Somos todos merda nenhuma

Chateia-me esta coisa de, de cada vez que há uma luta mais mediatizada, temos de ser todos isto ou aquilo. Ontem, a Comissão de Trabalhadores da RTP, que respeito e saúdo, fez publicar um comunicado com o título “Somos todos gregos”. Depois de sermos todos tunisinos, egípcios, ucranianos, bielorrussos e mais alguns, somos agora gregos e turcos, com mais ou menos @, com mais ou menos x. Ora, eu não preciso de ser grego para estar solidário com a luta dos gregos, que é, quer queiramos quer não, igual à nossa. Ou dos turcos, com objectivos ligeiramente diferentes. É a moda das Primaveras e das revoluções coloridas que me chateia.Quando o povo tunisino saiu à rua, a histeria de alguns sectores políticos apressou-se a tomá-los como  exemplo, que era aquilo que devíamos também fazer, que era o caminho. Não perceberam pois o ridículo em que caíram quando, naqueles países maioritariamente do Magrebe, o que alguns queriam, genuinamente, era o que temos cá: democracia e o direito de escolher que, quer queiramos quer não, temos. Escolhemos mal, azar o nosso. Temos o que a maioria da população ainda quer, que é o parlamentarismo burguês. Naqueles países, os orgasmos da blogosfera e não só, acabaram quando o poder caiu nas mãos da irmandade muçulmana, e lá se foi o exemplo. Porque nenhuma democracia existe com base em crenças religiosas, seja na Tunísia, em Israel ou nos EUA.

Chateiam-me as revoluções coloridas, da ucraniana laranja, da birmanesa açafrão ou da bielorrussa branca. Parece moda em que as cores se adequam de acordo com as estações. Ora, as revoluções não se anunciam, fazem-se. E podemos todos apregoar que somos gregos, belgas, marroquinos, sarauís ou azeris. Somos todos isso tudo porque é ao longe. Por cá, continuamos a falar na terceira pessoa, que é bem mais fácil e cómodo.

Admiramos os gregos porque partem tudo; agora os turcos, porque também partem tudo. E cá, uma manif não resolve, porque é preciso uma greve para parar o país, uma greve geral de um dia não resolve, porque eram precisos mais dias, é preciso uma revolução, mas temos de esperar pelos militares. E vamos empurrando com a barriga – vazia – um futuro que há-de chegar mas, enquanto falarmos na terceira pessoa, bem podemos esperar sentados, desempregados, famintos. Parece-me que é esta coisa que nos ficou do salazarismo que esperar por alguém que venha e resolva. Alguém que venha e nos pegue ao colo e diga, calmamente, que vamos fazer a revolução, que vai ser rápida e indolor, e que vai ficar tudo bem. E vai, mas não será rápida nem indolor. Será mais rápida, certamente, do que a morte lenta a que nos condenam FMI, UE e BCE, de mão dada com PSD, CDS e PS.

Isto para dizer que eu não preciso de ser grego, nem turco, nem coisa alguma para que esteja totalmente solidário com as lutas dos povos, sejam eles quais forem. O carácter internacionalista que representa a estrela na minha bandeira deixa-o bem claro.

Acho, muito sinceramente, que o “somos todos” é uma forma de nos sentirmos confortáveis com a coragem dos outros – ao longe, pois claro -, uma projecção do que gostávamos de ser mas que ainda não temos coragem. Sinceramente, não sei o que falta mais. Como lia um dia destes no facebook de um amigo, para ficarmos pior, só se nos despentearem.

Comments


  1. São bordões dos jornalistas nas peças da informação, tal como “dantesco” ou “guru”, etc. Quanto às outras nacionalidades, passa-nos ao lado, mas a grega é uma boa bola de cristal para o futuro que se advinha para Portugal, (de que a falta de dinheiro para pagar os subsídios de férias é apenas uma mínima falta).

  2. Jorge Costa says:

    A Insustentável Leveza da Irrelevância
    “Os passarinhos, tão engraçados, fazem os ninhos com mil cuidados. São p’ra os filhinhos que estão p’ra ter que os passarinhos os vão fazer..” Será este o mote do discurso do presidente Cavaco Silva no próximo 5 de Outubro.
    Enquanto os portugueses se debatem com crise, mais de 1 milhão de desempregados (dos quais mais de metade sem qualquer subsídio), milhares que perderam as casas ou em risco disso acontecer, muitos outros que passam fome ou comem uma única refeição diária graças à caridade de Instituições de Solidariedade Social, Câmaras ou Organizações não Governamentais a nossa classe dirigente compraz-se na subserviência a interesses estrangeiros ou enrola-nos com discursos ocos e sem sentido sobre um Portugal que só existe na sua imaginação.
    O ministro Gaspar, pior que o professor Karamba, não tem mais preocupações que as derrotas do Benfica, que tudo ia ganhar e morreu na praia perdendo tudo, e desculpa-se com um Inverno tempestuoso para não acertar uma única previsão.
    Cavaco Silva tece odes à agricultura que ele ajudou a destruir quando era primeiro-ministro, trocando-a por um prato de lentilhas de subsídios da União Europeia.
    Passos Coelhos a cada pronunciamento apresenta uma ideia diferente e cada vez mais trágica para todos. Em pouco mais de um mês os subsídios de férias e de Natal já trocaram várias vezes de nome e de data de pagamento.
    Paulo Portas traça linhas vermelhas às taxas sobre as reformas mas nada diz sobre um corte retroactivo das pensões dos aposentados da função pública de muito maior valor.
    O Presidente da República é uma entidade completamente irrelevante que só nos custa dinheiro e ocupa o espaço do Palácio de Belém. O eleitorado reconhecendo a sua completa incapacidade para o cargo brinda-o com uma notoriedade negativa nas sondagens, novidade da nossa democracia.
    Uma análise retrospectiva da nossa história leva-nos a concluir que as nossas classes dirigentes sempre foram muito rápidas a submeterem-se aos interesses estrangeiros, venerados e agradecidos, em detrimento dos interesses nacionais. Sem grande esforço basta recordar o que se passou no nascimento da 2º dinastia em que até, o tido como muito patriota, Nuno Alvares Pereira só alinhou pela nossa independência face às vantagens que teria em caso de vitória.
    Portugal ao longo do tempo tem tido muitos Miguel de Vasconcelos. Infelizmente nem todos com o mesmo fim!
    Todo o apoio ao aborrecimento de Cavaco Silva pelo comentário de Miguel Sousa Tavares sobre a sua pessoa, há sem dúvida um grande erro de análise. Na realidade palhaços somos nós, vítimas de todas as incertezas, que ainda com tanta bonomia vamos suportando estes dirigentes que alegremente nos vão afundando.


  3. Concordo plenamente com o seu comentário , bem
    observado e a luta tem de ser de todos nós , mes-
    mo a nível internacional e paralisar os dias que fo-
    rem necessários até que esta cambada seja corrida
    de vez , para não nos enganarem mais .

Trackbacks


  1. […] em Portugal aos acontecimentos no Brasil não é um fenómeno isolado. Vem na sequência das primaveras e revoluções coloridas que fazem as delícias da classe e ideologia dominantes, pelo facto de […]

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