A morte é como o sabão*

Depois da morte de António Borges, e do que já foi escrito aqui e que subscrevo, publico um artigo sobre a morte e José Hermano Saraiva, que se aplica a António Borges. Que a terra lhes seja pesada.

A morte é mágica. Tem o condão de limpar tudo. Dizia-se nas margens do Leça que o sabão lava tudo, só não lava as más-línguas. Afinal, é a morte. A morte é capaz de limpar o passado mais cretino de qualquer cidadão. Temos nós o hábito do coitadinho na hora da morte. “Morreu, coitado”. Mas a história não morre, pode é ser manipulada e, às vezes apagada.
Parte do país lamentou a morte de José Hermano Saraiva, um grande comunicador, ao que parece, mas um menos bom historiador, diz quem percebe da poda.
O detalhe de estarmos a falar de um ministro da ditadura fascista de Salazar parece não incomodar quem o elogia. Lá está a morte a limpar as memórias. Diz-se que a educação era o seu grande amor. Um amor à moda antiga, daqueles que se revolvem à bastonada, como quando mandou a GNR carregar sobre os estudantes de Coimbra durante a Crise Académica.
Alguns desses, dos que foram corridos à bastonada por ordem do comunicador, elogiam-no mesmo assim, fazendo ressuscitar a triste máxima do “quanto mais me bates mais gosto de ti”. Outros, mesmo não tendo vivido esse dia, não perdoam a ditadura.
Continuo a achar que quem não foi bom em vida, não tem de ser bom porque morre.

*Artigo publicado originalmente no jornal Notícia de Matosinhos

Comments

  1. nabantina says:

    Nada tem a ver. O Prof. cometeu o erro das bastonadas permitindo que a policia enviada pelo Min. da Ad. Interna entrasse na Universidade. Entretanto educou este povo durante cerca de sessenta anos trabalhando cerca de 365 dias por ano para isso. Teve as homenagens que merecia. O povo chorou-o mesmo. Quanto ao António Borges, que nos desprezou tanto quanto se pode desprezar um ser humano, apenas teve as homenagens dos da sua laia. E, muito bem.


  2. Subscrevo


  3. Amigo Ricardo M. Santos
    Embora , normalmente , concorde com os seus coementários ,
    não concordo de todo quanto a Hermano Saraiva , que ape-
    sar das bastonadas , foi dos poucos do antigo regime , ao
    qual se chegou a opôr , chegando a ser preso , salvo erro ,
    que foi considerado por toda a gente de esquerda e de di-
    reita , como pessoa de bem e útil à sociedade .
    Apesar das críticas , creio que era bom historiador e os seus
    programas não fizeram mal a ninguém , antes pelo contrário . .
    O António Borges era mesmo mau e queria ser dono do
    mundo ,para subjugar toda a gente .
    Era um dos homens de mão do Goldman Sachs e creio que
    está tudo dito .

Trackbacks


  1. […] contagem festiva de cadáveres adversários?! Vingança? Mas adianta? No limite, não haverá aí, caríssimos camaradas, uma base humanística mínima, sem Esquerda e sem Direita, sem Liberalismo nem […]

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