Cartoline d’Italia (9) (da Capri)

 Elisabete Figueiredo

«Il pommeriggio è troppo azzurro e lungo per me»* (Paolo Conte)


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A poesia. Como se a paisagem não fosse suficiente para nos atingir no centro do coração, aí onde acontecem todas as coisas e, tantas vezes, o vazio.
De manhã, a minha manhã, um pouco mais cedo que a minha manhã costumeira resolvo ir ao farol, na Punta di Carena, do lado de Anacapri. Antes de ontem o senhor do hotel disse-me que era imperioso ir… ‘il posto più bello dal mondo’. Uma vez, numa dessas vezes em que o coração se concentra, alguém me disse ‘il tuo sorriso è come um faro sul mare’** e se houve um sítio onde isso poderia ser verdade, quero dizer, um sítio para além do coração, esse sítio será seguramente aqui. Então, não há razões para não ir ao farol, certificar-me que encontro o meu sorriso. Certificar-me que é o lugar mais bonito do mundo.
Caminho devagar desde o hotel até à praça da estação de autocarros. Sempre estão 40 graus, ou mais, e eu já feita água, caminho. Devagarinho. Apanho o autocarro. Um autocarro muito pequenino. Tem oito lugares sentados e talvez uns 10 ou 15 em pé. Este minúsculo autocarro avança então pela estrada do farol, curva e contra curva, e alcança-o. Ao farol.
Desço e penso que é um lugar bonito. Mas não é, está longe de ser, o lugar mais bonito do mundo. Pelo menos do mundo que conheço eu, que não é muito, é verdade, mas nele existem lugares bastante mais belos que este. E não estou a contar com os sorrisos. O calor acentua-se, já que não há sombra de uma sombra. Penso que nunca transpirei tanto na vida e é capaz de ser verdade. ‘il posto più bello dal mondo’ está fechado, com cadeado e tudo, como se a beleza não devesse ser percorrida ou partilhada. Assim mesmo, há uma estradinha até à beira de uma escarpa sobre o mar e eu percorro-a a pingar água e alguma desilusão pelo cadeado que fecha o farol. Alcançada a beirinha da escarpa reconsidero. Talvez seja o lugar mais bonito do mundo e talvez o meu sorriso, que um dia esteve no centro do coração de alguém, também aqui se encontre, a cair abismado sobre o longo azul do mar. A água. Não fosse tão alta a escarpa e a tentação de mergulhar seria grande, como o horizonte imenso.
Regresso, ainda mais devagar. Encontro uma sombra e sento-me e bebo água. E apanho o autocarro de regresso a Anacapri. Curvas e contra curvas numa vertigem de azul. Em Anacapri apanho outro autocarro para Capri. Contra curvas e curvas e o mar. Sempre este mar vertiginoso. Podia contemplar-se este mar para sempre, como quem se afunda continuamente em toda a beleza do mundo. Em Capri não sei exatamente o que fazer. É um lugar bonito, certo que é. Mas de uma beleza artificial e maquilhada. Como as mulheres que passam na Via Vittorio Emanuele II, perfumada e cara, cheia de lojas com nomes sonantes onde as empregadas, congeladas pelo ar condicionado, se parecem com os manequins das montras, perpetuamente imóveis e impecáveis. Como as mulheres que passam nesta rua. Pergunto-me como poderão andar com tais sapatos, com tais vestidos demasiado justos para o calor que faz, com a cara cheia de base, batom e rímel. Pergunto-me porque não se desfazem numa pasta informe. Mas permanecem impecáveis, sem transpirar, como se não fossem gente. Talvez não sejam, já vi bonecos de cera com um ar mais humano, tenho de o dizer. Muitas destas mulheres, além da maquilhagem, ostentam o ar espantado do botox. Digo a mim mesma, como se fosse preciso, que assim como assim vale mais ser eu. Mas estou segura que se estas mulheres me dedicassem um minuto de atenção enquanto entram e saem do ar condicionado das lojas, jamais pensariam o mesmo que eu. Não sei porquê, gosto disso.
Percorro a rua das bonecas de cera até ao fim e entro na sossegada e mais fresca Via Federico Serena. Dali avanço até à Via Certosa e depois entro na Via Matteotti. Há uma barraquinha que vende gelados e granizados de fruta, entre limões de Capri. Verdadeiros limões de Capri, anuncia o letreiro. Peço uma água fresquinha e um gelado com os sabores do costume: ‘cioccolato, fragola e limone’ e sento-me num muro a comê-lo. A vida podia ser só isto, penso, deliciada, entre uma colherzinha fresquíssima de chocolate e outra de limão e ainda outra de morango. Não misturo os sabores. E nisto vejo-o. Ali sozinho, o único que vi em Capri. Sozinho. Luminoso. Brilhante, de um amarelo tão verdadeiro como os limões de Capri. Vejo-o e nasce-me outro sorriso do fundo do coração. O girassol. A flor única da alegria. Observo-o longamente como quem olha um amigo próximo.
Com o girassol a iluminar-me o sorriso, vou pela Via Krupp até ao Giardini di Augusto. Um jardim pequeníssimo, com sombras e flores de mil cores (nenhuma como a do solitário girassol) para uma vista imensa. Os farilhões outra vez. A Marina Piccola e mil barcos no mar. Sento-me num banco grande, confortável como um sofá. Tiro o livro da cesta e começo a ler. Na parte em que o Juan Marsé diz que o universo caminha para um caos sem sentido. Não estou de acordo, senhor Marsé. Se há lugares que são os mais bonitos do mundo, corações concentrados, sorrisos e girassóis, certamente haverá um sentido qualquer em tudo isto. O da beleza que há fora das ruas caras e das mulheres ‘embotoxadas’ que não se desfazem como a gente. Mas o senhor saberá disto melhor que eu. Ocorreu-lhe escrever aquilo para dar sentido ao romance. Fico por ali um longo tempo, a ler, a observar as pessoas e a sentir o vento que vem do mar. E a seguir continuo, subo as ruas todas que desci há bocado. Desfaço-me – eu que não uso maquilhagem – outra vez.
Chego à Piazza Umberto II e sento-me numa esplanada. Um café e água fresquíssima. Observo as pessoas. As mesmas, ou parecidas com elas, de há pouco, impecáveis na sua condição de seres de cera. Grupos de japoneses com um guia na frente que segura placas vermelhas, amarelas, verdes. Estou nisto e um senhor, na mesa ao lado, ao ver o livro sobre a mesa pergunta-me: ‘lei è portoghese?’ Que sim, digo eu. ‘De Lisboa?’ Mais ou menos, respondo. Como sempre não sei bem de onde sou. Explico rapidamente que sou de Lisboa, mas vivo a norte.
Ele diz Lisboa longamente, e eu encho-me de nostalgia. Esteve há dez anos em Portugal e tudo era belo. Lisboa repete longamente e a luz e eu, juro, encho-me mais de nostalgia e digo que sim, que o meu país é belo. Ele olha para mim quase como eu olhei há pouco o girassol e diz ‘si, sicuro che lei è portoghese***’. Talvez noutro dia me espantasse a evidência, mas hoje não. Apenas me ocorre perguntar-lhe porque o diz daquela maneira. Longa. Quase terna. ‘Lei sa che ho notato io a Portogallo?… che la gente era silenziosa… là tutto era silenzioso… c’era questo silenzio… quasi come un velo di malinconia’****…

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a tarde é demasiado azul e longa, para mim»

** «o teu sorriso é como um farol sobre o mar»

*** «sim, seguramente que você é portuguesa»

****«sabe o que notei em Portugal?… que as pessoas eram silenciosas… tudo era silêncio… havia este silêncio… quase como um véu de melancolia».

Comments


  1. Este é seguramente o sítio mais belo do mundo… a lê-la!
    Parabéns pela sua escrita enleante e lindamente pictórica.
    Beijos.


  2. Obrigada Manuel, ainda bem que gosta. Fico contente.

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