Cartoline d’Italia (10) (da Napoli)

Elisabete Figueiredo

A vit e’ nu’ muorz, viratenn bene!*

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Cheguei ao centro ‘della terra del mezzogiorno’. Da terra do meio-dia. Deixo Capri para trás, e o seu mar azul e as suas escarpas longas. Deixo o quartinho branco e o terraço de ver o pôr-do-sol e chego a Nápoles às três da tarde. O calor é insuportável. Assenta bem na terra do meio-dia, é verdade. O mesmo não pode dizer-se das ruas estreitíssimas onde o sol entra com muita dificuldade e onde se pode apanhar a roupa que o vizinho da frente deixou a secar, bastando estender o braço. Estou numa rua dessas e consigo ver perfeitamente a televisão dos vizinhos, tocar os lençóis de flores que têm a secar. Mas prefiro deixar tudo como está e sair do hotel.

Como, na via Montecalvario, as melhores bruschette al pomodorino e o melhor esparguete a le cozze que comi na vida, bebo uma cerveja e toca a percorrer a via Toledo até à Piazza Dante. Na verdade eu queria ir à Piazza del Gesù mas comecei a andar e só parei bastante mais à frente quando comecei a desfazer-me em água e a achar demasiada a distância. Devo dizer que nunca estivem em Nápoles. Que, na Itália, me falta(va) conhecer tudo abaixo de Benevento, que fica um pouco a sul de Roma. Devo dizer que desde que me recordo sempre quis vir a Nápoles. Devo também dizer que sempre que estive em Itália mais tempo e dizia aos meus colegas italianos que queria vir a Nápoles, a resposta era uma cara de espanto e a advertência de que não devia vir ‘da sola’. Aqui estou finalmente, apesar de todas as caras feias, de todas as advertências. Aqui estou sozinha, a estranhar tudo à minha volta, como sempre, a estranhar-me a mim ainda mais que ao resto.

Entrei numa outra Itália, muito diferente da que até aqui conhecia. Uma Itália quente, escura, em que se grita das janelas para a rua e da rua para as janelas, em que as praças se enchem de gente e de lixo ao entardecer. Uma Itália mais barata (sobretudo depois de Capri) e onde deves regatear tudo. Como no táxi desde o porto. 15 euros disse-me o homem. Eu disse que não. que da estação ao porto no outro dia me tinham levado 10 euros e o hotel é perto dali, pelo menos mais perto que a estação. Digo-lhe 10 euros. Diz-me 12 euros. Olho para a mala que venho a arrastar há um bocado e respondo ‘va bene’ e entro no carro. Lá dentro ele diz-me que é um belo carro, que está fresco, 15 euros. Digo que não que são 12, como combinámos. Insiste. Insisto eu também. E ganho eu. Apaziguado pergunta-me de onde sou, respondo portuguesa. A partir daí começa a perguntar-me várias coisas… como se diz ‘andata e ritorno’? ‘Ida e volta’. Como se diz ‘molto bello’? ‘muito bonito’. E é isto. Uma lição de português para compensar os 3 euros que não lhe dei.
Voltando adiante. Chego à Piazza Dante. Quente como o meio dia. Sem gente quase. Turistas nem vê-los e a diferença entre Nápoles e Florença é, também nisto, abissal. Também não parece haver mosquitos em Nápoles, o que me surpreende, atendendo ao lixo nas ruas, a transbordar dos caixotes, em toda a parte. Atravesso a praça, passo um arco, entro numa rua cheia de livrarias de livros em segunda mão, viro à esquerda e a rua é agora quase completamente composta por lojas de instrumentos de música. Gosto desta especialização e, além do mais, a rua é realmente bonita e chego à Piazza del Gesù.

Antes ainda entro no mosteiro de Santa Chiara para fugir ao calor. Toca o telefone e saio da igreja, sento-me no jardim e falo. Italiano e inglês. Desligo o telefone. Um senhor senta-se no meu banco e eu levanto-me, olha-me com uma certa pena e diz-me ‘já vai?’ sim, vou passear. ‘Lei è francese?’ ‘No, portoghese’. ‘Oh è ancora più bello’. Agradeço-lhe a preferência pela minha nacionalidade e digo outra vez que vou passear e despeço-me ‘buona sera’. Continuo a caminhar pela via B. Croce, páro aqui e ali para tirar fotografias. Aqui a uma janela, ali a um beco estreito, acolá a um pátio, mais à frente a um graffiti. Agora reparo que a cidade está literalmente coberta de grafitis. Até as igrejas, fachadas inteiras de casas, portas, janelas, estradas. Aqui debaixo da janela do quarto, por exemplo, no chão há dezenas de corações de vários tamanhos e em letras grandes, a desenhar um caminho até uma porta e no meio dos corações, está escrito, igualmente a cor-de-rosa ‘Camilla I love you’ e uma data de há 3 anos atrás. Uns românticos, estes italianos. Já se sabe.
Vou a admirar os grafitis e o resto. Estou parada já não sei porquê e alguém me toca nas costas. É um rapaz com uma camisola às riscas que me pergunta, quando me viro ‘lei parla italiano?’ Respondo que sim e ele começa a falar de uma associação, numa rua ali mesmo em frente, uma associação para a preservação da cultura russa, que tem um bar onde se podem provar delícias russas e onde se serve chá de forma tradicional e… ‘ma…’, digo eu, ‘siamo in Italia!!! Non voglio vedere cose russe’. Ele ri-se e depois explica-me que faz parte de um grupo de teatro, da associação, e que o pequeno bar serve para arredondar os rendimentos do grupo. E diz-me matreiro: ‘também temos vodka’. Respondo que detesto vodka, ele ri-se outra vez e diz-me que desconfia que ninguém gosta. Rio-me também eu e digo-lhe que hoje não, mas que amanhã vou lá espreitar, ao bar russo e pergunto-lhe o horário. Responde-me que depende mas que amanhã às 9h há a exibição de um filme… sim, às vezes também fazem pequenos ciclos de cinema…’a lei le piace il cinema?’… rio-me e digo que ‘me piace un sacco il cinema’. Então, apareça amanhã, diz-me. Pergunto que filme é… é do Nikita Mikhalkov, conhece? Se conheço? Não só conheço, como gosto muito dos filmes do Nikita Mikhalkov e fica arrematado. O rapaz pergunta: ‘lei come si chiama?’. ‘Elisabete’. Repete o meu nome, estende-me a mão e diz ‘io sono Ivan’. ‘Piacere Ivan, a domani’. Já sei. A minha mãe dirá que eu não devia falar tanto, principalmente com pessoas que não conheço, sobretudo em terras estranhas. Mas eu falo muito, principalmente com estranhos em terras estranhas.
Continuo o caminho pela via S. Biagio dei Librai até à via Duomo. Subo-a e encontro a catedral. Entro. As igrejas (já se sabe que gosto de igrejas) são os lugares mais frescos do mundo. Sento-me a admirar aquilo. Ouço um padre a rezar missa e aproximo-me. Nunca ouvi uma missa em italiano. É certo que não ouço missas frequentemente. Mas em italiano, sabe-se lá, sabe-me bem. Do que me recordo de quando era miúda, a missa vai a mais de meio. Deixo-me ficar para ali, a ouvir a ladainha. ‘La messa è finita’ diz o padre e eu lembro-me do Nanni Moretti, claro e penso que não sabia que em Itália (e se calhar noutros países) os padres acabam a missa assim. ‘La messa è finita’. Belo filme, já agora, que estávamos a falar de cinema. Saio para a praça em frente à catedral que está agora cheia de miúdos a jogar à bola e a falar muito alto. Alguns têm camisolas com nomes de jogadores de futebol que não sei quem são. Parecem todos contentes e começa a ficar fresco. Desço a via Duomo, viro à direita na via Tribunali e vou sempre em frente. A meio sento-me numa praça onde num quiosque está escrito: A vit e’ nu’ muorz, viratenn bene!’* e numa parede em frente ‘chi milita merita’*. Sim, aproveito-a bem, nestes momentos, à vida. Mas quanto a militâncias… ‘sono in vacanze’

 

* «A vida é breve, aproveitem-na bem»

 

** «Quem milita, tem mérito (ou merece)»

Comments


  1. Esta descrição, esquina a esquina, com a pitada sempre colorida das sensações sentidas, é de um realismo tocante em que participei totalmente.
    Obrigado.


  2. de nada Manuel. pode continuar a ‘participar’ nos próximos dias.

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