Enquanto os pássaros visitarem as cidades

"A Balada do Mar Salgado" - Hugo Pratt

“A Balada do Mar Salgado” – Hugo Pratt

Deu a certa imprensa, aqui há dias, um arrebato de histeria contra as gaivotas. Chamaram-lhes ladras, acusaram-nas de roubar peixe e pão aos distraídos, de assustar os turistas nas esplanadas, de acordar a vizinhança quando gritam de fome nos telhados. Foram ouvidos os especialistas, que explicaram tratar-se de uma “espécie oportunista”, por adaptar-se às pessoas e aos ambientes urbanos.

Devem ter sido os primeiros rebates da época tola, que este ano parecia mais arredada da imprensa, não fosse o Verão estar a ser quente em todas as acepções da palavra. Mas é certo que todos os anos se recuperam notícias alarmistas sobre a “praga” de gaivotas, os perigos das bactérias que as bichas carregam, e até se lamenta, muito hipocritamente, que elas ataquem as pombas, as mesmas pombas que são também uma praga a exterminar em nome da saúde pública.

Levo anos a ter as gaivotas como inquilinas no telhado, a sofrer os seus ataques de cada vez que há crias nos ninhos e eu tenho o atrevimento de querer sair para a varanda, a descobrir cagadelas diárias nos vidros das janelas.

Todas estas circunstâncias dão-me legitimidade para devanear com espingardas de pressão, vociferar “lá estão as grandes putas” quando me sobressalto com um grito já noite caída, e sentir, em geral, uma grande antipatia pelos bichos. Mas habituei-me a partilhar espaço com elas e confesso que sinto quase orgulho quando as crias – cinzentas, feias, pesadonas – se erguem do ninho do meu telhado e se lançam para os seus primeiros voos destrambelhados, como se eu tivesse algo a ver com mais esta geração nascida por cima da minha cabeça.

E quando bato a porta de casa e desço a rua, e elas gritam como se me cumprimentassem, não é por estar longe do mar alto que deixo de dar-me ares de Corto Maltese, e entrar na mercearia como quem chega ao bazar de Samarcanda.

A invasão das cidades pelas aves, com os seus inquietantes ecos hitchcokianos, deveria ser mais motivo de vergonha para nós, tão pouco hábeis a respeitar habitats alheios, do que de inquietação sanitária. Expulsamos as gaivotas dos mares, despejando-lhes toneladas de dejectos, e agora alarmamo-nos com o roubo de uma sardinha ou a incursão mais atrevida pela esplanada. E deveria ser motivo de alegria para nós, até me atrevo a dizer, e de agradecimento, que ainda nos cheguem essas visitas aladas, que as aves ainda desçam às cidades e nos rocem o ombro quando se lançam sobre as fontes, ou se escapem por entre os nossos pés atrás de um pedacito de pão.

Não sei se os pombos ainda entram pela confeitaria Arcádia, como dantes, numa marcha patusca e civilizada, limpando as migalhas do chão com tino e esmero, só lhes faltava cumprimentar os clientes e acenar uma despedida com a asa. Corri, corremos, muito pelos Aliados com o saco de milho na mão, atrás dos pombos, esmurrei o queixo muitas vezes na calçada portuguesa, porque, como bem apontava a minha mãe, nunca soube cair, tudo pela graça de vê-los aproximar-se desconfiados e partir num alvoroço de asas trémulas. Esperei, a cada ano, pela chegada das primeiras andorinhas, eu que tinha a sorte de ter um ninho ao pé da janela do meu quarto, e era sempre a primeira a descobrir os biquitos abertos das crias.

Raramente revejo andorinhas na minha cidade, mas há pouco fui reencontrá-las nos céus de Coimbra. Caía já a tarde quando elas alarmaram a praça num súbito alvoroço, sinal da aproximação do milhafre. A grande ave voou sobre as nossas cabeças, não três vezes como o mostrengo da noite de breu, mas muitas mais, num voo amplo e circular, dizendo-nos com isso que poderia pairar sobre nós sem se dignar agir quanto tempo quisesse, ou abater-se em voo picado a qualquer instante e arrebatar o que tinha vindo buscar, “silenciosamente e muito depressa”, como naquele poema de Auden.

Faz-se silêncio nas mesas quando as aves nos sobrevoam assim, um silêncio quase reverente a estas visitas aladas. E depois retoma-se a conversa, consciente das suas presenças, num certo sentido tranquilizados pela suas presenças. Porque enquanto as aves visitarem as cidades ainda haverá salvação para elas, as cidades, e para nós.

Comments

  1. xoka pik says:

    Podes ficar com elas para ti…


  2. E quando é que acaba a exclusividade no Aventar para eu poder publicar estas pérolas no meu blog também? Vá lá, ó pessoal, eu prometo o intervalo de uns dias,


  3. Gostei deste texto. Também acho que o facto de certos animais inavdirem o nosso habitat é uma resposta ao facto de lhes termos tirado o deles. E qual é o animal (inlcuindo humanos) que não é oportunista?

  4. José Gabriel says:

    Belo texto, Carla Romualdo, com o qual me identifico sem dificuldade. Mas a situação já foi pior. Lembro-me quando o sector eco-fascista (não gosto de usar com ligeireza estas qualificações, tanto mais que me considero um ecologista), não há muitos anos, tentou exterminar as gaivotas da zona Peniche/Berlengas distribuindo-lhes sandes envenenadas. Só que os bichos não foram na conversa e o expediente pouco resultado deu. Vivamos, pois, em paz com os nossos vizinhos alados. Sem invejar aquele atributo que só podemos imitar com toscas próteses: a faculdade de voar. Se este diálogo se desse no ano passado, não deixaria de lhe enviar os cumprimentos da gaivota que os meus sobrinhos baptizaram com o nome de António e que, diária e pontualmente, se apresentava na nossa varanda em Armação de Pêra para receber o petisco a que – com razão…- se julgava com direito.


    • Agradeço esses cumprimentos que me atrasei em receber e aproveito, entretanto, para retribuir com as saudações de uma outra gaivota, esta nortenha, que fica a olhar-me todas as noites enquanto baixo a persiana, empoleirada no telhado em frente. Como acho que só a vejo pela noite, e me parece sempre um pouco taciturna e ligeiramente ébria, desde há uns tempos comecei a chamar-lhe Edgar.


  5. Não há animal que mais prejudique a Natureza que o animal humano. Esses tipos que envenenam gaivotas, pombos, gatos, gostam de touradas, matam golfinhos, focas, caçam baleias, caçam tudo e mais alguma coisa, e até se caçam uns aos outros, não têm a menor noção dos desequilíbrios que provocam. Se lhes passasse pela cabeça a função desempenhada por cada um destes, e todos os outros animais, para o nosso bem estar egoísta, mudavam de certeza os comportamentos. Muitas vezes eles, só com o instinto, fazem mais do que nós com um cérebro tão evoluído. Ora vejam se as gaivotas das Berlengas foram parvas!

  6. Carlos Fonseca says:

    Tenho o privilégio de, anualmente, contar com a visita das andorinhas, aqui no Alentejo. Temos um ninho para elas que se mantém na entrada da casa há 5 anos. Este ano vieram poucas; muito, muito poucas mesmo. Nós, homens, somos predadores fatais. Do clima, dos animais e de nós próprios, igualmente animais ditos racionais.


  7. Pois é isso mesmo que foi dito por todos – há bichos que se tornam “comensais” dos homens quando se lhes tira ou reduz os habitats – o mesmo com andorinhas que há anos não tenho na milha janela à minha espera para me cumprimentar pois já me conhecia melhor do que eu a ela – mas há outros tantos que não se mata directa mas sim indirectamente como os mamíferos do mar – com plásticos e poluição de crude e não só – e os muitos que já fazem muito para nada chega porque a velocidade de morte é gande


  8. Isto não é justo: fui eu que pus as mãozinhas para baixo no meu próprio comentário e não sei como se tiram 🙂

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