

A reputação das famílias de filhosdaputa acima de tudo. E a não esquecer: os três filhosdaputa são bolseiros do governo angolano.

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As greves no sector privado explicadas aos ingénuos

Fez greve? Arrume as suas coisas!

Escutas dos EUA à Europa

A Comissão Europeia e alguns países europeus estão indignados com as escutas americanas a instituições, cidadãos e dirigentes do continente. Têm razão e pediram, para já, explicações aos EUA.

Só na Alemanha a vigilância americana intercepta cerca de 500 milhões de comunicações por mês.

Estes dados, revelados por Edward Snowden ao jornal Guardian, confirmam suspeitas antigas ainda não provadas. Dificilmente os EUA confirmarão o que quer que seja e o caso ficará em águas de bacalhau, a menos que a Europa decida agir activamente, repondo alguma justiça pelo caminho, acolhendo, albergando e protegendo Edward Snowden, dando um sinal de que não tolerará a repetição destas práticas e abrindo brechas para futuros “Snowdens” denunciarem casos semelhantes.

Não acredito que a Europa (esta Europa hoje sem valores nem espinha dorsal) o faça, mas devia.